Afinal, o que realmente importa?

Esse texto toma como base, a seguinte matéria:
https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,voce-a-serie-que-evidencia-o-poder-da-netflix,70002696961

É verdade, visibilidade nunca foi sinônimo de qualidade; mas afinal, o que realmente importa? O que é qualidade cinematográfica? — aqui, incluo também séries (a contragosto, pois são mais mídia), veja Game of Thrones como exemplo, tanto sucesso pelos motivos errados; acredito que se há público o suficiente que veja determinada obra como arte, então é arte!

Alguns fogem da regra – Homem nu no museu é arte? Antes me pergunto: há público que considere como arte? Se a resposta é sim, então quem sou eu para dizer que não é? Agora quando o assunto é cinema, não há discussão: é arte! Em sua própria essência, em sua própria definição, em seu berço. Pode ser entretenimento também? É claro que pode, mas isso não tira o fator inicial de que está sendo usado, para entreter, uma linguagem artística. Vingadores é arte? É arte com o intuito de entreter; mas e quanto a qualidade? Aí já é outro tema. Vingadores está mais preocupado com a carteira do público, do que com sua afinidade com o cinema. O mesmo vale para boa parte dos blockbusters atuais.

A computação gráfica é uma boa representante da decadência do cinema americano, veja esse parágrafo: “Em “Planeta dos Macacos – O Confronto”, temos mais uma amostra de que a tecnologia, que costumava andar de mãos dadas com a evolução da linguagem cinematográfica, agora está destruindo o cinema.” – o texto em questão é do crítico Sérgio Alpendre, basta essas poucas palavras para resumir o mal-estar atual das produções arrasa-quarteirão.

Se o tema é visibilidade, então a Netflix é o centro, mas ter tanta visibilidade não quer dizer absolutamente nada! Há tantas evidências de produções ruins que fazem sucesso por aí: 50 tons de cinza, Vingadores, Game of Thrones, Velozes e Furiosos… e claro, muitas das produções com selo Netflix: Stranger Things, Narcos (a partir da segunda temporada) e agora uma tal de Você.
Essa última, talvez seja o que melhor evidencie (hoje, pois basta esperar GoT retornar) esse mal-estar da falta de qualidade, que se torna a menina dos olhos de um público ávido por uma nova descoberta na plataforma, mais preocupado com as voltas e mais voltas do roteiro do que de fato com a linguagem cinematográfica; mais preocupados em se inteirar do assunto mais discutido no Twitter do que de fato em refletir junto à obra.

Não importa a qualidade da tal série Você, se está na Netflix, corre um grande risco de fazer sucesso, e é aí que começa o ciclo vicioso da falta de qualidade. Para as empresas, qualidade é sinônimo de visibilidade; para o público contemporâneo, visibilidade é sinônimo de qualidade. Então já podem dar as mãos. O cinéfilo que considera Luchino Visconti um dos grandes mestres do cinema, talvez olhe para a Netflix e se indague: “onde foi que errei?”, afinal, o erro também é nosso. É nosso erro, como cinéfilo.

Erro também da crítica: a internacional, mais preocupada em falar bem para não perder a credencial na próxima cabine; e da brasileira: mais preocupada em não virar inimiga do grande público por falar a verdade sobre o novo filme da Marvel.

O equívoco já chegou ao Oscar, não que um dia esse evento tenha sido sinônimo de qualidade; porém, há a eterna discussão de 42: Cidadão Kane perdeu para Como era Verde o Meu Vale na categoria melhor filme, e nós sabemos qual dos dois se revelou mais duradouro com o tempo. Mais duradouro na boca do público, e na mão dos acadêmicos. Você consegue escolher entre Orson Welles e John Ford? Bom, eu não.

Eram outros tempos, hoje se escolhe entre Pantera Negra ou Nasce uma Estrela. O primeiro, uma continuação de um universo estendido, que conta a mesma história já repetida inúmeras vezes, feito de forma tola (as lutas são em boa parte feitas em computação gráfica), mas qual o fator principal? o elenco é negro — representatividade é importante, mas não é sinônimo de qualidade; o segundo é um remake de um remake de um remake… — melhor ator/atriz: Glen Cose é ótima, já provou isso tantas vezes, mas o prêmio vai para a que mais se destaca em meio ao dejeto? pois A Esposa é sofrível até em sua proposta. O mesmo vale para Rami Malek no mascarado Bohemian Rhapsody.

Mais do que a série Você, outro exemplo de visibilidade/qualidade é Roma, como já adianta o crítico Inácio Araújo: …se fosse lançado nos cinemas, a seco, “Roma” teria o público que está tendo? […] – Nós sabemos a resposta!

Roma é, de fato, um bom filme, mas convenhamos, não há nada ali que o coloque no panteão de grandes filmes do Século XXI. E qual seria o motivo de tanto burburinho? É o trabalho de câmera? As atuações? A atmosfera? Se for, Lav Diaz e Béla Tarr merecem ser lançados na Netflix urgentemente! Mas apesar de Roma ser um bom filme, há outra menina dos olhos do cinéfilo de Instagram: Birdbox. Esse sim, o exemplo definitivo; pois Birdbox é um filme ruim, mas é sucesso absoluto!

— O texto parece fugir do tema inicial proposto, e também não possui uma conclusão, mas afinal, o que realmente importa? E o que diabos é arte?

“A arte não é a reflexão da realidade, é a realidade da reflexão”
La Chinoise, Jean-Luc Godard (1967).

Vamos refletir…

O fim do respeito.

Ir ao cinema não é um hobby, ir ao cinema é um ritual; uma cerimônia. Desde criança, quando frequentava o cinema para ver a estreia da semana, notava algo de mágico: o som alto, a tela grande, o ambiente escuro, a atmosfera… Não é coisa da minha cabeça, pois sei que não estou sozinho no mundo, mas ir ao cinema, é mais do que simplesmente ‘ver o filme’, é contemplar o próprio cinema.

É triste, mas hoje prefiro ver os filmes em casa. Seja pelo circuito, que só se preocupa com filmes americanos, ou melhor, blockbusters americanos — afinal até mesmo o filme indie americano tem pouco espaço no país, não que eles fossem a salvação, uma vez que não há nenhum Cassavetes —, além do circuito fraco, há outro problema gravíssimo: o público.

Aqui, o único cinema da cidade fica no shopping, vejo as pessoas escolhendo filmes na hora com a família, não se importam se é o dois ou o três, não se importam em saber quem ou quê. É um programa, apenas para matar o tempo. Até aí tudo bem, não sou eu quem vou dizer como se deve apreciar arte — desde os meus treze anos não sei o que é ir ao cinema sem ao menos saber o nome do diretor ou do elenco.

O problema começa lá dentro, as conversas altas, o celular que não apaga (sequer se preocupam com a intensidade do brilho mais), e o que mais me chateia, a falta de interesse. Para ficar no celular durante um filme, já demonstra grande falta de interesse (por qual motivo pagar para ver algo que não está afim? Não entendo). Afinal, como ver o filme e conversar por mensagem ao mesmo tempo? Impossível.

Mas a falta de interesse maior, é para com o próprio cinema, não há mais respeito pela experiência, não há mais apreciação pelos filmes!

Na última vez que fui (semana passada), uma moça levou uma criança (não sei se era filha ou não), sentaram-se ao meu lado. Além de ficarem conversando o tempo todo, a criança não desgrudava do celular. Saia toda hora para comprar bala ou refrigerante, e, ao voltar, perguntava sobre o que estava acontecendo. Então a mãe contava todo o filme para a criança (de forma tola e incoerente, diga-se de passagem) sem se importar com os outros ao redor, não só comigo, afinal todos por perto ficaram impacientes e incomodados. Desviava a atenção. Pedir educadamente não adianta mais.

Não foi a primeira vez, nem será a última. A tendência é piorar, sou pessimista quando falamos, não só de cinema, mas de linguagem em geral. O interesse não existe mais.

Afinal, pedir para a pessoa parar é o suficiente? Claro que não! Ouvir o outro é muito penoso — as pessoas se escutam cada vez menos. Na penúltima vez que fui, um adulto (de adulto só a idade), decidiu filmar o filme para postar no Instagram (ou em qualquer outra baboseira do tipo). O ‘lanterninha’, aquele funcionário que fica passeando pelo cinema o notou e pediu para que desligasse o celular. Além desse ato no mínimo criminoso, o rapaz ainda teve coragem de contestar: “mas só estou filmando o filme, qual é o problema?”. Ao ouvir tal frase, comecei a pensar. Pensar se não sou eu o errado, se não sou eu o deslocado…

Os tempos mudaram. Nas conversas, não existe mais o papo de cinema, apenas o papo sobre o próximo filme de super-herói. No cinema, não há respeito, mas por qual motivo esperava que houvesse? Se não há fora, quem dirá dentro, quando as pessoas estão acompanhadas e se veem na obrigação de se mostrar ou algo do tipo. E afinal qual o problema de ir ao cinema sozinho? É tão estranho assim?

Apesar de tudo, não vou deixar de frequentar as salas; porém sinto-me deslocado, a canalhice parece ter tomado conta do mundo. Não é assim, ao meu ver, que se contempla um filme, mas estou praticamente sozinho nessa. O fim da experiência demonstra também o fim do respeito.

Crítica: Vidro (2019): conclusão é patética e irritante.

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Corpo Fechado (Unbreakable) não é só considerado o melhor filme de M. N. Shyamalan, como, muitas vezes, também como um dos melhores de super-heróis do século. Não é dizer muito em nenhuma das ocasiões citadas, afinal o diretor, de carreira instável, sempre transitou entre (poucas) produções de qualidade (O Sexto Sentido, Sinais) e (muitas) produções desastrosas (O Último Mestre do Ar, Depois da Terra, Fim dos Tempos e outros). Na segunda categoria, a de super-herói, também não é muito difícil de se destacar devido as produções de qualidade duvidosa dos estúdios Marvel/DC — fazem sucesso, é claro; mas o público está mais interessado nas calças coladas do que de fato no cinema.

De calça colada, Corpo Fechado não tem nada. O filme de 2000 tratava os poderes de David Dunn (Bruce Willis) com seriedade, contextualizando o psicológico do personagem super poderoso na nossa sociedade.

Dezessete anos depois, veio Fragmentado (Split), que ninguém sabia que era continuação do filme de 2000, até ‘Visions’, de James Newton Howard, começar a tocar— música que abre “Corpo” e toca na bela cena em que o herói descobre seu propósito em meio a multidão.

Agora, chega Vidro, o emburrecimento do universo construído até aqui! Imagine todo o contexto realizado nas duas produções predecessoras sendo jogadas para o alto e talvez tenha uma panorâmica das ideias propostas: onde a sobriedade dá tom apenas ao fantástico; onde os conflitos internos dão lugar a ação sem brilho; resumindo: onde as boas ideias são atiradas no lixo.

“Vidro” é tão decepcionante que dói, se não pela má execução, pela oportunidade perdida. “Há uma necessidade de conversar com o público atual” muitos dizem, é verdade. Shyamalan tenta verbalizar a fonte de toda essa indústria tóxica atual (das produções inspiradas em histórias em quadrinhos); porém não obteve êxito. A linguagem se aproxima mais à Split, a continuação nada óbvia. Afinal, Vidro não é nada óbvio quando o assunto é cinema de qualidade.

Mal feito: as ideias que compõem o plot twist — as famosas reviravoltas no roteiro — são representadas por um novo interlocutor, a Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson, péssima no papel), que, além de propor uma nova visão para os poderes dos personagens (já adiantado no trailer), realiza um processo tolo de controle. Agora confinados em um mesmo espaço — Sr. Vidro: A mente brilhante, Dunn: O Vigilante e Kevin Wendell Crumb: A Fera e outras personalidades que se provam inúteis — os três personagens caminham pelos corredores vazios das instalações médicas para prisioneiros de mente debilitada. A segurança é forte, mas apenas dentro do quarto onde esses se encontram confinados, pois há apenas um segurança e um médico de prontidão para vigiar esses seres super poderosos. Há também câmeras por todos os lados, mas não importa, Sr. Vidro é inteligente o suficiente para criar um pendrive sem recursos, se necessário.

Alguns podem rebater o fato de que ‘não se deve questionar a lógica no universo dos heróis de Shyamalan’, mas devo lembra-los que os heróis desse universo não vivem em uma hiper-realidade alternativa, mas sim, coexistem em uma sociedade semelhante a nossa. A sacada inicial que era apresentar um olhar fresco e contido se esvai na falta de lucidez do roteiro, que brinca com o espectador, a ponto de chama-lo de idiota. Basta ver como uma câmera de segurança se torna o álibi perfeito para evidenciar toda uma nova espécie até então desconhecida — apenas para se ter uma noção da imensidão de babaquice que é proposta.

Não poderia faltar a pieguice: cada um dos três personagens possuem laços fora da instituição, são mãe, filho e vítima, que se unem para passar o bastão do legado dos heróis (ou vilões, como queira) para frente. Só não espere emoção humana em nenhum dos personagens, a não ser um choro sem fim. É só para isso que os atores foram pagos, para chorar, e para protagonizar um desfecho tolo.

Anya Taylor-Joy, que chamou a atenção em Split, só não é o maior desperdício, pois há uma vontade extrema do enredo de deixar Dunn pelos cantos. O personagem que conhecemos dezenove anos atrás, continua o mesmo — talvez o fato de o tempo não afetar o personagem seja um de seus poderes? Se fosse, faria mais sentido do que o maniqueísmo proposto (também se aplica ao Sr. Vidro).

Shyamalan brinca com ideias megalomaníacas no clímax, normal em quadrinhos, mas se contém, e faz tudo terminar em pizza, talvez o único acerto (em partes, pois cai por terra uma vez que acompanhamos o destino do trio).

“Vidro” problematiza a ideia de aceitação dos diferentões perante uma sociedade não preparada para aceita-los, nada de novo no cinema, muito menos se levarmos em conta os quadrinhos d’Os fabulosos X-Men, que já levantaram a ideia nos anos 60, e vem discutindo o tema desde então!

Não basta as ideias desperdiçadas pelo roteiro banal, o filme ainda desperdiça seus personagens, repete as (pífias) reflexões de Split, e irrita. Irrita pelo legado de Corpo Fechado, irrita por não desenvolver os personagens a um nível no mínimo padrão, irrita pelo desfecho abestalhado, irrita pela dissipação da boa atuação de James McAvoy, e irrita mais ainda, pelo potencial desperdiçado de estabelecer, finalmente, um diálogo entre cinema e quadrinhos.

Crítica: “Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven” é diálogo de homem com sua natureza animal.

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★★★★

A Saga dos Clones é sem dúvida a saga mais polêmica; mas talvez um dos arcos mais intrigantes de todo o ciclo d’O Homem-Aranha seja “A Última Caçada de Kraven” (dividida em seis partes) — Três décadas atrás: era chegada a hora de abalar (mais uma vez) a mente do aracnídeo após já terem falecidos Tio Ben, Gwen e outros. Porém, dessa vez seria um pouco diferente — a última caçada refere-se a essência de caçador, ou ao próprio Kraven?

Sergei Kravinoff, mais conhecido como Kraven, era russo, filho de pais exilados nos E.U.A. por conta da Revolução Russa. Sempre deslocado entre os arranha-céus da selva de concreto, preferia as selvas. É lá que se encontrou — “encontrei dignidade não nas cidades, mas nas selvas” – “encontrei honra, não no civilizado, mas no primitivo” —  Dedicando parte da vida adulta à caça, Sergei era daqueles personagens que apareciam de tempos em tempos com um plano mirabolante para erradicar o amigo da vizinhança. A caça era o que motivava sua existência. É nela em que baseava sua própria essência.

Tigres, leões, javalis, elefantes, ursos… Não importa qual animal selvagem, Kraven não era apenas homem, era também animal. Caçava suas presas com as próprias mãos. Matava-os sempre sem grandes problemas. Sua única presa que continuava a escapar, era o próprio Homem-Aranha. Nele encontrou mais um motivo para existir, mais uma meta para definir sua existência vazia.

Em sua última caçada, Kraven, o homem-animal, antes de consumir-se pelo seu vazio, caça o Homem-Aranha por uma última vez; porém a caça destina-se não ao homem, mas ao animal, ao símbolo, a aranha!

Passa a viver como aranha, anda como uma, ataca presas como uma. Ao confrontar o próprio Homem-Aranha, Kraven doma-o com um rifle munido por dardos envenenados. Enterra-o, não importa quem está por debaixo da máscara, Peter Parker ou qualquer outro. É o mito, a natureza animal que Kraven caçava.

Peter está vivo, Kraven sabe, o enterro, assim como a caça, é apenas simbólico. Enterra apenas a aranha! Era seu trunfo: vencer sua própria motivação.

No tempo em que a aranha está enterrada, envenenada e inconsciente, Kraven assumi o manto de Homem-Aranha. Destrói a imagem de herói; pois inicia uma onda de violência em seu nome.

Se Kraven é o Homem-Animal, Peter é apenas homem. Munido com seus poderes de aranha, claro, mas é da natureza espiritual do homem que J. M. DeMatteis (escritor da obra) fala. Peter vem passando pela dor da perda; recém-casado com M. Jane, agora tem maiores compromissos para voltar no fim da noite após sua rotina como protetor de N. York. É refém de seu espírito humanitário. Jamais se rendendo ao seu animal cordial.

Há ainda a presença de Rattus, que não é homem, apenas animal. Vive nos esgotos, sobe para se alimentar, mata por instinto, não pelo prazer da caça. Também não os poupa, pois não possui nenhuma moral.

Entre esses três personagens — o homem, o animal e o homem-animal — DeMatteis dialoga com a natureza de cada um deles. O centro dessa história, é narrado em vaivém: os quadros antecipam um enterro, ainda não sabemos quem será enterrado, ao mesmo tempo, acompanhamos a ação. Há mais de um enterro nessa história. Não se sabe antes do final, se é homem ou animal que será enterrado.

Dotado de tensão e violência, hoje praticamente extinta nas comics do mundo da Marvel, A Última Caçada de Kraven é de uma época em que era válido experimentar sem amarras, onde o sombrio ainda era algo natural, e não ‘chamadas’ para uma nova repaginação. É também de um tempo em que os quadrinhos eram tidos como arte, o que parece estar esquecido, inclusive pela própria Marvel.

Crítica: “Dragon Ball Super: Broly” é mais de oito mil!

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★★★★★

Vinte anos atrás era difícil obter informações sobre animação japonesa em geral. Com a internet ainda se alastrando, as referências eram as revistas especializadas (como a Anime Do, Ultra Jovem, etc). Através delas, conhecíamos mais sobre a, até então, não finalizada Saga de Hades de Cavaleiros do Zodíaco, ou sobre ‘um tal’ One Piece que parecia estar começando se tornar um fenômeno no Japão.

Também é pelas páginas das revistas, que as ilustrações de Broly cativavam o público. O misterioso personagem, vilão de um filme, que na época, era de difícil acesso e que tinha sido visto por poucos, raro de se achar em locadoras. A única esperança, era esperar a boa vontade de alguma emissora (Band, ou mais tarde, a Globo).

Existia uma tendência, de os longas/animes dos anos 1980 e 1990, serem meros produtos picaretas preparados para lucrar em prol da popularidade das séries de televisão (não que isso esteja extinto). Nada acrescentavam ao enredo principal (entenda: filler). Os filmes de Dragon Ball Z por exemplo, seguiam padrões, sempre reciclados de uma produção para outra: inimigo poderoso chega à terra, Goku e os guerreiros Z apanham, e logo Goku lança uma Genki Dama com energia provida de seus amigos. Não era exclusivo de ‘DB’ esse ciclo vicioso. CDZ, outro fenômeno da TV prolífico no cinema, seguia também um padrão (os inimigos eram derrotados com Seiya vestindo a armadura de Sagitário e lançando uma flecha em seu último suspiro de esperança).

“Broly, O Lendário Super Saiyajin”, também nadava na picaretagem. O filme de 1993, contava a história de Paragus e seu filho Broly, que ao serem tidos como ameaça pelo Rei Vegeta, são deixados à mercê da morte. Sobrevivem, e planejam se vingar. Daí se estendem uma seção de eventos padronizados e seguidos à risca (incluindo a Genki Dama).

Apesar da imagem mítica que o personagem título havia alcançado por meio da falta de acesso, seu filme não preenchia as expectativas (principalmente suas continuações canalhas), e se revelava apenas mais um no panteão das bobeiras produzidas em nome do dinheiro. Sequer chegava perto de Bojack Unbound, melhor filme baseado na franquia — que curiosamente se afastava do padrão, mas reaproveitava o desfecho da batalha contra Cell.

É sabido que quando Dragon Ball Super estreou na TV em 2015, dois filmes da safra recente já haviam vindo para os cinemas brasileiros, o frustrante “A Batalha dos Deuses” (2013) e o competente “O Renascimento de F” (2015), alguns meses antes da estreia na TV — ambos, refeitos na série, o que reforçava o valor canônico dos eventos.

Talvez seja pelo sucesso de Kale, a introvertida garota que, no Torneio do Poder, liberou seu poder oculto descontrolado, que esse filme tenha visto a luz do dia. Seu sucesso não se deve pelo fato de a personagem bronzeada ter feito a cabeça do público, mas por reaver o potencial do personagem não canônico — Era comum ouvir como ela seria incapaz de ser o próximo Broly, seja pela falta de carisma, ou pela pífia abordagem da série.

Já com o anúncio, ficava difícil não se alegrar, mesmo com ressalvas, que o personagem finalmente teria uma merecida segunda chance. A observação que evidencia a existência de alguma irregularidade no anúncio da nova obra, é que DB Super foi incapaz, ao longo de seus episódios, de recapturar o que fez da franquia o fenômeno que é. Mais centrado em atrair um novo público (principalmente mais jovem), era comum personagens emburrecidos e vilões pastelões. Um verdadeiro show de horrores.

E é por isso, que o público que saiu enfurecido das sessões de ‘A Batalha dos Deuses’, ou que abandonou a série de TV no meio (em boa parte pela horrenda Ribrianne, é patética), encontrará nessa nova aventura, um alento. O novo filme é mais Dragon Ball do que o Super havia conseguido ser até o momento.

Pode parecer saudosismo mas não é. O fato é que Super queria reaver o que ficou para trás. Negando o amadurecimento que a série teve ao longo dos anos e constantemente tentando retornar às raízes, quando Goku ainda era uma criança. ‘GT’ falhou nessa recaptura, e em grande parte, ‘Super’ também. Digo em parte, pois houve acertos, como a introdução de novos universos — mas quando erravam, a coisa ficava realmente vergonhosa.

Quatro anos e 131 episódios depois, chega aos cinemas brasileiros “Dragon Ball Super: Broly”. A terceira aventura cinematográfica canônica da série resgata do filme de 1993, o personagem com maior potencial desperdiçado da franquia. Com uma nova abordagem, o roteiro assinado pelo próprio Akira Toriyama, reaproveita pouco da produção antiga (da qual havia contribuído apenas com o design do personagem).

A premissa é a mesma: ciente do poder extraordinário que Broly, ainda bebê, possui. O Rei Vegeta decide dar um fim a esse, que poderia no futuro, se tornar uma ameaça incontrolável. Terminam aí as semelhanças entre as duas obras.

Preocupado em dar uma origem mais elaborada ao personagem título, Toriyama ocupa boa parte da primeira metade do longa com diálogos, são quase trinta minutos dedicados só a construção e a formulação de eventos que fez Broly abster-se durante os muitos anos em que todo o enredo de Dragon Ball se submete. Há certa preocupação em ‘humaniza-lo’ através do drama. Sentimos pena dele, quando o rapaz perde a razão, ainda não conseguimos vê-lo como o demônio desumano dos anos 1990.

A direção ficou à cargo de Tatsuya Nagamine, de One Piece Film Z (2012), o melhor filme baseado nos mangás de Eiichiro Oda. Não satisfeito, Nagamine agora traz o melhor filme da franquia Dragon Ball.

A trama é como a chama que se extingue no relógio das doze casas do zodíaco. É só Freeza chegar na terra com o brutamontes, que todo o enredo desaparece (o que é um acerto). Abre-se espaço para a incrível sequência de ação. É a única batalha do longa, e esse confronto único demonstra um grande trabalho de animação. Os ângulos inusitados (com direito a sequência em primeira pessoa) e os efeitos de som e luzes vão levar qualquer fã ao delírio (destaque para o anúncio de cada transformação e técnica).

Em Dragon Ball sempre há espaço para humor bobo, o diferencial deste para os dois últimos, é que as piadas funcionam. Sem medo de parecer exagerado ou demasiado inocente. O longa ainda brinca com a fórmula antiga: Piccolo, que sempre fazia uma ponta nos filmes antigos, era motivo de piada, pois suas entradas marcantes, no ápice da batalha, causava impacto visual, mas sempre acabava minutos depois com o Namekuseijin espancado e inconsciente em algum canto do cenário. Dessa vez, Piccolo adianta que se for até onde a batalha está acontecendo, seria apenas questão de minutos até que ele seja derrotado.

Apesar dessa participação de Piccolo, o filme não se preocupa em explicar onde estão os demais guerreiros Z. Gohan por exemplo, sequer dar as caras (não fez falta).

O relacionamento entre Goku e Vegeta alcançam cada vez mais novos horizontes, os agora amigos, servem de contraponto um para o outro. A ingenuidade tola de Goku por exemplo, é contextualizada pelas sacadas geniais de Vegeta.

No fim de “O Ressurgimento de F”, ambos discordavam de lutar juntos contra um inimigo em comum. Dessa vez eles não só lutam juntos, como trazem a vida Gogeta (que antes também era filler). Então abre espaço para um segundo round ainda mais incrível do que se havia visto até aqui, não só no filme em questão, mas em qualquer animação de ação feita até o momento.

Na sequência mais incrível do longa, Gogeta e Broly transcendem tempo e espaço, e protagonizam a batalha mais épica da franquia desde o combate final contra o androide ‘Cell’.

A UNIDUB ficou responsável pela dublagem brasileira, estúdio chefiado por ninguém menos do que Wendel Bezerra, responsável pela voz de Goku, que todos aprendemos a amar. Grande acerto da FOX. Wendel reescalou boa parte dos dubladores originais, com exceção de Carlos Campanile (Freeza).

É em meio ao choro e aos gritos que o público iniciado vai se sentar pelos 100 minutos de duração (o mais longo da franquia até o momento). E perto do colapso de êxtase, (re)descobrir junto aos personagens esse mito que, dessa vez, faz jus a sua própria lenda e imagem.

 

Crítica: The Matrix Reloaded (2003) de Lana e Lilly Wachowski

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★★★★

“As continuações de The Matrix não são tão filosóficas quanto o primeiro” — esse é um argumento que se escuta constantemente mundo a fora, como se Reloaded e Revolutions não seguissem a herança do primeiro filme em toda a sua magnitude e/ou não fizessem jus. Mas por qual motivo essa questão é sempre apontada?

Pode-se sustentar esses argumentos contra Reloaded (mas nunca contra Revolutions). O segundo filme da trilogia é o que mais se entrega a ação (há uma sequência de quase trinta minutos ininterruptos), logo, é o que conta com menos diálogos. O problema de Reloaded, talvez, seja a quantidade de personagens. Ou seria o problema o fato de o universo estendido tomar partido da obra principal para explicar certos contextos e situações?

Pois bem, o jogo Enter the Matrix veio com a proposta de fazer parte do universo canônico da franquia, desenvolvido ao mesmo tempo em que as duas continuações estavam sendo rodadas. Portanto, para entender o papel crucial de Niobe (Jada Pinkett-Smith) e Ghost (Anthony Wong) nos eventos de Reloaded é necessário jogar o game. Se estender o universo através de outras mídias e torna-las importantes é certo ou errado, vai de cada um.

Mas é inegável que o fator ‘auto suficiente’ que se espera da obra acaba caindo por terra, principalmente no terceiro ato, onde vários dos eventos são narrados em elipse — todo o planejamento e execução do plano para destruir a usina, e apagar 27 quarteirões são transportados para a tela de forma corrida, afim de deixar os detalhes para os que se aventurarem pelo game.

O primeiro ato do filme original, era tomado pela paleta esverdeada que emulava a artificialidade da Matrix. O segundo ato, pelo azul opaco que mostrava o mundo real. No terceiro, as duas se encontravam constantemente uma vez que a história se passava em ambos os ‘mundos’. Em Matrix Reloaded, desde o início já acompanhamos a estrutura do terceiro ato do primeiro filme. Já sem razão para explicar o universo e o conceito da Matrix, os Wachowski se concentram em ampliar as sequências de ação que movem o longa. O filme é repleto delas. Já nos primeiros minutos, acompanhamos Trinity sendo morta por um agente, que logo se mostra um sonho (já sacamos como profético); a reunião que toma parte na Matrix também é encerrada por outra cena de ação. Dessa vez, Neo vs três agentes. A fantástica sequência, apesar de curta, é embalada pela trilha de Rob Dougan que emplaca outros grandes momentos musicais desse segundo filme (em conjunto com a especial trilha original de Don Davis); Neo, agora voa (já acompanhamos isso no final do primeiro filme) e os diretores fizeram questão de fazer uso dessa habilidade para fins narrativos (velocidade de transição entre ponto A e ponto B; sacada para inutilizar Neo, abrindo espaço para Morpheus e Trinity). Digno de inveja para qualquer filme do Superman e outros.

Se as lutas funcionam, há os diálogos problemáticos que estão, em especial, mal representados por personagens menores, como é o caso daqueles que parecem existir para darem certo alívio cômico para a trama. Desnecessários e dispensados de forma tola (mas que contam com maior destaque no game Enter the Matrix).

Presos nas amarras do tempo padrão de produção, a estrutura sofre. Se mais ousados, poderiam ter prolongado a narrativa. Mais tempo com o drama das personagens ajudaria a desenvolve-los.

O Agente Smith, uma vez derrotado por Neo, deveria retornar à fonte ou pedir exílio na Matrix. Sem fazer nenhum dos dois, Smith se rebela, e embarca em uma jornada própria, contrariando o seu propósito. Os Agentes podem transitar por entre qualquer indivíduo conectado diretamente à Matrix; ‘cada indivíduo é um agente em potencial’ diz Morpheus durante o treinamento de Neo no primeiro filme. Agora, após ser excluído da função de Agente, Smith não mais transita por entre os vários habitantes aprisionados da Matrix, mas obtém a habilidade de infestar esses indivíduos, criando uma cópia exata de si mesmo, até ‘colando’ os códigos de sua própria consciência nessa nova cópia. Tornando-se assim, uma espécie de vírus.

Ainda na trama: as máquinas estão cavando, quase se adentrando no núcleo terrestre, onde a última cidade humana ainda resiste, Zion. Morpheus (Laurence Fishburne) e a Nabucodonosor estão a procura da Oráculo para guia-los nesse momento de urgência.

Em Zion, após conscientizar toda a população sobre as horas sombrias que se aproximam, inicia-se a derradeira festa carnal: embalado pelas batidas da banda FLUKE, a câmera passeia por entre os corpos desesperados que se libertam por uma última noite, o sexo e a agitação que fazem tremer os muros, é uma mensagem para as máquinas que o calor humano ainda existe, ainda há quem lute.

Mestre em Kung-Fu, Collin Chou foi escalado para viver Seraph, programa guardião da Oráculo — Gloria Foster em seu último papel — viria a falecer entre as filmagens de Reloaded e Revolutions. O confronto entre Neo (Keanu Reeves) e Seraph é o mais fluído desse segundo filme, talvez por se tratar do que menos utilizou CGI? Guiados pelos cabos metálicos, os dois atores entregam movimentos coreografados à risca. Destaque para Keanu que conseguiu acompanhar o mestre Chou durante a sequência, sem parecer anos luz atrás em termos de habilidade. Destaque também para todo o plano que se estende no grande salão do castelo de Merovingian (Lambert Wilson).

O já icônico confronto de Neo vs Smith (e suas cópias) demonstra o potencial do CGI no cinema. Em determinado momento Keanu é substituido por imagens 100% geradas em computação gráfica. Esse artificialismo crônico cobre boa parte de Reloaded, e apesar de os efeitos terem envelhecido bem, ainda são notáveis (o que não acontece no primeiro filme). É interessante notar que se tratando de acontecimentos dentro da própria Matrix, esse artificialismo não deve incomodar, nem parecer exagero, afinal trata-se de fato de um mundo artificial, gerado pela máquina.

Muito do enredo de Reloaded serve de introdução ao que estar por vir, os acontecimentos no final por exemplo, são deixados no vácuo para engatar ‘Revolutions’…

“To be concluded”