Crítica: Theatre of Tragedy – Theatre of Tragedy (1995)

Álbum de estreia merece ser ouvido de joelhos

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★★★★★

Em qualquer meio artístico, acontece de obras-primas ficarem esquecidas pelo grande público, no cinema por exemplo, mestres absolutos como é o caso do japonês Akira Kurosawa, diretor de grandes filmes como: Os Sete Samurais, O Barba Ruiva e Kagemusha. Além disso, ainda existem equívocos por parte dos ‘Cinéfilos formados no Netflix’ de nunca entrarem em contato com nomes como John Ford, F.W. Murnau, diretores mais do que essenciais para qualquer amante da sétima arte.
No metal, esse equívoco e indiferença com os clássicos não poderia ser diferente, e infelizmente, talvez seja onde se faz mais presente. O fato é: Aquilo que não está em evidência não capta a atenção do público recém iniciado; e ainda temos muitos ouvintes enraizados em um único gênero (ou sub-gênero?), que despreza por completo outros selos do metal (muitas vezes sem motivo aparente), isso cria muros e conflitos desnecessários entre os fãs. Não deveria existir barreiras de gêneros em qualquer meio artístico, especialmente na música. Se no metal isso parece irremediável nos tempos atuais, o público no final do século passado parecia mais maleável diante de novidades.

No meio desse vórtice hostil que é o cenário, o Doom Metal (e suas vertentes) encontrou espaço para adicionar o impensável para os fãs puristas do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, de violinos a vocais femininos líricos. Felizmente, bandas como My Dying Bride e Paradise Lost já estavam enraizadas como um dos grandes nomes do gênero Death/Doom, e medalhões como Celtic Frost e Candlemass estavam a todo vapor.

Em 1995 surgiu o Theatre of Tragedy com seu álbum auto-intitulado, misturando poesia, tragédia e fantasia. Cantado em um inglês que emula o período inicial moderno (Early Modern English) — similar aquele que tanto estamos acostumados nas obras de Shakespeare, com a presença de “Tu e Vós” por exemplo. O álbum iniciou o famoso ‘Efeito Bela e a Fera’, que é a divisão da voz soprano feminina, quase angelical, somadas com um gutural masculino, no caso do Theatre of Tragedy eram Liv Kristine e Raymond Rohonyi respectivamente. Esse contraste serviu de base para muitas bandas, das quais podemos incluir o Tristania, The Sins Of Thy Beloved, Draconian, etc.

Compostos por oito atos e um epílogo, com aproximadamente quarenta e cinco minutos ao todo, somos transportados para um mundo de trevas com chamas de amor que queimam constantemente. A morte parece se achegar aos poucos, sorrateiramente. Esse conto narrado em forma de poesia consegue estabelecer um clima que resulta em uma catarse no ouvinte.

Esse poema soturno prevalece sobre o cenário construído pelo instrumental arrastado, destaque para o piano de Lorentz Aspen, que dá um toque maior há atmosfera teatral.

No quinto ato — “…a Distance There Is…” abre espaço para o solo, já estamos exatamente no meio desse furacão negro quando a voz solene de Liv ecoa em meio à chuva e trovões que preenchem a sala com tristeza e uma beleza melancólica.

“Dying – I Only Feel Apathy” nos leva de volta para um grande salão escuro onde a peça é entoada. Nós somos a plateia, os instrumentos são o cenário, e o dueto (Liv e Raymond) os atores no centro, cantando sobre sofrimento e rancor em momentos finais agonizantes (sem abrir mão da beleza e da poesia).

Por fim, um epílogo instrumental: “Monotone”. Saem os atores! A tragédia já se consumou, então nos resta apenas o cenário vazio. Shakespeare ficaria orgulhoso. “Theatre of Tragedy” é para se ouvir de joelhos, seja por sua atmosfera bem construído ou pela sua facilidade em nos levar para outro lugar.

1) A Hamlet For A Slothful Vassal – 4:05
2) Cheerful Dirge – 5:02
3) To These Words I Beheld No Tongue – 5:06
4) Hollow-Hearted – 4:57
5) …A Distance There Is… – 8:51
6) Sweet Art Thou – 4:58
7) Mire – 3:58
8) Dying – I Only Feel Apathy – 4:08
9) Monotone – 3:10

Integrantes:
Raymond István Rohonyi – vocalista
Liv Kristine – vocalista
Eirik Tjelta Saltrø – baixista
Pal Bjastad – guitarrista
Tommy Olsson – guitarrista
Lorentz Aspen – tecladista
Hein Frode Hansen – baterista

*Crítica também publicada (em colaboração) no site Whiplash!

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