Crítica: Quem bate à minha porta? (1967) de Martin Scorsese

Esse texto contém revelações sobre o enredo!

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★★★★

Logo nos minutos iniciais de “Quem bate à minha porta?”, acompanhamos o confronto entre duas pequenas gangues de Nova York. Portando apenas pedaços de pau, o confronto acontece na calçada, em alguma rua qualquer da cidade, o Rock N’ Roll anuncia o início do confronto, os sons das pauladas se fundem com o ritmo acelerado da música até que somos interrompidos de acompanhar sua continuidade, é a música que anuncia um ‘wait a minute’ (espere um minuto!), para então sermos transportados para outro momento da vida de alguns desses marginais. O filme é, não só o primeiro longa de Scorsese, como é também a do ator e amigo Harvey Keitel, que viria a trabalhar com o diretor em Caminhos Perigosos e Taxi Driver.

Minutos depois do confronto, acompanhamos as primeiras palavras trocadas entre J.R. (Keitel) e a personagem de Zina Bethune, nós nunca ouvimos seu nome, mas eles logo notam um interesse em comum: Filmes! Ela estava com uma revista francesa em sua mão, uma provável Cahiers du Cinéma, durante um longo plano de quase onze minutos, eles conversam sobre John Wayne em Rastros de Ódio de John Ford (em outra ocasião, Lee Marvin em O Homem que Matou o Facínora, também de Ford) e outros assuntos cinematográficos. Ao fim do plano, o corte nos leva de volta para a companhia de seus amigos, J.R. está melancólico, então sabemos que a narrativa segue dois tempos, o durante a relação com a moça e o que vem depois do rompimento. Esse vai e vem dos fatos ainda é, em alguns momentos, alterados e narrados em espaços mínimos, com cortes malucos, como quando acompanhamos um personagem roubando dinheiro da mulher enquanto estão se beijando, e os cortes não param de ir e vir no tempo.

Em ‘Quem bate à minha porta?’ muita coisa pacata acontece, ao mesmo tempo em que pouco se desenrola. O enredo é praticamente nulo na primeira metade, sendo uma colagem de vários momentos em diferentes tempos. Scorsese usa uma decupagem descompromissada, herança da Nouvelle Vague (principalmente de Godard). Há ainda o uso de slow motion: Em certa sequência, a câmera passeia pelo cenário enquanto observamos os amigos brincarem com uma arma de fogo. O filme é quase que uma montagem de vários momentos do grupo de amigos, uma real captura do estilo de vida simples e lento que eles levam.

É uma simplicidade que diverte, como na sequência de vários minutos em que os amigos disputam quem será o primeiro a entrar no quarto com a única moça disponível na ‘festa’ na casa de Joey. Um deles usa um óculos de sol dentro do apartamento escuro enquanto assiste Charlie Chan na TV.

Em certo momento, após saírem de uma sessão de Cinema: — Aquela moça era uma assanhada! disparada J.R. sobre uma personagem do filme que acabara de ver. — O que quer dizer? retruca sua namorada. — Assanhada é uma mulher descompromissada, que fica com vários homens, boa de cama, mas que nunca vai conseguir se casar! Após tal explicação, a narrativa abre espaço para o surrealismo. É um sonho, nele acompanhamos o relacionamento de J.R. com uma ‘assanhada’. Ao som de ‘The End’ do The Doors, uma panorâmica demonstra o sexo, os corpos nus entrelaçados, afastados da realidade, até mesmo deslocada da própria narrativa! Essa sequência foi demandada por outros, queriam sexo de alguma forma no filme para distribuírem, Scorsese se saiu bem na escolha de como incorporá-la

É só na segunda metade que ouvimos da namorada de J.R. o evento traumático que ela passou, fora estuprada anos antes. J.R. não reage da melhor forma, perde a cabeça, dispara comentários cretinos e sujos, ele a culpa.

Sem saber lidar com a situação, ele embarca em uma noite de bebedeira com os amigos, é daí que viera a melancolia. Os vários tempos da narrativa se fundem em uma última tentativa de J.R. lidar com a situação.

A falta de delicadeza para lidar com tal assunto demonstra a incapacidade do protagonista em entender a grande confiança que ela deposita ao se abrir sobre o ocorrido. O personagem falha miseravelmente em considerar a dor daquela que ele ama. Chateado, sequer consegue encará-la novamente, um covarde. Uma covardia necessária para nos ensinar, para que nunca cometamos tal erro diante de uma vítima de um ato tão covarde!

Todos os elementos que viriam fazer parte da carreira consagrada de Scorsese já estavam lá, alguns mais modestos, outros já bem explícitos. Muito se diz sobre os eventos serem na verdade uma dramatização de vários momentos reais vividos por Scorsese, é uma afirmação que só ele pode confirmar. Alguns até podem enxergar toda a estrutura do filme como uma grande falha, mas que falha maravilhosa essa a que Scorsese cometeu no seu início de carreira.

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