As duas horas de catarse com Roger Waters em Belo Horizonte

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Eram 21:10 quando as luzes parcialmente se apagaram no estádio do Mineirão, um vídeo era exibido no enorme telão para as mais de 50 mil pessoas presentes, ansiosos para ver o ex-Pink Floyd. A imagem nos convidava a contemplar uma mulher, de costas para nós, observando o longínquo horizonte em uma praia deserta. “Começa logo” alguns gritaram, sem se dar conta de que na verdade, já havia começado. O vento lentamente se fundia com o batimento cardíaco e os ruídos iniciais de Speak to Me, é um convite ao estado atmosférico. O céu sob o horizonte lentamente se torna vermelho, é então que a introdução de quase quinze minutos termina, os músicos entram no palco, e os primeiros acordes de Breathe (In the Air) podem finalmente ser ouvidos. Os gritos são intensos, tomam conta do estádio, até dificulta ouvir a banda. “Já começaram a tocar?”, reagem os menos atentos. O coro era unânime, durante seus quase três minutos, o que se tinha era uma catarse geral, e isso era apenas o início.

A instrumental “One of these Days” vem logo em seguida para reforçar o tom psicodélico do Pink Floyd, o público ainda era um só, pouco se ouvia sobre “Ele Não” e afins. Até então, a multidão só tinha a purgação de suas paixões, isso se estendeu pelas canções seguintes. A fusão dos efeitos visuais presentes no telão fazia a tarefa de cantar em plenos pulmões uma dificuldade. Hipnotizante demais, era muito o que se admirar.

A tela, nunca uma mera reprodução do que se acontecia no palco, sempre uma reprodução com efeitos visuais impressionantes, a imagem dos músicos se fundiam com as viagens alucinantes das rimas visuais. Em Time, um mar de relógios eram despejados e se fundiam em uma espécie de íris. Meticulosamente pensado, Roger estava no centro da imagem, com sua posição sempre curvada, tocando seu baixo. Mas ele não é o único protagonista, ‘The Great Gig in the Sky’ abre espaço para Jess Wolfe e Holly Laessig da banda americana Lucius, cantarem em um tom hermético, em vários tempos, difundindo o canto da versão original, uma mudança mais do que bem-vinda, o estado hipnótico é constante e as lágrimas já escorriam em cascata.

“Welcome to the Machine” — música com forte presença de sintetizador, que ecoou por vários cantos do estádio em uma incrível distribuição de caixas, criavam uma constante procura pela fonte sonora. Essa versão ao vivo ficou ainda melhor do que a versão de estúdio, um incrível feito, pois trata-se de uma grande música do álbum “Wish you were Here”.

É então que o trio ‘Déja Vu’, ‘The Last Refugee’ e ‘Picture That’ do álbum solo de Waters, Is This the Life We Really Want? ganham o ar da graça, maravilhosas canções humanísticas que calaram o público, não por sua espantosa performance, mas pela falta de tato dos presentes com o trabalho solo de Roger Waters, é como se estivessem ali apenas para ver “Pink Floyd por Waters”! Não importa, os sete minutos de ‘Picture That’ foram esmagadores e já deixaram a deixa para “Wish you were Here”. O coro mais uma vez era unânime por todo o estádio e as lágrimas, mais uma vez uma realidade.

Quase cinquenta minutos se passaram desde o início da apresentação, era chegada a hora definitiva, “Finalmente!”, alguém gritou durante os acordes iniciais, já sabíamos o que esperar, era “The Happiest Days of Our Lives”, que anunciava o hino: Another Brick in the Wall! O Mineirão cai por terra, uniforme no coro, dividido em ideologia política. À esquerda, “Ele Não” ecoou durante boa parte da música, à direita, “Ele Sim” e “Mito” se somaram aos sons de vaias. As crianças belohorizontinas encapuzadas no palco, gradualmente revelaram seus rostos e a palavra “RESIST”, em sua camisa. Ao fim, a palavra também aparece no enorme telão. Era hora da divisão, a polarização política se intensifica.

Agora são quinze minutos de espera, uma pausa no evento. Hora de acompanhar os letreiros que anunciam: ‘Resist who?’ (Resistir à quem?) e suas explicações. Era um cenário tenso, algumas pessoas da pista premium se aproximaram da Pista Comum (onde eu estava), e fizeram gestos de ‘Bolsonaro 17’, a moçada do Ele Não nada podia fazer além de xingar, e jogar cerveja nos opositores que estavam na Premium, divididos até pelo preço do ingresso. Bobagens. O coro “música, música, música” era mais interessante.

Segunda parte do show, surge DOGS — alguns abandonaram a manifestação, mas liricamente, ainda estamos falando sobre política, Pink Floyd sempre criticou ambos os lados, e mais importante, sempre abordou temas políticos, logo, não esperar por abordagens políticas por parte do público é querer demais, ainda mais em um cenário como a do Brasil atual. Interessante será o show em Porto Alegre, independente das ideologias do público presente por lá, as eleições já terão se concretizado — a música se estende por quase vinte minutos. Algum maluco sobe na estrutura metálica do som e acende um cigarro, se queria chamar atenção não conseguiu, o show era interessante demais para perder tempo desviando o olhar, independente do que houve com o indivíduo, só causou danos a si mesmo.

O cenário que passa por uma metamorfose até se assemelhar a capa do álbum Animals, reforça que estamos diante de um espetáculo que vai além da música, uma verdadeira manifestação artística audiovisual, o visual onírico se intensifica. O estado de hipnose já era constante, a música somada aos efeitos já criavam a atmosfera apoteótica. É então que o grande porco flutuante sai pelo canto esquerdo do palco para sobrevoar todo o estádio, é a vez da música, de título bem sugestivo, “Pigs (Three Different Ones)”. O que fazer?: Cantar e assistir os músicos? Observar o porco voador? Acompanhar as duras críticas ao presidente Trump exibidas na enorme tela? Cada um se vira como pode. No meu caso, estava em estado de transe profundo, estático, hipnotizado demais para esbanjar qualquer reação.

Com máscaras de porcos, os membros no palco tomam champanhe, Roger ainda exibe a placa “Pigs rule the World” (Porcos governam o mundo), para logo em seguida, exibir uma segunda: “Fuck the Pigs” (Fodam-se os porcos).

O porco voador cai no meio do público à direita da pista. Não demorou para ser destruído por completo. A frase “Stay Human” cravadas no corpo do animal já não existia mais, foi dilacerado. Para alguns, uma lembrança, para outros, uma alegoria: Um senhor, após rasgar o porco inflável, amarra os seus resto na sua cabeça em tom de ironia e oposição. “Aqui está os restos mortais da Dilma e do PT”, grita outro, levantando a parte para o alto com os punhos fechados. Muitos outros, ainda chocados pelo ocorrido (intencional ou não), estáticos. É o melhor momento do evento!

O coro “Ele Não” retorna, saía da boca de muitos que sequer se moviam durante todo o evento, talvez tenham ido apenas para se manifestar? (é inteligível, afinal o show dá cordas para tal). E eu… ainda em transe, a única coisa que me ocorreu foi chorar mais uma vez! As guitarras de Dave Kilminster e Jonathan Wilson finalmente atingiram minh’alma — toda essa manifestação do público causada pela arte ainda em vigor no palco não poderia ter me causado nada diferente se não essa tempestade de emoções satisfatórias.

Em “Money”, Ian Ritchie surge no topo, ao lado das torres, com seu saxofone, poucos o enxergaram lá, isolado. A música mais uma vez une o público só para rapidamente se dividirem com Us + Them, é compreensível, mais uma vez estamos falando de guerra e política (não que o capitalismo de Money não faça parte).

Em Brain Damage e em Eclipse, flashes de luzes coloridas formam o arco-íris que atravessa o prisma formado por Lêiseres. Está formado a imagem que ilustra “The Dark Side of the Moon”. Invejo os que encontraram forças para cantar nesse momento, pois tudo que consegui fazer foi ficar como uma estátua, feliz e mais uma vez, impressionado demais, para fazer qualquer outra coisa. Aprender a letra de todo o álbum se provou inútil nesses momentos. Tinha ainda, uma esfera negra que circulava pelo estádio, que somada as várias luzes do local, formaram um maravilhoso buraco negro. Era o visual que faltava para complementar o prisma em meio ao espaço.

Um breve (porém belo) discurso de Roger sobre igualdade e cuidados com o planeta já antecipam as últimas músicas do evento. Sem ‘Mother’, a opção foi Two Suns in the Sunset (presente em The Final Cut), uma surpresa que deixou muita gente confusa.

Chegou o momento derradeiro, hora de Comfortably Numb, então é adeus. Os celulares mais uma vez se mostram presente para registrar a performance, por uma última vez (não é o meu caso), a música une todos em um único coro, e mais uma vez, as palavras não saiam, apenas o choro, já estava até mesmo nostálgico.

A imagem inicial volta a tela! Chegou o fim, todos deixam o estádio eufóricos, cansados — alguns até mesmo bêbados, se escorando em outros para não cair, talvez no outro dia se deem conta do desperdício.

Todos já sabíamos o que esperar do clima político do espetáculo, e independente da ideologia dos presentes nesse dia vinte e um de outubro de dois mil e dezoito, todos contemplamos um evento artístico. E que maravilhosa a arte que nos une em um único coro, mesmo que momentaneamente.

 

 

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