Crítica: Halloween (2018) de David Gordon Green

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★★

É um equívoco dizer que a franquia ‘Halloween’ está de volta aos eixos. Tirando a trilha sonora mais do que especial de John Carpenter — que dirigiu o original em 1978 e não mais se envolveu com a franquia como diretor, apenas como compositor da trilha sonora de Halloween 2 (1981) e Halloween 3 (1982) —, Halloween (2018) não bebe em nada do que a franquia, originalmente trouxe para o cinema de horror. O original é importante por ser um dos precursores do Slasher nos Estados Unidos — Mario Bava já tinha lançado Banho de Sangue em 1971 na Itália, então Halloween não é necessariamente o “Slasher original”. Há uma discussão de quem deveria usar essa coroa (Dario Argento também já flertava com o gênero nos anos 1970), bobagem, todos foram importantes para emoldurar o gênero, o original de Carpenter apenas aperfeiçoou o que já vinha sendo feito no decorrer da década. A versão de 1978 nos causava: Ansiedade por causa da trama lenta (a primeira morte só ocorre na faixa dos cinquenta minutos de filme); sentimento de estar sendo observado, afinal Michael Myers observa Laurie (Jamie Lee Curtis) por praticamente toda a duração; claustrofobia pela casa escura e as sequências em cômodos apertados; imersão na atmosfera. Esse último talvez o mais importante para o sucesso, e é exatamente o que mais faz falta no novo Halloween.

Abandonadas as sequências  — isso inclui o segundo filme de 1981, que parece causar confusão em alguns por ser uma continuação direta do primeiro, logo vale lembrar que como consequência o parentesco entre Laurie e Myers também foi descartado —, quarenta anos se passaram desde a fatídica noite em que Haddonfield foi atacada na noite de Halloween pelo implacável Michael Myers, e Laurie, agora já avó, mora isolada nos arredores da cidade, paranoica, se preparando para o inevitável reencontro com o assassino em massa.

O filme abre com um casal de jornalistas visitando Myers no hospício, como ele foi preso não nos é informado. De uma forma mirabolante, um dos jornalistas (que estava preparando um PODCAST sobre os eventos de quarenta anos atrás) tem em posse a icônica máscara usada durante a chacina, após provoca-lo exibindo-a, querendo obter qualquer tipo de reação (frustrado), tem início o hino, tema reestruturado a partir do original, que Carpenter compôs para esse novo capítulo. A trilha de Carpenter é um alívio, ajuda a remeter a atmosfera do original, porém acaba por aí.

É nos momentos seguintes, com Alysson (Andi Matichak ) e Karen (Judy Greer ), (respectivamente, sobrinha e filha de Laurie) que as coisas desandam, assim tão cedo. Cinco minutos de apresentação clichê de personagens maniqueístas e diálogos fúteis. É só Alysson chegar no colégio que já sabemos quem vai brincar de vilão nessa história de triangulo amoroso que se inicia e que se complica, claro, no baile da escola. É difícil imaginar que David Gordon Green e toda sua equipe trabalharam arduamente no roteiro por tanto tempo para no fim, se renderem não só as convenções do gênero slasher, como ainda se perderem nas dimensões baratas de toda ou qualquer produção envolvendo jovens/adolescentes.

Halloween (2018) emula constantemente tudo o que já se foi visto no cinema horror, e não o bastante: Tudo que já se foi visto na própria franquia. Há uma sequência no banheiro que é idêntica à uma de “Halloween: 20 anos depois” (produção de 1998 que foi vendida como “O reencontro final entre Laurie e Michael”). A Laurie bem resolvida de H:20 não está presente, nessa nova versão é uma louca que mora em uma gaiola, que também se prova uma enorme armadilha; com problemas em se relacionar com os outros, devido aos traumas daquela noite de 1978. Esse trauma ainda parece se esticar para uma nova personagem, que no fim, existe apenas para manter a franquia viva após esse (suposto) último capítulo.

Em determinado momento, Michael está solto nas ruas de Haddonfield, a câmera logo invoca Halloween 2, o plano longo em que o assassino caminha livremente pelas ruas misturado ao público festivo. Porém, Gordon Green vai além, sustenta o plano para acompanharmos Michael fazer jus ao termo “Assassino em série”, e de casa em casa, o vemos matar inocentes. A sequência culmina em um pequeno período de tensão ao ouvirmos o chorar de um bebê, Michael vai mata-lo ou não? É a melhor sequência da obra.

A trama ainda reserva uma ‘surpresa’ envolvendo um dos personagens, uma reviravolta ideológica que nos leva a perguntar “Como os três elementos responsáveis pelo roteiro tiveram uma ideia tão tosca?”, soa forçada, e pior: como concordaram entre si, com tal ideia!?. Assinam o roteiro: Danny McBride, Jeff Fradley e o próprio David Gordon Green.

É difícil se decidir quem é o personagem mais redundante em Halloween (2018) — até o título mastigado sem originalidade remete a qualidade do filme, é o terceiro capítulo da franquia que se chama apenas “Halloween” —, talvez Ray (Toby Huss), pai de Alysson, mereça tal título, se limita durante todo o longa à fazer ‘caras e bocas’ e piadas sobre o amendoim que caiu no seu pênis. Ou talvez seja Cameron Elam (o estranho Dylan Arnold), típico arquétipo namorado abobalhado que existe com o simples propósito de criar nuances no roteiro. Esses e mais alguns, que são descartados da trama, não necessariamente vítimas em potencial, só inutilizados pelo corrido enredo que parece estar preocupado apenas com a reta final.

O novo Halloween pode até ter ignorado as sequências, mas tudo que consegue ser é exatamente mais uma delas. O confronto final entre Laurie e Michael até reserva algumas surpresas inventivas e que endereçam diretamente o original, como a inversão de papeis de caça e caçador, mas não é o bastante para desfazer as bobagens dos eventos ocorridos para criar toda a situação em si.

Esse foi o último confronto entre Laurie e Michael? Daqui vinte anos a gente descobre.

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