Não ignore os vídeo clipes do ‘Behemoth’

Se você é fã de música extrema, não ignore os clipes da banda de Black/Death Metal, Behemoth. Mesmo ainda sendo, na nata, um meio de promover a música, os vídeos abusam da criatividade na hora de transpor as letras para o ecrã.

Ignorados os clipes pré-Lúcifer (que falhavam no deslocamento para imagem, ou seja, era mais do mesmo), são em suma, uma forma de narrativa que consegue ecoar o tema das letras com estética (arrisco dizer) cinematográficas.

A montagem composta por frequentes cortes, característica de clipes musicais, ainda estão lá em boa parte das produções, porém, o que mais chama a atenção é a habilidade de traduzir as blasfêmias ritualísticas líricas em imagem, os corpos nus que frequentemente fazem parte das produções, emulam o paganismo liberal que a banda prega, também a liberdade de expressão.

Vindo da Polônia, país onde segundo pesquisas, 80% da população adere à fé cristã, Behemoth tem realmente algo a dizer. O discurso se estende além da liberdade de expressão, e aborda temas como: Satanismo (quase didático), que procura debater a figura satânica como símbolo de soltura, um livramento das amarras conservadoras; uma alegoria à oposição do pensamento majoritário; ao ensinamento parcial e político totalitário; e também os (comuns no gênero) desejos obscuros do subconsciente.

O clipe de Lúcifer, que, como já citado, inaugura a nova onda de vídeos da banda, traz a tona o didatismo rigoroso dos enquadramentos que capturam o pensamento não convencional.

Na contra mão, sem apelar para o tradicionalismo simplista, como a captura da banda tocando em lugares exóticos ou nos piores casos, debaixo de forte chuva em local abandonado. Os vídeos recentes fazem questão de abandonar esse padrão clichê, e no lugar de separar a banda da narrativa, como se o grupo estivesse isolado da situação problema — é comum atores ficarem independentes, movendo a narrativa lírica na dramatização dos eventos, enquanto a letra é cantada à parte —, os vídeos do Behemoth unem ambas as partes, colocam Nergal (Holocausto) no centro, o vocalista é o protagonista do conto. É certo que até aí não é nenhuma novidade, se colocado em contexto geral então, existe aos montes, mas é da música extrema que falo, do Death Metal, Black Metal, etc.

Deleites visuais — Se por vezes mais animalesco, como é o caso da ótima, porém exagerada, Messe Noire, que com os ambientes escuros e forte presença de refletores em formato pisca-pisca, traz atmosfera opressiva e aterrorizante. O que mais chama a atenção são as mais claras, com imagem mais brandas, com maior presença de uma fotografia cinematográfica, menos cartunesca, como: “O Father, O Satan, O Son“, que mesmo abusando do Slow Motion alcança a beleza nos movimentos (raro de se ver); a imagem narrativa lenta de “Ben Sahar” (mais antiga) que contraria a batida sonora, e opta por um preto e branco mais acinzentado, um Béla Tarr musical; “Bartzabel” (mais recente) que abusa da cerimônia de invocação e não poupa os detalhes ritualísticos envolvendo mulheres completamente nuas — uma afronta aos padrões imagéticos de um vídeo clipe; “Blow your Trumpets Gabriel“, a mais profana dentre as citadas, (presente no álbum The Satanist), busca a montagem rápida, mas sem abandonar o contraste atípico das produções (pós Lúcifer) da banda, com capturas dignas que gritam beleza; por fim, retornando mais uma vez aos tempos recentes, “God=Dog” busca o extremismo estético presente nos outros vídeos (o pênis sempre deve pegar muita gente de surpresa) mas abandona a captura ampla da imagem e se concentra mais nos closes dos corpos em vaivém violento e com edição mais tradicional (“Woves of Siberia” segue o mesmo molde).

Tudo isso é imagem! E quanto a música em si? (não deve agradar os que genuinamente desgostam de metal extremo): São poesias de cunho liberal, fortemente inspirado no Thelema, filosofia-religiosa baseada em um postulado desenvolvido por Aleister Crowley em 1900, um escritor inglês e mago cerimonial. A lei de Thelema resume bem a pregação da banda: “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei“, a mesma pregada por Raul Seixas em “Sociedade Alternativa”. Ainda sobra espaço para um pouco de história, por um ponto de vista um tanto quanto antiquado, convenhamos. Ousado, vale a pena conhecer.

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