Crítica: Em Chamas (2018) de Lee Chang-dong

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★★★★

A partir do momento em que o aspirante a escritor Lee Jong-su (Ah-In Yoo, de ‘O Veterano’) reencontra Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), amiga de infância, é como se um longo pavio fosse aceso, com o fogo queimando de forma gradual, sem pressa. A trama de “Em Chamas”, novo trabalho do diretor sul coreano Lee Chang-dong, é como pequenas faíscas que resultam em um incêndio descontrolado.

O que começa como um drama, que aparenta se basear em temas como inclusão, se revela um olhar metafórico entre diferenças e relacionamentos de duas diferentes classes sociais, não o bastante, a trama evolui na segunda metade para um suspense psicológico intenso, onde um personagem simplesmente desaparece e dá início a um jogo de aflições.

Se o fogo começa a queimar após o reencontro com a inusitada Hae-mi, ele fica mais intenso quando Ben, personagem de Steven Yeun (The Walking Dead), esgueira pelas beiradas do abrupto relacionamento entre Lee Jong-su e Shin Hae-mi. Se Jong-su dirige uma caminhonete antiga, com lataria parcialmente enferrujada, Ben dirige um Porsche; enquanto Jong-su mora em uma pequena casa no campo, afastado da cidade, Ben mora em Gangnam — bairro nobre de Seoul que ficou famoso pela música “Gangnam Style” do rapper sul-coreano PSY” — É aí que começa o conflito de classes.

Arma-se certa disputa, o troféu é a atenção da garota, de temperamento bipolar, que está em busca de seu lugar no mundo, em busca de um sentido para a vida. Essas características são tudo que sabemos dela, pois o resto é rodeado por grandes dúvidas: “Alimente meu gato no tempo que estou fora!”, pede Hae-mi à Jong-su pouco antes de embarcar em uma viajem para a África, nunca vemos o tal gato no apartamento, muito menos Jong-su. “Lembra-se quando cai no poço perto da minha casa?” Jong-su não se lembra, o proprietário diz não se lembrar sequer da existência de um poço, a mãe de Jong-su, essa sim se lembra, não sabemos em quem confiar, essa e muitas outras teias de informações são despejadas em meio as incertezas, cabe a nós buscar as respostas.

E é assim, em meio as dúvidas que a trama anda, elas se agravam calmamente, de acordo com os acontecimentos que rodeiam o trio de personagens. Quando um deles desaparece, a dúvida se intensifica, a chama do pavio se aproxima do fim, até que explode em um conflito, o pobre sempre culpa o rico (ou vice-versa).

Recheado de metáforas para o mal estar da sociedade sul coreana, “Em Chamas” consegue dialogar com o aqui e com o agora. O Brasil em que vivemos!

Em determinado momento, Jong-su está andando para lá e para cá em sua casa. Na TV, com suas caras e bocas, um discurso do presidente Trump está sendo exibido no noticiário. Jong-su não presta atenção no conteúdo, nós sim. É o discurso da desigualdade, a mesma que lembra Jong-su de sua pequenez, sempre que seu adversário aparece em seu ‘carrão’ para disputar amigavelmente Hae-mi. Mas seria Ben um esnobe, ou um ingênuo?

Longe de dialogar apenas com um lado da moeda, o diretor coloca sinais de ambos os lados, denunciando os conflitos que os cercam. Até os pequenos gestos, como o bocejar de tédio daquele que se rodeia de pessoas para preencher seu próprio vazio (ou seria ego?) — Cada gesto é válido e importante, mais uma vez Lee Chang-dong não decepciona.

O filme foi o selecionado pela Coreia do Sul como o representante do Oscar. Sem surpresas aqui, dificilmente algum filme sul coreano poderia bater essa horripilante metáfora social, que vai muito além de Seoul, e nos atinge diretamente, do outro lado do mundo.

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