Crítica: Contra a Parede (2018) de Paulo Pons

Feito para a TV, “Contra a Parede” é didatismo moral e ético.

CaP
★★★

A trama: Às vésperas da Eleição Presidencial, o jornalista ‘Cacá Viana’ (Antônio Fagundes), em sua última semana na posição de âncora do ‘Jornal das Dez’, é pego — juntamente com os amigos Igor e Roberto, ambos do partido fictício PI, concorrendo diretamente à presidência — em uma teia de intrigas desencadeada pelo atropelamento de uma jovem.

A situação se agrava quando uma testemunha aparece, acusando um dos eleitos de mentir sobre o ocorrido e Cacá se vê em meio a um caos moralístico. Como jornalista, sua obrigação com o povo brasileiro é entregar a verdade, discutir os fatos, mas poderia  entregar seu próprio amigo? Não o bastante, arcar com as consequências?

Não convém revelar muito, mas é a partir daí que essa teia se desdobra, o que antes pareciam fatos comprovados, logo se revelam eventos manipulados. As múltiplas facetas do incidente refletem não só a moral de Cacá, mas também a da nação como um todo. O diretor e também roteirista Paulo Pons articula através da voz de Fagundes, um discurso político e filosófico sobre ética populacional que vai da fila do supermercado da esquina aos homens no poder — ampliado ainda para a vida conjugal com sua esposa Giovana (Alexandra Martins).

No meio desse tumulto, o âncora passa a vagar entre a verdade e os mitos da imprensa. Mesmo quando decide que decisão tomar, já fora antecipada por outrem. Pelos homens que decidiram ‘jogar o jogo’. Não para por aí: o didatismo até se estende além da ética, e flerta com discurso do ‘voto consciente’.

É nas reviravoltas que as falhas começam, não pelos acontecimentos em si, mas é a montagem em flashbacks constantes, que tentam nos situar, com excesso, no vai e vem dos eventos, que muitas vezes deixa a linearidade. Esse excesso, não só irrita, como subestima a capacidade do espectador de seguir a trama, não tão confusa ou complexa. É demasiado contraditório tal escolha, uma vez que a construção dos diálogos são um alento quando o assunto é cinema brasileiro. Sem os close-ups e cortes novelescos, a câmera de Paulo Pons deixa Fagundes à mercê de suas habilidades. Se o longa não fracassa, é pela ótima atuação do ator, que praticamente carrega a obra nas costas — ainda vale destacar: Paulo não tem pressa na decupagem, até prolonga certas sequências para maior impacto visual; se arrisca na recriação de eventos por pontos de vistas diferentes — alguns podem reclamar da diferença de tempo das reações quando recriadas, mas são detalhes bobos.

Mesmo se rendendo ao heroísmo (quase) judaico no terceiro ato, encontrando a saída para o labirinto político e moral com méritos de um MacGyver âncora, tudo bem, o discurso assimétrico e didático ainda é válido no Brasil refletido da atualidade.

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