Crítica: Akira Vol. 1

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★★★★★

Muito já se falou sobre a importância da adaptação de Akira para o mundo da animação japonesa (também para a cultura Cyberpunk), a obra é constantemente lembrada, como um dos responsáveis (em conjunto com Ghost in the Shell) pelo ‘boom’ dos animes mundo a fora. É inevitável consumir animes e não topar com a obra de Katsuhiro Otomo por aí. Akira, além de um marco da animação — dirigida pelo próprio mangaká —, é também um marco literário.

A editora JBC traz para o Brasil a versão omnibus, já lançada em outros países, em Formato 17,8 cm X 25,6 cm, com Papel Lux Cream, 362 páginas e uma linda sobrecapa.

Basta ter a edição em mãos, para se notar que estamos diante de um trabalho cuidadoso. No passar das primeiras páginas coloridas, que descrevem o início da terceira guerra mundial, que estoura a partir de vários ataques nucleares, entre eles, em Tóquio, já se nota o rigor estético no detalhamento dos quadros.

A seguir, já passados mais de 30 anos, estamos em 2019, rolamos a página para o já tradicional preto e branco, alternado entre o brando e o mais contrastado. Otomo, parece ainda, extrair nos detalhes de cada quadro uma ideia adicional sobre esse novo mundo pós-guerra, onde as lacunas imagéticas que preenchem o espaço entre um quadro e outro são um convite para a mente fluir.

Não mais Tóquio, agora estamos diante do que se restou, dos escombros: Neo Tóquio. Ecoando diretamente o que víamos já no final dos anos 1940 no cinema japonês, com Hiroshima em frangalhos, deixada em ruínas, para os moradores sobreviventes do atentado transitarem por um mar de lama, corpos e doenças. É nesse universo de contexto triste e realista em que convivem os personagens de “Anjo Embriagado” por exemplo, produção de 1948, do cineasta Akira Kurosawa. Era o cenário pós segunda guerra mundial, que tinha encontrado seu fim, apenas dois anos antes.

Traçado o paralelo, em Neo Tóquio, os adolescentes que transitam entre os escombros pós terceira guerra, são como os personagens Yakuza de Anjo Embriagado. Mas já não é necessária a luta pela aparência, ou pela hierarquia. É um mundo dominado pelo governo, pela marginalização. As ruas da cidade são um retrato dessa decadência que assola esse novo mundo. Pichações marginais aos montes, frases de rebeldia e anarquistas, da frequente luta contra o sistema.

A tecnologia super desenvolvida em Neo Tóquio, convive com esse paradoxo de baixo nível populacional — é um dos pilares da cultura Cyberpunk, mesclagem de ciência cibernética avançada que anda lado a lado com a desintegração social. A decadência da moral, em ascensão, circula pelo cotidiano dos ‘punks’ anárquicos, que circulam pelo mundo marginalizado. Além dos mendigos e dos incontáveis jovens que caminham pelas ruas desencantados, imersos na cultura delinquente, há também os grupos de ‘motoqueiros’ que se dividem por região, por gangues. É entre eles que conhecemos Kaneda, Tetsuo, Yamagata e outros.

A primeira vez que acompanhamos seus trajetos, são acompanhando-os entre as ruínas abandonadas, do que antes havia sido vastas rodovias. Com destruição e manobras perigosas, próximo onde foi lançada a bomba nuclear trinta anos antes — agora era uma área restrita da cidade, viria a ser reconstruida para sediar as Olimpíadas de Neo Tóquio de 2020 (um pouco mais sobre isso abaixo); era só mais um dia de caos, quando de repente uma figura empalidecida aparece no caminho de Tetsuo, o que ocasiona em um acidente. Em estado grave, Tetsuo é acudido pelos colegas, enquanto Kaneda vai ter com a figura responsável pelo acidente, tratava-se de uma criança, mas com aparência envelhecida. É então que o impossível acontece diante dos olhos de Kaneda: a criança desaparece, assim, em um piscar de olhos. Incrédulo, Kaneda sequer se dar ao trabalho de tentar convencer seus colegas do que acabara de ver por entre a fumaça.

O exército logo aparece (pelo menos é isso que os jovens delinquentes pensam) e levam um quase morto Tetsuo, com eles. É a partir daí que Kaneda se envolve com a complexa trama governamental. Na companhia de um grupo opositor, que também procurava a criança empalidecida, nosso jovem protagonista, que inicialmente estava apenas no lugar errado, na hora errada, é tragado para essa trama conspiratória.

O garoto Takeshi (a criança paranormal que antes, desaparecera), está envolvido em algum tipo de programa do governo, é caçado com urgência pela figura conhecida como ‘General’, mais crianças também dão as caras, com suas diferentes facetas paranormais.

As drogas que circulam por toda Neo Tóquio, são pílulas que alteram a psique do usuário. Uma febre que domina cada esquina da cidade. Uma nova geração de usufrutuário: os psicodependentes — paranoiamais, brincam os personagens em algum momento. O governo parece tratar as crianças/experimentos com uma variação da droga, ainda mais pesada. Kaneda consegue uma amostra, ao mesmo tempo, Tetsuo reaparece nas ruas.

A violência do cotidiano marginal em que convivem os rapazes, refletem o espírito desiludido da sociedade dos escombros. A escola é composta por uma atmosfera agonizante, onde os professores corrigem os alunos na base da pancadaria e da ignorância. Não que os alunos do Distrito 8 (Distrito por onde o grupo principal circula) mereçam todo o cuidado do mundo, já se perderam para os narcóticos e para o estilo de vida delinquente.

Tetsuo mudou, agora vaga pelas ruas possuindo um poder psíquico, capaz de levitar ou destruir objetos com o poder da mente; ou ainda de rachar a cabeça de alguém ao meio. Fadado a megalomania eminente, Tetsuo domina (através do medo) uma gangue inteira e se torna o ‘cabeça’ do grupo. Claro que não demora para armar um confronto contra todas as gangues da região, o que coloca em cheque sua amizade com seus ex companheiros.

Somos levados a crer que existe muito mais por entre os destroços que dominam as ruas; além do suspense por detrás do complexo governamental, a trama leva o leitor a se questionar: quem (ou o que) é AKIRA? Claro que isso não será discutido aqui, e sequer é muito debatido nessa primeira (de seis) volume da série.

Se os Simpsons fazem as famosas ‘previsões’, Akira já adiantava, em 1982, as Olimpíadas a serem disputadas em Tóquio em 2020 (claro que são apenas coincidências). O estado decadente, tratado de forma tão natural, ainda leva a crer que não só Tóquio se encontra em ruínas, mas todo o mundo.

Curioso notar a singela evolução de Tetsuo, que passa de coadjuvante passivo para coprotagonista agressivo em pouco tempo. Que segredos reservam essa transformação? Tetsuo já visado pelo governo, torna-se uma espécie de cobaia! Sem respostas. E mesmo no fim do primeiro volume, ainda não vimos um terço do que os personagens e esse mundo fantástico tem para mostrar.

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