Crítica: Infiltrado na Klan (2018) de Spike Lee

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★★★

Alguns filmes que dialogam com a atualidade, correm o risco de rapidamente ficarem desatualizados, com discurso ultrapassado. Não é o caso do novo filme de Spike Lee, que apesar de se passar nos anos 1970, “Infiltrado na Klan” transborda contemporaneidade e pode ser levado como um documento para os tempos que estão por vir. Mas é válido enquanto cinema?

Não é a toa que a abertura fica por conta da antológica cena de “…E o Vento Levou” (1939), onde Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) caminha por entre os corpos caídos na Batalha de Atlanta. A cena simboliza abertura, é quando Scarlett finalmente abre os olhos para o mundo a sua volta. Serve de convite para nós fazermos o mesmo.

Que Spike Lee dedica sua carreira ao debate racial, não há dúvida. Que “Infiltrado” é um trabalho militante de um lado só, talvez: em determinada sequência, o músico e ativista político Harry Belafonte discursa para jovens negros terríveis eventos que vivenciou, gerando o coro da união racial contra os brancos opressores; em contrapartida, David Duke, nacionalista branco e ex líder da KKK, discursa para jovens brancos sobre a ‘supremacia branca’, o coro da união racial contra os negros é uníssono. Os gritos de ambos os lados se fundem na esperta sequência.

O conflito de interesses que gera o discurso do ódio em ambas as partes foi intencional da parte de Lee? Bom, mais uma vez: talvez!

Mas não se engane pela urgência dos fatos apresentados ou pelo contexto agressivo, afinal, trata-se na verdade de humor negro, e Lee constantemente nos lembra que estamos, de fato, assistindo a um filme — ele faz uso de split screen e até mesmo de cartazes de outros longas quando são discutidos.

Esse humor deve ser levado em conta na estrutura narrativa. O enredo é absurdo (baseado em absurdo evento real), e todas as voltas que dá em torno de si mesmo objetifica esse senso.

Ron Stallworth (John David Washington), novo integrante da força policial, entra em contato com a Ku Klux Klan pelo telefone, e obtém sucesso em se ‘infiltrar’. Flip Zimmerman (Adam Driver) assume a persona de Ron nos encontros reais. Com base nisso, Flip deve aprender a ‘falar’ como Ron. Por qual motivo Flip simplesmente não assume as conversas por telefone? — Pode ser uma grande bobagem argumentar a lógica em meio ao humor, ou também as artificialidades dos eventos, ou o relacionamento superficial entre Ron e a ativista negra Patrice Dumas (Laura Harrier); mas a besteira se amontoa tanto durante o caminho, que não deixa de incomodar, principalmente no terceiro ato (como a detonação da bomba no final que gera a mensagem barata de ‘o que vai, volta’ ou ‘o ódio faz mais mal a quem o pratica’).

Lee parece mover boa parte do discurso em prol do desfecho, onde a dramatização abre espaço para o documento real: as imagens fortes que a compõem, são de forte impacto, e explicita as elaboradas nuances discutidas, até então, entre as linhas. A bandeira dos E.U.A. de ponta cabeça, simboliza a oposição do cineasta, mas o bom discurso não é sinônimo de bom cinema.

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