Então, o Shun agora é mulher…

Cavaleiros-do-Zodíaco-Shun-será-uma-mulher-no-anime-da-Netflix

É inviável sustentar uma crítica a um programa que sequer estreou, afinal, talvez não seja tão ruim quanto o trailer aparenta, certo? Mesmo que na maioria das vezes, o trailer adiante a mediocridade das produções contemporâneas — Não importa o que eu disse até aqui, o trailer já entregou a mediocridade que nos espera!

Como fã, fascinado com o universo que Kurumada criou em Cavaleiros do Zodíaco, fascínio que já dura a pelo menos vinte anos (tenho a obra no meu coração bem ao lado de Dragon Ball), é realmente tarefa difícil de se ver o desperdício de oportunidades que CDZ vem recebendo desde o Prólogo do Céu, a quatorze anos atrás.

Retrabalhar o conceito não é novidade, Saint Seiya: Omega, já trazia um cenário inventivo e remoldou boa parte do conceito do universo (há a introdução dos elementos, que unificados ao cosmo, geram poder cosmológico maior do que a “já ultrapassada” fórmula de ‘apenas’ recriar o Big Bang com energia infinita), também já adiantava as ‘Saintias’, que a pouco tempo ganhou espaço próprio, no mangá e anime Spin-Off da franquia: Saintia Sho.

Em 2014, o bagunçado “Lenda do Santuário” trouxe novamente uma reestrutura do universo, dessa vez em forma de reboot/homenagem. Funciona se encarado como uma brincadeira. Ainda me lembro, saindo do cinema, estava em um misto de alegria por ter ouvido as vozes da obra original novamente depois de tantos anos (no caso, o cinema por aqui exibiu apenas versões dubladas, onde foram reescalados quase todos que participaram da dublagem nos estúdios Álamo, a mesma exibida pela Band nos anos 2000), mas ainda deixa aquele gosto amargo pelo potencial desperdiçado.

Um ano depois, abandonado o CGI de Lenda do Santuário, chega Soul of Gold, que acompanhei com firmeza. Mais uma grande bobeira dos estúdios Toei (apenas o súbito destaque aos cavaleiros Afrodite e Máscara da Morte sustentavam meu interesse) que resolveu extrapolar na redundância! resultado: mais potencial desperdiçado. Como conseguiram reunir os cavaleiros de ouro, e ainda deixar a coisa toda um porre, só eles para explicar (ainda bem Episódio G existe nesse mundo para preencher essa lacuna).

Não vou mencionar (já mencionando) Lost Canvas, que ganhou ótima adaptação mas nunca foi concluído — obrigado JBC, por atender os pedidos e começar, recentemente, a relançar o mangá —. Isso nos traz para 2018, a Netflix vem dando atenção para animes, e sou muito grato por isso (vai até trazer Evangelion). Devo confessar, fiquei animado com o anúncio de que seria a grande do streaming que ficaria responsável pelo ‘remake’, e não a própria Toei (estúdio de terrível animação), tadinho de mim, se esqueceu de Death Note?

“A produção será feita em computação gráfica!?” Não me importei, e ainda não me importa (mesmo achando que isso contrarie a minha ideia de “anime”). “Será mais próximo ao mangá!”. Notícia melhor do que essa, impossível. A animação clássica, não só continha fillers (normal), como abusava de chiliques abstratos na hora de narrar os eventos; alterava não só o design (até gosto das armaduras cafonas da primeira fase do anime) mas também alterava eventos importantes, alterava a relevância deles, e ainda dava destaque para momentos bestas (o drama de Saori e Seiya no precipício, atacados por Shina vem a mente — no mangá é infinitamente mais desenvolvido e interessante).

Enfim, aí vem o primeiro trailer: animação em computação gráfica, checado; mais próximo ao mangá… o que dizer do helicóptero soltando mísseis e de tantos outros momentos que não estão no mangá…; aparência dos cavaleiros de bronze (agora as coisas ficam complicadas): no mangá, são apenas adolescentes, mas com aparência de jovens (típico de shounen). Nessa nova animação, a aparência é de criança mesmo. De baixa estatura, esbanjando juventude. Juro que até aí, daria para engolir, mesmo a ausência de expressões nos rostos das personagens não teria incomodado tanto, se não fosse por mais um detalhe: Shun, agora é mulher (agora as coisas ficam complicadíssimas)!

Então é assim? Já não basta estragar Death Note com aquela produção de quinta, agora tem que estragar CDZ também? Qual será a próxima atrocidade? Um remake do “Dragon Ball: Evolution”?

Deixe-me adicionar alguns fatos ao debate: A franquia já possui personagens femininas fortes, Saori não conta pois é a donzela em perigo em muitos dos casos, certo? E (cuidado com o spoiler) o sacrifício dela por todos, salvando-os da pura extinção não conta? E a Shina? E a Marin? Oras, até a personagem filler em Asgard já preenchia a cota de personagem feminina de forte presença (hoje tudo é cota mesmo).

Mas não é o bastante, estamos na época do emburrecimento da propriedade intelectual de outrora. Shun, que antes era quase um andrógino no anime (nada a ver com o mangá), agora tem que ser mulher, pois qual outra forma de chamar a atenção? Não é assim que se atualiza uma obra antiga.

Shun já é um personagem estabelecido na cultura pop, e não estou falando do meme da fatídica cena na casa de libra — E o amor de irmão entre ele e Ikki, agora será menos complexo também? Talvez agora o Shun não seja fraco psicologicamente falando no início da história, afinal, como ele será mulher, se estiver em perigo, e chamar pelo seu irmão fênix, vai ser mais uma donzela em perigo!

Não, Shun (dane-se o novo nome) agora deve ser forte desde o início, pois não existe mulher (nem homem) psicologicamente frágil no mundo de hoje, então por quê tem que ter personagens assim? Talvez seja essa a linha de raciocínio absurdo.

Agora ele(a) vai se apaixonar por uma mulher também? Pois é mais fácil a June de Camaleão (já que não vão seguir mangá coisa nenhuma) continuar uma mulher e criar-se um relacionamento gay (está na moda) em uma obra que sequer tem espaço para desenvolver uma relação amorosa. Se fosse criar algo novo, que fizessem o Pabllo Vittar um cavaleiro de Bronze, mas estamos falando de uma obra já estabelecida. Não o bastante, estamos falando de mudanças não substanciais! De repente nem as vozes dos dubladores originais fazem sentido mais.

E se Shun for forte desde o início, o que há para se desenvolver na personagem (que se torna peça chave na saga de Hades)? Muitos outros momentos (que não convém dizer aqui) se tornam perdidos, não fazem mais sentido. Tudo isso, pelo quê? atenção? Aquele papo do Eugene Son (roteirista principal da adaptação) no Twitter não me convence. O nome disso é baboseira canalha, de quem quer chamar a atenção para a obra em que está envolvido. Devilman: Crybaby atualizou a fórmula antiquada do mangá de Go Nagai sem abusar de medidas mau-caráter!

Até o momento em que escrevo, o trailer no YouTube tem 828.968 visualizações, com 34 mil likes e 23 mil deslikes (número exorbitante). Todos que deram deslikes devem ser homens, e machistas, vai saber…

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