Crítica: The Matrix (1999) de Lana e Lilly Wachowski

Obra-prima da ficção científica continua atual, mesmo após vinte anos.

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No final do século passado, os computadores já estavam começando a se tornar padrões no cotidiano do ser humano, mas o gênero Cyberpunk já não era nada novo, prolífico na literatura nos anos 1980, havia rendido ótimas adaptações para o cinema, como Blade Runner, Akira e Ghost in the Shell, para citar os mais óbvios. Todas originadas de obras literárias — Akira e Ghost in the Shell são originalmente, mangás, que renderam ótimas adaptações, e foram, inclusive, pioneiras por levar a animação japonesa para os cinemas norte-americanos em uma época ainda dominada pela Disney.

Conhecidos até então como ‘Os Irmãos Wachowski’, ainda iniciantes — já haviam desenvolvido o roteiro de Assassinos (1995) e dirigido o erótico ‘Bound’ (1996) —, conseguiram a façanha de serem bancados por um grande estúdio como a Warner Brothers (Bound, havia sido um teste para o estúdio), com um roteiro original, que toma partido de vários conceitos da cultura Cyberpunk (proeza impensável para os tempos atuais — roteiros originais não tem muito orçamento), chegava em 1999, The Matrix. O filme que viria a revolucionar parte do cinema, para sempre!

Com várias cenas icônicas, como a que abre o longa, as letras esverdeadas que decaem sobre o monitor, que representam os códigos da Matrix. O filme, imortalizado na cultura pop (acredita-se que exista cinema pop antes e depois do longa), nos convida nos primeiros minutos para presenciar o impossível, na figura da mística Trinity (Carrie-Anne Moss) que se livra de uma armadilha distribuindo socos e chutes, em um malabarismo irreal, que desafia todas as leis da gravidade (anda pelas paredes e salta de um prédio para o outro), perseguida ainda por indivíduos ainda mais dominantes dessa arte distorcida de dobrar a lógica em meio aos seus movimentos. É um convite para abrir a mente para o que se estar por vir.

Logo após, somos apresentados a Thomas A. Anderson (Keanu Reeves), empregado de uma agência de computadores e softwares — digamos que muito bem empregado, era um deleite para poucos trabalhar com softwares nos anos 1990, com os computadores ainda encontrando o seu espaço na sociedade, até então, um ofício visionário —, incapacitado de seguir regras, insaciável em meio a busca pelo seu lugar no mundo, Thomas A. Anderson, era mais um indivíduo questionador e incapaz de compreender o sentido de sua vida. Deslocado, concentrava-se na busca de informações sobre Morpheus (Laurence Fishburne), o libertador de mentes, mito na rede por ser um dos indivíduos mais perigosos vivos. Mr. Anderson (como era cordialmente associado) também dedica-se ao ilegal, ao crime cibernético, era hacker; culpado de quase todos os crimes previstos na lei anti crime cibernético. Na rede, sai Mr. Anderson, entra o indivíduo conhecido apenas como “Neo”.

“A Matrix te pegou”, é o que diz o computador para Neo. “Siga o coelho branco” (uma, das muitas, referência à Alice no País das Maravilhas) — continua o computador — assustado, mas intrigado, Neo segue o coelho branco, tatuado em um de seus clientes do submundo da informação, que o convida para uma noitada. A boate, repleta de pessoas usando látex (fetiche que se estenderia por todo o figurino da trilogia), ainda apresenta o som da oposição ao som de Dragula, de Rob Zombie — curioso notar que Keanu Reeves viria dançar ao som da mesma música, um ano depois, em ‘O Observador’!

Lá está Trinity: então inicia-se o momento de transição da trama, onde o thriller abre espaço para a ficção, entende-se que o mundo em que Neo havia vivido até então, era na verdade, irreal; apenas um programa de computador feito para manter os seres humanos sob controle, uma vez que uma guerra havia explodido mais ou menos cem anos antes. De repente, Mr. Anderson já não fazia mais sentido, seu nome agora, era Neo.

O programa Matrix emulava a nossa própria realidade, com as mesmas regras limitadoras da gravidade, onde os humanos tocavam suas vidas, mas na verdade, estavam com suas mentes aprisionadas no programa desde que nasceram, para servirem de fonte de energia para as máquinas (que usavam o ser humano como bateria para sua própria existência).

A Matrix é mostrada em tom verde, opaco e sem vida. Essa paleta esverdeada que da tom ao artificialismo do mundo imagético da Matrix sai de cena uma vez que somos apresentados ao mundo real, toma-se conta uma paleta azul, empalidecida, que evidencia o frio desse mundo. Nesse mundo azulado, se encontra a resistência, os humanos ‘opositores’.

Os opositores hackeiam a Matrix e se esgueiram pelos cantos como procuradores de indivíduos em potencial para se libertar do controle das máquinas (em sua maioria, crianças, uma vez que adultos já enraizados no dia a dia dentro do mundo fantástico da Matrix tem dificuldade de desapego, torna-se mais difícil esquecer o irreal), esses procuradores são caçados pelos “Agentes”, indivíduos (nesse caso, leia: programas) arbitrários que servem de mediadores da realidade. Perseguem e eliminam todos que ousam se esgueirar pelo programa e desafiar a ordem. Nota-se que até mesmo esses programas “Agentes” são mantidos sobre controle pelas máquinas, são presos as mesmas leis gravitacionais que os demais, mas com habilidades de desdobramento moderados: prisioneiros de suas próprias limitações como máquinas, com códigos criptografados para não agir além de suas limitações.

Um desses agentes demonstra mais personalidade do que os demais, seu nome é Smith (Hugo Weaving), que percebendo sua limitação, anseia cumprir seu dever, destruir Zion (Sião na legenda clássica dos VHS nos anos 2000) última cidade humana ainda de pé no mundo real, escondida pelos escombros, perto do núcleo terrestre, onde ainda há calor. Smith, é assim, mais um dos prisioneiros da Matrix que anseia se libertar.

Morpheus torna-se o mentor de Neo, e através dele aprendemos mais sobre o conceito deste universo, meticulosamente criado por seus diretores. A trama é recheada de referências à Bíblia Sagrada, reutilizando padrões religiosos para além da fantasia irreal da Matrix (como nos nomes das personagens, por exemplo). Morpheus, acredita que Neo venha a ser O Escolhido, uma pessoa capaz de manipular os códigos da Matrix ao seu bel-prazer. Resultando em um poderoso aliado contra as máquinas arbitrárias, e que, acredita-se segundo profecia feito pela Oráculo, que seria o responsável por terminar a guerra entre humanos e máquinas, e finalmente trazer paz!

É aí que as coisas começam a ficar mais complexas: através de outras versões da Matrix, criadas anteriormente para a mente humana se adaptar ao irreal por toda sua existência (afinal a mente evolui, então o mundo ao seu redor também deve evoluir), alguns programas acabam ficando obsoletos, seja por ficarem ultrapassados diante de versões novas, ou de perderam o propósito diante das inovações. Após ficarem obsoletos, os programa podem: ou pedir exílio na Matrix; ou retornar a cidade das máquinas (no mundo real), retornando a ‘fonte’, e deixando assim, de existir.

No início do conceito d’A Matrix, as máquinas tinham problemas em fazer a mente humana se adaptar, criaram o mundo perfeito, sem dor, sem violência, sem guerra. Mas a mente humana recusava o programa designado para funcionar de forma perfeita, descobre-se que a mente humana precisa do livre-arbítrio e da desgraça para aceitar como real, do contrário passava a vida a tentar acordar. Um programa feito para estudar e analisar a complexidade do ser humano foi criado, foi dele (em conjunto com o Arquiteto, que só vamos conhecer em Matrix Reladed) que partiu parte dos conceitos da Matrix atual. Entendido a complexidade da mente humana em se adaptar nessa realidade, o programa deixa de ter um propósito, e decide se exilar na Matrix, esse programa se alia aos humanos, e passa a agir como mentor de parte da verdade (a que a mente humana é capaz de aceitar) e de guia (apontando para o melhor ‘para aquele momento’, acreditando que o desenvolvimento próprio é a melhor solução para a raça humana — eis o motivo da frase “Conheça-te a ti mesmo” na cozinha). É aí que entra o papel desse programa, conhecido como “Oráculo” (Gloria Foster).

O conceito filosófico e denso do material dos irmãos Wachowski ainda é recheado de grandes cenas de ação, somadas as famosas cenas de computação gráfica (revolucionárias na época e que continuam ótimas aos olhos, ainda hoje, mais de vinte anos depois). Os Wachowski são herdeiros de um cinema de ação antigo, de grandes mestres. O visual por exemplo, vem do mestre chinês John Woo, grande diretor do gênero Heroic Bloodshed, filmes de ação com muito estilo e que fazia dos tiroteios verdadeiros balés sangrentos. Esse visual é formado pelos óculos escuros e pelos sobretudos (em sua maioria pretos), onde os astros distribuíam tiros em câmera lenta.

A sequência de tiro no hall do prédio, onde Trinity e Neo se adentram afim de resgatar Morpheus, continua um dos melhores tiroteios já vistos no cinema. Parte disso se deve a outro fator importante na construção dessa sequência (além do visual): o trabalho de atores. São eles quem brilham, a computação gráfica é usada como complemento para as acrobacias feitas pelos atores, Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Carrie-Anne Moss. Todos eles treinaram por pouco mais de um ano (como pode ser acompanhado no ótimo documentário The Matrix Revisited) para cumprir as exigências de seus personagens. Longe de escalarem mestres das artes marciais, os Wachowski contaram com a habilidade de cada ator para dar o seu máximo. Isso não exclui o uso de dublês, mas é Keanu Reeves dando os vários saltos em frente a câmera, é Carrie-Anne andando nas paredes, suspensa por cabos no set de filmagem. Não estamos falando de lutas geradas por computação gráficas (como em atrocidades recentes, como Pantera Negra e toda trupe patética d’Os Vingadores). Ainda há outro fator importante: a câmera. Sem uso de shaky cam ou de abusar de cortes ligeiros que escondem a incapacidade dos diretores e dos atores, que compõe esse artifício cafajeste das produções citadas (e de muitas outras recentes), The Matrix é um deleite também para fãs de ação. Transitando entre o papo cabeça filosófico, o tiroteio/balé sangrento e a pancadaria  desenfreada.

A trilha sonora que vai do já citado Rob Zombie, transita também entre o trip e o eletrônico (destaque para Rob Dougan), são grandes responsáveis pela criação da atmosfera consistente do longa — os Wachowski colocavam músicas em específico para os atores antes das filmagens, músicas presentes no BOX blu-ray/DVD “Edição Definitiva The Matrix”, que, aliás, é essencial na estante de qualquer fã que se preze.

Roger Ebert (grande crítico americano) aponta em sua review que ‘não se inicia um tema filosófico e termina em pancadaria’, ponto na qual estava totalmente equivocado (com todo respeito ao mestre Ebert), afinal The Matrix são que representam apenas a ponta do iceberg.

The Matrix continua atual, mesmo com seus vinte anos de idade, a prova disso é a crescente imersão social no mundo virtual. Submerso em redes sociais, a sociedade parece viver cada vez mais dentro da máquina, deixando se influenciar e até mesmo ditar a própria realidade, seja política ou filosófica. The Matrix é aqui e agora.

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