Crítica: The Matrix Reloaded (2003) de Lana e Lilly Wachowski

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★★★★

“As continuações de The Matrix não são tão filosóficas quanto o primeiro” — esse é um argumento que se escuta constantemente mundo a fora, como se Reloaded e Revolutions não seguissem a herança do primeiro filme em toda a sua magnitude e/ou não fizessem jus. Mas por qual motivo essa questão é sempre apontada?

Pode-se sustentar esses argumentos contra Reloaded (mas nunca contra Revolutions). O segundo filme da trilogia é o que mais se entrega a ação (há uma sequência de quase trinta minutos ininterruptos), logo, é o que conta com menos diálogos. O problema de Reloaded, talvez, seja a quantidade de personagens. Ou seria o problema o fato de o universo estendido tomar partido da obra principal para explicar certos contextos e situações?

Pois bem, o jogo Enter the Matrix veio com a proposta de fazer parte do universo canônico da franquia, desenvolvido ao mesmo tempo em que as duas continuações estavam sendo rodadas. Portanto, para entender o papel crucial de Niobe (Jada Pinkett-Smith) e Ghost (Anthony Wong) nos eventos de Reloaded é necessário jogar o game. Se estender o universo através de outras mídias e torna-las importantes é certo ou errado, vai de cada um.

Mas é inegável que o fator ‘auto suficiente’ que se espera da obra acaba caindo por terra, principalmente no terceiro ato, onde vários dos eventos são narrados em elipse — todo o planejamento e execução do plano para destruir a usina, e apagar 27 quarteirões são transportados para a tela de forma corrida, afim de deixar os detalhes para os que se aventurarem pelo game.

O primeiro ato do filme original, era tomado pela paleta esverdeada que emulava a artificialidade da Matrix. O segundo ato, pelo azul opaco que mostrava o mundo real. No terceiro, as duas se encontravam constantemente uma vez que a história se passava em ambos os ‘mundos’. Em Matrix Reloaded, desde o início já acompanhamos a estrutura do terceiro ato do primeiro filme. Já sem razão para explicar o universo e o conceito da Matrix, os Wachowski se concentram em ampliar as sequências de ação que movem o longa. O filme é repleto delas. Já nos primeiros minutos, acompanhamos Trinity sendo morta por um agente, que logo se mostra um sonho (já sacamos como profético); a reunião que toma parte na Matrix também é encerrada por outra cena de ação. Dessa vez, Neo vs três agentes. A fantástica sequência, apesar de curta, é embalada pela trilha de Rob Dougan que emplaca outros grandes momentos musicais desse segundo filme (em conjunto com a especial trilha original de Don Davis); Neo, agora voa (já acompanhamos isso no final do primeiro filme) e os diretores fizeram questão de fazer uso dessa habilidade para fins narrativos (velocidade de transição entre ponto A e ponto B; sacada para inutilizar Neo, abrindo espaço para Morpheus e Trinity). Digno de inveja para qualquer filme do Superman e outros.

Se as lutas funcionam, há os diálogos problemáticos que estão, em especial, mal representados por personagens menores, como é o caso daqueles que parecem existir para darem certo alívio cômico para a trama. Desnecessários e dispensados de forma tola (mas que contam com maior destaque no game Enter the Matrix).

Presos nas amarras do tempo padrão de produção, a estrutura sofre. Se mais ousados, poderiam ter prolongado a narrativa. Mais tempo com o drama das personagens ajudaria a desenvolve-los.

O Agente Smith, uma vez derrotado por Neo, deveria retornar à fonte ou pedir exílio na Matrix. Sem fazer nenhum dos dois, Smith se rebela, e embarca em uma jornada própria, contrariando o seu propósito. Os Agentes podem transitar por entre qualquer indivíduo conectado diretamente à Matrix; ‘cada indivíduo é um agente em potencial’ diz Morpheus durante o treinamento de Neo no primeiro filme. Agora, após ser excluído da função de Agente, Smith não mais transita por entre os vários habitantes aprisionados da Matrix, mas obtém a habilidade de infestar esses indivíduos, criando uma cópia exata de si mesmo, até ‘colando’ os códigos de sua própria consciência nessa nova cópia. Tornando-se assim, uma espécie de vírus.

Ainda na trama: as máquinas estão cavando, quase se adentrando no núcleo terrestre, onde a última cidade humana ainda resiste, Zion. Morpheus (Laurence Fishburne) e a Nabucodonosor estão a procura da Oráculo para guia-los nesse momento de urgência.

Em Zion, após conscientizar toda a população sobre as horas sombrias que se aproximam, inicia-se a derradeira festa carnal: embalado pelas batidas da banda FLUKE, a câmera passeia por entre os corpos desesperados que se libertam por uma última noite, o sexo e a agitação que fazem tremer os muros, é uma mensagem para as máquinas que o calor humano ainda existe, ainda há quem lute.

Mestre em Kung-Fu, Collin Chou foi escalado para viver Seraph, programa guardião da Oráculo — Gloria Foster em seu último papel — viria a falecer entre as filmagens de Reloaded e Revolutions. O confronto entre Neo (Keanu Reeves) e Seraph é o mais fluído desse segundo filme, talvez por se tratar do que menos utilizou CGI? Guiados pelos cabos metálicos, os dois atores entregam movimentos coreografados à risca. Destaque para Keanu que conseguiu acompanhar o mestre Chou durante a sequência, sem parecer anos luz atrás em termos de habilidade. Destaque também para todo o plano que se estende no grande salão do castelo de Merovingian (Lambert Wilson).

O já icônico confronto de Neo vs Smith (e suas cópias) demonstra o potencial do CGI no cinema. Em determinado momento Keanu é substituido por imagens 100% geradas em computação gráfica. Esse artificialismo crônico cobre boa parte de Reloaded, e apesar de os efeitos terem envelhecido bem, ainda são notáveis (o que não acontece no primeiro filme). É interessante notar que se tratando de acontecimentos dentro da própria Matrix, esse artificialismo não deve incomodar, nem parecer exagero, afinal trata-se de fato de um mundo artificial, gerado pela máquina.

Muito do enredo de Reloaded serve de introdução ao que estar por vir, os acontecimentos no final por exemplo, são deixados no vácuo para engatar ‘Revolutions’…

“To be concluded”

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