Crítica: “Dragon Ball Super: Broly” é mais de oito mil!

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Vinte anos atrás era difícil obter informações sobre animação japonesa em geral. Com a internet ainda se alastrando, as referências eram as revistas especializadas (como a Anime Do, Ultra Jovem, etc). Através delas, conhecíamos mais sobre a, até então, não finalizada Saga de Hades de Cavaleiros do Zodíaco, ou sobre ‘um tal’ One Piece que parecia estar começando se tornar um fenômeno no Japão.

Também é pelas páginas das revistas, que as ilustrações de Broly cativavam o público. O misterioso personagem, vilão de um filme, que na época, era de difícil acesso e que tinha sido visto por poucos, raro de se achar em locadoras. A única esperança, era esperar a boa vontade de alguma emissora (Band, ou mais tarde, a Globo).

Existia uma tendência, de os longas/animes dos anos 1980 e 1990, serem meros produtos picaretas preparados para lucrar em prol da popularidade das séries de televisão (não que isso esteja extinto). Nada acrescentavam ao enredo principal (entenda: filler). Os filmes de Dragon Ball Z por exemplo, seguiam padrões, sempre reciclados de uma produção para outra: inimigo poderoso chega à terra, Goku e os guerreiros Z apanham, e logo Goku lança uma Genki Dama com energia provida de seus amigos. Não era exclusivo de ‘DB’ esse ciclo vicioso. CDZ, outro fenômeno da TV prolífico no cinema, seguia também um padrão (os inimigos eram derrotados com Seiya vestindo a armadura de Sagitário e lançando uma flecha em seu último suspiro de esperança).

“Broly, O Lendário Super Saiyajin”, também nadava na picaretagem. O filme de 1993, contava a história de Paragus e seu filho Broly, que ao serem tidos como ameaça pelo Rei Vegeta, são deixados à mercê da morte. Sobrevivem, e planejam se vingar. Daí se estendem uma seção de eventos padronizados e seguidos à risca (incluindo a Genki Dama).

Apesar da imagem mítica que o personagem título havia alcançado por meio da falta de acesso, seu filme não preenchia as expectativas (principalmente suas continuações canalhas), e se revelava apenas mais um no panteão das bobeiras produzidas em nome do dinheiro. Sequer chegava perto de Bojack Unbound, melhor filme baseado na franquia — que curiosamente se afastava do padrão, mas reaproveitava o desfecho da batalha contra Cell.

É sabido que quando Dragon Ball Super estreou na TV em 2015, dois filmes da safra recente já haviam vindo para os cinemas brasileiros, o frustrante “A Batalha dos Deuses” (2013) e o competente “O Renascimento de F” (2015), alguns meses antes da estreia na TV — ambos, refeitos na série, o que reforçava o valor canônico dos eventos.

Talvez seja pelo sucesso de Kale, a introvertida garota que, no Torneio do Poder, liberou seu poder oculto descontrolado, que esse filme tenha visto a luz do dia. Seu sucesso não se deve pelo fato de a personagem bronzeada ter feito a cabeça do público, mas por reaver o potencial do personagem não canônico — Era comum ouvir como ela seria incapaz de ser o próximo Broly, seja pela falta de carisma, ou pela pífia abordagem da série.

Já com o anúncio, ficava difícil não se alegrar, mesmo com ressalvas, que o personagem finalmente teria uma merecida segunda chance. A observação que evidencia a existência de alguma irregularidade no anúncio da nova obra, é que DB Super foi incapaz, ao longo de seus episódios, de recapturar o que fez da franquia o fenômeno que é. Mais centrado em atrair um novo público (principalmente mais jovem), era comum personagens emburrecidos e vilões pastelões. Um verdadeiro show de horrores.

E é por isso, que o público que saiu enfurecido das sessões de ‘A Batalha dos Deuses’, ou que abandonou a série de TV no meio (em boa parte pela horrenda Ribrianne, é patética), encontrará nessa nova aventura, um alento. O novo filme é mais Dragon Ball do que o Super havia conseguido ser até o momento.

Pode parecer saudosismo mas não é. O fato é que Super queria reaver o que ficou para trás. Negando o amadurecimento que a série teve ao longo dos anos e constantemente tentando retornar às raízes, quando Goku ainda era uma criança. ‘GT’ falhou nessa recaptura, e em grande parte, ‘Super’ também. Digo em parte, pois houve acertos, como a introdução de novos universos — mas quando erravam, a coisa ficava realmente vergonhosa.

Quatro anos e 131 episódios depois, chega aos cinemas brasileiros “Dragon Ball Super: Broly”. A terceira aventura cinematográfica canônica da série resgata do filme de 1993, o personagem com maior potencial desperdiçado da franquia. Com uma nova abordagem, o roteiro assinado pelo próprio Akira Toriyama, reaproveita pouco da produção antiga (da qual havia contribuído apenas com o design do personagem).

A premissa é a mesma: ciente do poder extraordinário que Broly, ainda bebê, possui. O Rei Vegeta decide dar um fim a esse, que poderia no futuro, se tornar uma ameaça incontrolável. Terminam aí as semelhanças entre as duas obras.

Preocupado em dar uma origem mais elaborada ao personagem título, Toriyama ocupa boa parte da primeira metade do longa com diálogos, são quase trinta minutos dedicados só a construção e a formulação de eventos que fez Broly abster-se durante os muitos anos em que todo o enredo de Dragon Ball se submete. Há certa preocupação em ‘humaniza-lo’ através do drama. Sentimos pena dele, quando o rapaz perde a razão, ainda não conseguimos vê-lo como o demônio desumano dos anos 1990.

A direção ficou à cargo de Tatsuya Nagamine, de One Piece Film Z (2012), o melhor filme baseado nos mangás de Eiichiro Oda. Não satisfeito, Nagamine agora traz o melhor filme da franquia Dragon Ball.

A trama é como a chama que se extingue no relógio das doze casas do zodíaco. É só Freeza chegar na terra com o brutamontes, que todo o enredo desaparece (o que é um acerto). Abre-se espaço para a incrível sequência de ação. É a única batalha do longa, e esse confronto único demonstra um grande trabalho de animação. Os ângulos inusitados (com direito a sequência em primeira pessoa) e os efeitos de som e luzes vão levar qualquer fã ao delírio (destaque para o anúncio de cada transformação e técnica).

Em Dragon Ball sempre há espaço para humor bobo, o diferencial deste para os dois últimos, é que as piadas funcionam. Sem medo de parecer exagerado ou demasiado inocente. O longa ainda brinca com a fórmula antiga: Piccolo, que sempre fazia uma ponta nos filmes antigos, era motivo de piada, pois suas entradas marcantes, no ápice da batalha, causava impacto visual, mas sempre acabava minutos depois com o Namekuseijin espancado e inconsciente em algum canto do cenário. Dessa vez, Piccolo adianta que se for até onde a batalha está acontecendo, seria apenas questão de minutos até que ele seja derrotado.

Apesar dessa participação de Piccolo, o filme não se preocupa em explicar onde estão os demais guerreiros Z. Gohan por exemplo, sequer dar as caras (não fez falta).

O relacionamento entre Goku e Vegeta alcançam cada vez mais novos horizontes, os agora amigos, servem de contraponto um para o outro. A ingenuidade tola de Goku por exemplo, é contextualizada pelas sacadas geniais de Vegeta.

No fim de “O Ressurgimento de F”, ambos discordavam de lutar juntos contra um inimigo em comum. Dessa vez eles não só lutam juntos, como trazem a vida Gogeta (que antes também era filler). Então abre espaço para um segundo round ainda mais incrível do que se havia visto até aqui, não só no filme em questão, mas em qualquer animação de ação feita até o momento.

Na sequência mais incrível do longa, Gogeta e Broly transcendem tempo e espaço, e protagonizam a batalha mais épica da franquia desde o combate final contra o androide ‘Cell’.

A UNIDUB ficou responsável pela dublagem brasileira, estúdio chefiado por ninguém menos do que Wendel Bezerra, responsável pela voz de Goku, que todos aprendemos a amar. Grande acerto da FOX. Wendel reescalou boa parte dos dubladores originais, com exceção de Carlos Campanile (Freeza).

É em meio ao choro e aos gritos que o público iniciado vai se sentar pelos 100 minutos de duração (o mais longo da franquia até o momento). E perto do colapso de êxtase, (re)descobrir junto aos personagens esse mito que, dessa vez, faz jus a sua própria lenda e imagem.

 

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