Crítica: “Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven” é diálogo de homem com sua natureza animal.

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★★★★

A Saga dos Clones é sem dúvida a saga mais polêmica; mas talvez um dos arcos mais intrigantes de todo o ciclo d’O Homem-Aranha seja “A Última Caçada de Kraven” (dividida em seis partes) — Três décadas atrás: era chegada a hora de abalar (mais uma vez) a mente do aracnídeo após já terem falecidos Tio Ben, Gwen e outros. Porém, dessa vez seria um pouco diferente — a última caçada refere-se a essência de caçador, ou ao próprio Kraven?

Sergei Kravinoff, mais conhecido como Kraven, era russo, filho de pais exilados nos E.U.A. por conta da Revolução Russa. Sempre deslocado entre os arranha-céus da selva de concreto, preferia as selvas. É lá que se encontrou — “encontrei dignidade não nas cidades, mas nas selvas” – “encontrei honra, não no civilizado, mas no primitivo” —  Dedicando parte da vida adulta à caça, Sergei era daqueles personagens que apareciam de tempos em tempos com um plano mirabolante para erradicar o amigo da vizinhança. A caça era o que motivava sua existência. É nela em que baseava sua própria essência.

Tigres, leões, javalis, elefantes, ursos… Não importa qual animal selvagem, Kraven não era apenas homem, era também animal. Caçava suas presas com as próprias mãos. Matava-os sempre sem grandes problemas. Sua única presa que continuava a escapar, era o próprio Homem-Aranha. Nele encontrou mais um motivo para existir, mais uma meta para definir sua existência vazia.

Em sua última caçada, Kraven, o homem-animal, antes de consumir-se pelo seu vazio, caça o Homem-Aranha por uma última vez; porém a caça destina-se não ao homem, mas ao animal, ao símbolo, a aranha!

Passa a viver como aranha, anda como uma, ataca presas como uma. Ao confrontar o próprio Homem-Aranha, Kraven doma-o com um rifle munido por dardos envenenados. Enterra-o, não importa quem está por debaixo da máscara, Peter Parker ou qualquer outro. É o mito, a natureza animal que Kraven caçava.

Peter está vivo, Kraven sabe, o enterro, assim como a caça, é apenas simbólico. Enterra apenas a aranha! Era seu trunfo: vencer sua própria motivação.

No tempo em que a aranha está enterrada, envenenada e inconsciente, Kraven assumi o manto de Homem-Aranha. Destrói a imagem de herói; pois inicia uma onda de violência em seu nome.

Se Kraven é o Homem-Animal, Peter é apenas homem. Munido com seus poderes de aranha, claro, mas é da natureza espiritual do homem que J. M. DeMatteis (escritor da obra) fala. Peter vem passando pela dor da perda; recém-casado com M. Jane, agora tem maiores compromissos para voltar no fim da noite após sua rotina como protetor de N. York. É refém de seu espírito humanitário. Jamais se rendendo ao seu animal cordial.

Há ainda a presença de Rattus, que não é homem, apenas animal. Vive nos esgotos, sobe para se alimentar, mata por instinto, não pelo prazer da caça. Também não os poupa, pois não possui nenhuma moral.

Entre esses três personagens — o homem, o animal e o homem-animal — DeMatteis dialoga com a natureza de cada um deles. O centro dessa história, é narrado em vaivém: os quadros antecipam um enterro, ainda não sabemos quem será enterrado, ao mesmo tempo, acompanhamos a ação. Há mais de um enterro nessa história. Não se sabe antes do final, se é homem ou animal que será enterrado.

Dotado de tensão e violência, hoje praticamente extinta nas comics do mundo da Marvel, A Última Caçada de Kraven é de uma época em que era válido experimentar sem amarras, onde o sombrio ainda era algo natural, e não ‘chamadas’ para uma nova repaginação. É também de um tempo em que os quadrinhos eram tidos como arte, o que parece estar esquecido, inclusive pela própria Marvel.

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