O fim do respeito.

Ir ao cinema não é um hobby, ir ao cinema é um ritual; uma cerimônia. Desde criança, quando frequentava o cinema para ver a estreia da semana, notava algo de mágico: o som alto, a tela grande, o ambiente escuro, a atmosfera… Não é coisa da minha cabeça, pois sei que não estou sozinho no mundo, mas ir ao cinema, é mais do que simplesmente ‘ver o filme’, é contemplar o próprio cinema.

É triste, mas hoje prefiro ver os filmes em casa. Seja pelo circuito, que só se preocupa com filmes americanos, ou melhor, blockbusters americanos — afinal até mesmo o filme indie americano tem pouco espaço no país, não que eles fossem a salvação, uma vez que não há nenhum Cassavetes —, além do circuito fraco, há outro problema gravíssimo: o público.

Aqui, o único cinema da cidade fica no shopping, vejo as pessoas escolhendo filmes na hora com a família, não se importam se é o dois ou o três, não se importam em saber quem ou quê. É um programa, apenas para matar o tempo. Até aí tudo bem, não sou eu quem vou dizer como se deve apreciar arte — desde os meus treze anos não sei o que é ir ao cinema sem ao menos saber o nome do diretor ou do elenco.

O problema começa lá dentro, as conversas altas, o celular que não apaga (sequer se preocupam com a intensidade do brilho mais), e o que mais me chateia, a falta de interesse. Para ficar no celular durante um filme, já demonstra grande falta de interesse (por qual motivo pagar para ver algo que não está afim? Não entendo). Afinal, como ver o filme e conversar por mensagem ao mesmo tempo? Impossível.

Mas a falta de interesse maior, é para com o próprio cinema, não há mais respeito pela experiência, não há mais apreciação pelos filmes!

Na última vez que fui (semana passada), uma moça levou uma criança (não sei se era filha ou não), sentaram-se ao meu lado. Além de ficarem conversando o tempo todo, a criança não desgrudava do celular. Saia toda hora para comprar bala ou refrigerante, e, ao voltar, perguntava sobre o que estava acontecendo. Então a mãe contava todo o filme para a criança (de forma tola e incoerente, diga-se de passagem) sem se importar com os outros ao redor, não só comigo, afinal todos por perto ficaram impacientes e incomodados. Desviava a atenção. Pedir educadamente não adianta mais.

Não foi a primeira vez, nem será a última. A tendência é piorar, sou pessimista quando falamos, não só de cinema, mas de linguagem em geral. O interesse não existe mais.

Afinal, pedir para a pessoa parar é o suficiente? Claro que não! Ouvir o outro é muito penoso — as pessoas se escutam cada vez menos. Na penúltima vez que fui, um adulto (de adulto só a idade), decidiu filmar o filme para postar no Instagram (ou em qualquer outra baboseira do tipo). O ‘lanterninha’, aquele funcionário que fica passeando pelo cinema o notou e pediu para que desligasse o celular. Além desse ato no mínimo criminoso, o rapaz ainda teve coragem de contestar: “mas só estou filmando o filme, qual é o problema?”. Ao ouvir tal frase, comecei a pensar. Pensar se não sou eu o errado, se não sou eu o deslocado…

Os tempos mudaram. Nas conversas, não existe mais o papo de cinema, apenas o papo sobre o próximo filme de super-herói. No cinema, não há respeito, mas por qual motivo esperava que houvesse? Se não há fora, quem dirá dentro, quando as pessoas estão acompanhadas e se veem na obrigação de se mostrar ou algo do tipo. E afinal qual o problema de ir ao cinema sozinho? É tão estranho assim?

Apesar de tudo, não vou deixar de frequentar as salas; porém sinto-me deslocado, a canalhice parece ter tomado conta do mundo. Não é assim, ao meu ver, que se contempla um filme, mas estou praticamente sozinho nessa. O fim da experiência demonstra também o fim do respeito.

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