Afinal, o que realmente importa?

Esse texto toma como base, a seguinte matéria:
https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,voce-a-serie-que-evidencia-o-poder-da-netflix,70002696961

É verdade, visibilidade nunca foi sinônimo de qualidade; mas afinal, o que realmente importa? O que é qualidade cinematográfica? — aqui, incluo também séries (a contragosto, pois são mais mídia), veja Game of Thrones como exemplo, tanto sucesso pelos motivos errados; acredito que se há público o suficiente que veja determinada obra como arte, então é arte!

Alguns fogem da regra – Homem nu no museu é arte? Antes me pergunto: há público que considere como arte? Se a resposta é sim, então quem sou eu para dizer que não é? Agora quando o assunto é cinema, não há discussão: é arte! Em sua própria essência, em sua própria definição, em seu berço. Pode ser entretenimento também? É claro que pode, mas isso não tira o fator inicial de que está sendo usado, para entreter, uma linguagem artística. Vingadores é arte? É arte com o intuito de entreter; mas e quanto a qualidade? Aí já é outro tema. Vingadores está mais preocupado com a carteira do público, do que com sua afinidade com o cinema. O mesmo vale para boa parte dos blockbusters atuais.

A computação gráfica é uma boa representante da decadência do cinema americano, veja esse parágrafo: “Em “Planeta dos Macacos – O Confronto”, temos mais uma amostra de que a tecnologia, que costumava andar de mãos dadas com a evolução da linguagem cinematográfica, agora está destruindo o cinema.” – o texto em questão é do crítico Sérgio Alpendre, basta essas poucas palavras para resumir o mal-estar atual das produções arrasa-quarteirão.

Se o tema é visibilidade, então a Netflix é o centro, mas ter tanta visibilidade não quer dizer absolutamente nada! Há tantas evidências de produções ruins que fazem sucesso por aí: 50 tons de cinza, Vingadores, Game of Thrones, Velozes e Furiosos… e claro, muitas das produções com selo Netflix: Stranger Things, Narcos (a partir da segunda temporada) e agora uma tal de Você.
Essa última, talvez seja o que melhor evidencie (hoje, pois basta esperar GoT retornar) esse mal-estar da falta de qualidade, que se torna a menina dos olhos de um público ávido por uma nova descoberta na plataforma, mais preocupado com as voltas e mais voltas do roteiro do que de fato com a linguagem cinematográfica; mais preocupados em se inteirar do assunto mais discutido no Twitter do que de fato em refletir junto à obra.

Não importa a qualidade da tal série Você, se está na Netflix, corre um grande risco de fazer sucesso, e é aí que começa o ciclo vicioso da falta de qualidade. Para as empresas, qualidade é sinônimo de visibilidade; para o público contemporâneo, visibilidade é sinônimo de qualidade. Então já podem dar as mãos. O cinéfilo que considera Luchino Visconti um dos grandes mestres do cinema, talvez olhe para a Netflix e se indague: “onde foi que errei?”, afinal, o erro também é nosso. É nosso erro, como cinéfilo.

Erro também da crítica: a internacional, mais preocupada em falar bem para não perder a credencial na próxima cabine; e da brasileira: mais preocupada em não virar inimiga do grande público por falar a verdade sobre o novo filme da Marvel.

O equívoco já chegou ao Oscar, não que um dia esse evento tenha sido sinônimo de qualidade; porém, há a eterna discussão de 42: Cidadão Kane perdeu para Como era Verde o Meu Vale na categoria melhor filme, e nós sabemos qual dos dois se revelou mais duradouro com o tempo. Mais duradouro na boca do público, e na mão dos acadêmicos. Você consegue escolher entre Orson Welles e John Ford? Bom, eu não.

Eram outros tempos, hoje se escolhe entre Pantera Negra ou Nasce uma Estrela. O primeiro, uma continuação de um universo estendido, que conta a mesma história já repetida inúmeras vezes, feito de forma tola (as lutas são em boa parte feitas em computação gráfica), mas qual o fator principal? o elenco é negro — representatividade é importante, mas não é sinônimo de qualidade; o segundo é um remake de um remake de um remake… — melhor ator/atriz: Glen Cose é ótima, já provou isso tantas vezes, mas o prêmio vai para a que mais se destaca em meio ao dejeto? pois A Esposa é sofrível até em sua proposta. O mesmo vale para Rami Malek no mascarado Bohemian Rhapsody.

Mais do que a série Você, outro exemplo de visibilidade/qualidade é Roma, como já adianta o crítico Inácio Araújo: …se fosse lançado nos cinemas, a seco, “Roma” teria o público que está tendo? […] – Nós sabemos a resposta!

Roma é, de fato, um bom filme, mas convenhamos, não há nada ali que o coloque no panteão de grandes filmes do Século XXI. E qual seria o motivo de tanto burburinho? É o trabalho de câmera? As atuações? A atmosfera? Se for, Lav Diaz e Béla Tarr merecem ser lançados na Netflix urgentemente! Mas apesar de Roma ser um bom filme, há outra menina dos olhos do cinéfilo de Instagram: Birdbox. Esse sim, o exemplo definitivo; pois Birdbox é um filme ruim, mas é sucesso absoluto!

— O texto parece fugir do tema inicial proposto, e também não possui uma conclusão, mas afinal, o que realmente importa? E o que diabos é arte?

“A arte não é a reflexão da realidade, é a realidade da reflexão”
La Chinoise, Jean-Luc Godard (1967).

Vamos refletir…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s