A Fragmentação do respeito e a terceirização da culpa

É comum na sociedade atual, terceirizarmos a culpa pelos nossos fracassos ou atos infelizes. Fulano não passou de ano por culpa do Lula; beltrano cometeu um massacre por culpa do Bolsonaro. Sicrano não se esforçou na hora de estudar, foi incapaz de largar o iPhone momentos antes do exame final  — É culpa do Steve Jobs!

Enquanto o mundo pega fogo e caminha ladeira abaixo, a saúde mental continua sendo negligenciada. É frescura! Por qual razão se dedicar a saúde mental, afinal? É tudo coisa da nossa cabeça, certo? Errado.

Tudo está ligado a um fator muito importante; porém totalmente fragmentado: respeito. E já digo o motivo de tal fragmentação — Hoje não se ensina respeito, ensina-se aceitação. O aceita que dói menos é a nova forma de engolir as escolhas alheias, mesmo que não concorde com elas — Não seria mais eficaz ensinar a respeitar? Pois respeitar e aceitar até podem ser sinônimos, mas na prática são muito diferentes.

Agora, o que quero dizer com tal fragmentação? É você retirar do “respeite ao próximo” apenas aquilo que seja do seu interesse. Você é a favor da cor azul agora ser chamada de verde? Ótimo. Isso invalida quem não é a favor? Não (e vice-versa)! Aí começa a guerra… Os que são a favor, vão contestar a falta de respeito dos que não aceitam tal mudança, e do lado oposto, vão reclamar da falta de respeito aos fatores já estabelecidos, afinal, para esse segundo grupo, azul é azul desde que se entende de cores! Aí está, o respeito fragmentado, usado em prol do ponto de vista que mais se enquadra na sua convicção. Quem acredita que azul agora é verde não consegue entender a ignorância de seus opostos diante do novo, da mudança — quase sempre generalizada, mas alguém que seja contra azul ser agora verde, não necessariamente seria contra marrom ser agora chamado de amarelo — e os conservadores, não conseguem entender a perversão dos liberais em mexer em algo tão tradicional  — também generalizado na maioria das vezes, afinal, quem não tem seus valores morais/ideológicos tradicionais?

E afinal, qual lado está mais equivocado? Temos aqui um empate técnico! Enquanto o respeito se torna um fragmento dos valores ideológicos de quem o prega, quem ainda é a favor da velha frase ‘respeite ao próximo’ fica no fogo cruzado. Não escolher um lado nessa guerra é pedir para ser fuzilado por ambos os lados.

Pabllo Vittar é transexual, mas você não gosta da música dela? Acha as letras pobres, o instrumental fraquíssimo, com um vocal desafinado e irritante? Seu homofóbico; Não é a favor do Bolsonaro? Seu PTralha; Não é a favor do PT? Seu fascista! O extremismo faz parte da ignorância dos tolos.

Se tudo começa com o respeito, termina com a culpa… Afinal, a culpa do seu filho ser incapaz de ler um texto de quatro linhas é do governo. Terceirizar nossas derrotas já se tornou um hábito. Não conviver mais com nossos fracassos, será a nossa ruína, não só como indivíduos, mas também como sociedade. Fragmentamos não só o respeito, mas também a culpa.

Já não é mais do nosso feitio sermos iguais, embora todos continuemos o pregando como tal, agora ‘temos’ que ser diferentes. Diferentes do que já fomos (se é que um dia já respeitamos verdadeiramente alguém)! E tome muito cuidado antes de sair por aí pregando o respeito ao próximo, a pessoa do seu lado pode ter mais caras do que o Kevin Wendell Crumb!

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