Mar em Fúria (2000) de Wolfgang Petersen

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Recentemente estou assistindo a filmografia de Wolfgang Petersen, (Das Boot), de fato um diretor muito versátil (dirigiu o clássico Força Aérea Um). Era hora de rever Mar em Fúria, filme que vi na SBT muitos anos atrás em qualidade ruim (minha TV/antena não eram boas), dessa vez, vi a versão remasterizada, com áudio 5.1. Posso confirmar: é uma experiência aterrorizante. Já havia ficado assustado no início dos anos 2000 com o realismo da pesca e com a natureza agressiva engolindo aqueles que se aventuravam na imensidão azul.

O primeiro ponto que me chamou a atenção nessa revisita, foi a pesca — que acho um exercício terrível e cruel, e aqui é retratada de forma realista, toda a impiedade diante dos seres fantásticos que habitam os mares desse planeta — de peixe-espada a tubarões —, mortos com arpões e sorrisos, confesso que esse realismo me deixou incomodado a ponto de ter que pausar e fazer uma rápida pesquisa sobre a violência ali contida, encontrei uma verdade mais humana, Petersen não usou sequer um peixe de verdade durante as filmagens — e de volta ao filme… mesmo com essa informação apurada, tudo ainda era incrivelmente aterrorizante, um grande feito!

Há muita crítica negativa em relação a obra, principalmente a falta de backstory em alguns dos personagens a bordo de Andrea Gail (nome do barco de nossos protagonistas), claro, muito mais poderia ter sido explorado no personagem de George Clooney, de longe o mais complexo do filme, mas Mar em Fúria não é sobre seus personagens, e sim sobre um evento. O nome em inglês casa muito melhor, e não entendo o motivo da troca, afinal, “A Tempestade Perfeita” não só soa melhor do que “Mar em Fúria”, como também condiz mais com os eventos propostos pela narrativa, inclusive a frase é entoada em determinado momento.

Em Força Aérea Um a trilha sonora de Jerry Goldsmith sabia balancear bem os momentos patrióticos e os de tensão, porém, em Mar em Fúria, a trilha de James Horner é puro caça níquel! Falta identidade, peca no acompanhamento dos acontecimentos em tela — como no clímax, onde a trilha insiste em tons lentos já utilizados em excesso durante os momentos mais dramáticos, e quando finalmente resolve acompanhar o ritmo acelerado, já estamos no fim.

Mais aterrorizante do que a pesca, é o evento, a tal da tempestade perfeita, recomendo que o filme seja assistido com a melhor qualidade de imagem possível, pois seus efeitos especiais continuam segurando as pontas, sem momentos embaraçosos como no clímax de Força Aérea. O mar é assustador, e por vezes belo: ondas de nove metros; o tom escurecido; os closes nos rostos úmidos e assustados, os planos abertos do barco Andrea Gail, como um pontinha insignificante no meio da tempestade.
Petersen se afasta do protagonismo fácil, sonda outros personagens ligados a catástrofe, alguns funcionam, como é o caso dos tripulantes a bordo de outro barco; do drama da equipe de resgate; da leve participação do homem do tempo, admirado pela tempestade em si; a personagem de Mary Elizabeth Mastrantonio (muito bem no papel) e outros poucos, não funcionam, é o caso de todo o arco da personagem de Diane Lane e das que ficam a espera de notícias sobre seus entes queridos, até então desaparecidos.

Mar em Fúria é uma experiência estarrecedora, desde que, como dito, o caro leitor se lembre que trata-se de um filme sobre o evento, e embora não seja perfeita, essa tempestade merece muito ser redescoberta. É um dos grandes filmes de Petersen.

A Fragmentação do respeito e a terceirização da culpa

É comum na sociedade atual, terceirizarmos a culpa pelos nossos fracassos ou atos infelizes. Fulano não passou de ano por culpa do Lula; beltrano cometeu um massacre por culpa do Bolsonaro. Sicrano não se esforçou na hora de estudar, foi incapaz de largar o iPhone momentos antes do exame final  — É culpa do Steve Jobs!

Enquanto o mundo pega fogo e caminha ladeira abaixo, a saúde mental continua sendo negligenciada. É frescura! Por qual razão se dedicar a saúde mental, afinal? É tudo coisa da nossa cabeça, certo? Errado.

Tudo está ligado a um fator muito importante; porém totalmente fragmentado: respeito. E já digo o motivo de tal fragmentação — Hoje não se ensina respeito, ensina-se aceitação. O aceita que dói menos é a nova forma de engolir as escolhas alheias, mesmo que não concorde com elas — Não seria mais eficaz ensinar a respeitar? Pois respeitar e aceitar até podem ser sinônimos, mas na prática são muito diferentes.

Agora, o que quero dizer com tal fragmentação? É você retirar do “respeite ao próximo” apenas aquilo que seja do seu interesse. Você é a favor da cor azul agora ser chamada de verde? Ótimo. Isso invalida quem não é a favor? Não (e vice-versa)! Aí começa a guerra… Os que são a favor, vão contestar a falta de respeito dos que não aceitam tal mudança, e do lado oposto, vão reclamar da falta de respeito aos fatores já estabelecidos, afinal, para esse segundo grupo, azul é azul desde que se entende de cores! Aí está, o respeito fragmentado, usado em prol do ponto de vista que mais se enquadra na sua convicção. Quem acredita que azul agora é verde não consegue entender a ignorância de seus opostos diante do novo, da mudança — quase sempre generalizada, mas alguém que seja contra azul ser agora verde, não necessariamente seria contra marrom ser agora chamado de amarelo — e os conservadores, não conseguem entender a perversão dos liberais em mexer em algo tão tradicional  — também generalizado na maioria das vezes, afinal, quem não tem seus valores morais/ideológicos tradicionais?

E afinal, qual lado está mais equivocado? Temos aqui um empate técnico! Enquanto o respeito se torna um fragmento dos valores ideológicos de quem o prega, quem ainda é a favor da velha frase ‘respeite ao próximo’ fica no fogo cruzado. Não escolher um lado nessa guerra é pedir para ser fuzilado por ambos os lados.

Pabllo Vittar é transexual, mas você não gosta da música dela? Acha as letras pobres, o instrumental fraquíssimo, com um vocal desafinado e irritante? Seu homofóbico; Não é a favor do Bolsonaro? Seu PTralha; Não é a favor do PT? Seu fascista! O extremismo faz parte da ignorância dos tolos.

Se tudo começa com o respeito, termina com a culpa… Afinal, a culpa do seu filho ser incapaz de ler um texto de quatro linhas é do governo. Terceirizar nossas derrotas já se tornou um hábito. Não conviver mais com nossos fracassos, será a nossa ruína, não só como indivíduos, mas também como sociedade. Fragmentamos não só o respeito, mas também a culpa.

Já não é mais do nosso feitio sermos iguais, embora todos continuemos o pregando como tal, agora ‘temos’ que ser diferentes. Diferentes do que já fomos (se é que um dia já respeitamos verdadeiramente alguém)! E tome muito cuidado antes de sair por aí pregando o respeito ao próximo, a pessoa do seu lado pode ter mais caras do que o Kevin Wendell Crumb!

Afinal, o que realmente importa?

Esse texto toma como base, a seguinte matéria:
https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,voce-a-serie-que-evidencia-o-poder-da-netflix,70002696961

É verdade, visibilidade nunca foi sinônimo de qualidade; mas afinal, o que realmente importa? O que é qualidade cinematográfica? — aqui, incluo também séries (a contragosto, pois são mais mídia), veja Game of Thrones como exemplo, tanto sucesso pelos motivos errados; acredito que se há público o suficiente que veja determinada obra como arte, então é arte!

Alguns fogem da regra – Homem nu no museu é arte? Antes me pergunto: há público que considere como arte? Se a resposta é sim, então quem sou eu para dizer que não é? Agora quando o assunto é cinema, não há discussão: é arte! Em sua própria essência, em sua própria definição, em seu berço. Pode ser entretenimento também? É claro que pode, mas isso não tira o fator inicial de que está sendo usado, para entreter, uma linguagem artística. Vingadores é arte? É arte com o intuito de entreter; mas e quanto a qualidade? Aí já é outro tema. Vingadores está mais preocupado com a carteira do público, do que com sua afinidade com o cinema. O mesmo vale para boa parte dos blockbusters atuais.

A computação gráfica é uma boa representante da decadência do cinema americano, veja esse parágrafo: “Em “Planeta dos Macacos – O Confronto”, temos mais uma amostra de que a tecnologia, que costumava andar de mãos dadas com a evolução da linguagem cinematográfica, agora está destruindo o cinema.” – o texto em questão é do crítico Sérgio Alpendre, basta essas poucas palavras para resumir o mal-estar atual das produções arrasa-quarteirão.

Se o tema é visibilidade, então a Netflix é o centro, mas ter tanta visibilidade não quer dizer absolutamente nada! Há tantas evidências de produções ruins que fazem sucesso por aí: 50 tons de cinza, Vingadores, Game of Thrones, Velozes e Furiosos… e claro, muitas das produções com selo Netflix: Stranger Things, Narcos (a partir da segunda temporada) e agora uma tal de Você.
Essa última, talvez seja o que melhor evidencie (hoje, pois basta esperar GoT retornar) esse mal-estar da falta de qualidade, que se torna a menina dos olhos de um público ávido por uma nova descoberta na plataforma, mais preocupado com as voltas e mais voltas do roteiro do que de fato com a linguagem cinematográfica; mais preocupados em se inteirar do assunto mais discutido no Twitter do que de fato em refletir junto à obra.

Não importa a qualidade da tal série Você, se está na Netflix, corre um grande risco de fazer sucesso, e é aí que começa o ciclo vicioso da falta de qualidade. Para as empresas, qualidade é sinônimo de visibilidade; para o público contemporâneo, visibilidade é sinônimo de qualidade. Então já podem dar as mãos. O cinéfilo que considera Luchino Visconti um dos grandes mestres do cinema, talvez olhe para a Netflix e se indague: “onde foi que errei?”, afinal, o erro também é nosso. É nosso erro, como cinéfilo.

Erro também da crítica: a internacional, mais preocupada em falar bem para não perder a credencial na próxima cabine; e da brasileira: mais preocupada em não virar inimiga do grande público por falar a verdade sobre o novo filme da Marvel.

O equívoco já chegou ao Oscar, não que um dia esse evento tenha sido sinônimo de qualidade; porém, há a eterna discussão de 42: Cidadão Kane perdeu para Como era Verde o Meu Vale na categoria melhor filme, e nós sabemos qual dos dois se revelou mais duradouro com o tempo. Mais duradouro na boca do público, e na mão dos acadêmicos. Você consegue escolher entre Orson Welles e John Ford? Bom, eu não.

Eram outros tempos, hoje se escolhe entre Pantera Negra ou Nasce uma Estrela. O primeiro, uma continuação de um universo estendido, que conta a mesma história já repetida inúmeras vezes, feito de forma tola (as lutas são em boa parte feitas em computação gráfica), mas qual o fator principal? o elenco é negro — representatividade é importante, mas não é sinônimo de qualidade; o segundo é um remake de um remake de um remake… — melhor ator/atriz: Glen Cose é ótima, já provou isso tantas vezes, mas o prêmio vai para a que mais se destaca em meio ao dejeto? pois A Esposa é sofrível até em sua proposta. O mesmo vale para Rami Malek no mascarado Bohemian Rhapsody.

Mais do que a série Você, outro exemplo de visibilidade/qualidade é Roma, como já adianta o crítico Inácio Araújo: …se fosse lançado nos cinemas, a seco, “Roma” teria o público que está tendo? […] – Nós sabemos a resposta!

Roma é, de fato, um bom filme, mas convenhamos, não há nada ali que o coloque no panteão de grandes filmes do Século XXI. E qual seria o motivo de tanto burburinho? É o trabalho de câmera? As atuações? A atmosfera? Se for, Lav Diaz e Béla Tarr merecem ser lançados na Netflix urgentemente! Mas apesar de Roma ser um bom filme, há outra menina dos olhos do cinéfilo de Instagram: Birdbox. Esse sim, o exemplo definitivo; pois Birdbox é um filme ruim, mas é sucesso absoluto!

— O texto parece fugir do tema inicial proposto, e também não possui uma conclusão, mas afinal, o que realmente importa? E o que diabos é arte?

“A arte não é a reflexão da realidade, é a realidade da reflexão”
La Chinoise, Jean-Luc Godard (1967).

Vamos refletir…

O fim do respeito.

Ir ao cinema não é um hobby, ir ao cinema é um ritual; uma cerimônia. Desde criança, quando frequentava o cinema para ver a estreia da semana, notava algo de mágico: o som alto, a tela grande, o ambiente escuro, a atmosfera… Não é coisa da minha cabeça, pois sei que não estou sozinho no mundo, mas ir ao cinema, é mais do que simplesmente ‘ver o filme’, é contemplar o próprio cinema.

É triste, mas hoje prefiro ver os filmes em casa. Seja pelo circuito, que só se preocupa com filmes americanos, ou melhor, blockbusters americanos — afinal até mesmo o filme indie americano tem pouco espaço no país, não que eles fossem a salvação, uma vez que não há nenhum Cassavetes —, além do circuito fraco, há outro problema gravíssimo: o público.

Aqui, o único cinema da cidade fica no shopping, vejo as pessoas escolhendo filmes na hora com a família, não se importam se é o dois ou o três, não se importam em saber quem ou quê. É um programa, apenas para matar o tempo. Até aí tudo bem, não sou eu quem vou dizer como se deve apreciar arte — desde os meus treze anos não sei o que é ir ao cinema sem ao menos saber o nome do diretor ou do elenco.

O problema começa lá dentro, as conversas altas, o celular que não apaga (sequer se preocupam com a intensidade do brilho mais), e o que mais me chateia, a falta de interesse. Para ficar no celular durante um filme, já demonstra grande falta de interesse (por qual motivo pagar para ver algo que não está afim? Não entendo). Afinal, como ver o filme e conversar por mensagem ao mesmo tempo? Impossível.

Mas a falta de interesse maior, é para com o próprio cinema, não há mais respeito pela experiência, não há mais apreciação pelos filmes!

Na última vez que fui (semana passada), uma moça levou uma criança (não sei se era filha ou não), sentaram-se ao meu lado. Além de ficarem conversando o tempo todo, a criança não desgrudava do celular. Saia toda hora para comprar bala ou refrigerante, e, ao voltar, perguntava sobre o que estava acontecendo. Então a mãe contava todo o filme para a criança (de forma tola e incoerente, diga-se de passagem) sem se importar com os outros ao redor, não só comigo, afinal todos por perto ficaram impacientes e incomodados. Desviava a atenção. Pedir educadamente não adianta mais.

Não foi a primeira vez, nem será a última. A tendência é piorar, sou pessimista quando falamos, não só de cinema, mas de linguagem em geral. O interesse não existe mais.

Afinal, pedir para a pessoa parar é o suficiente? Claro que não! Ouvir o outro é muito penoso — as pessoas se escutam cada vez menos. Na penúltima vez que fui, um adulto (de adulto só a idade), decidiu filmar o filme para postar no Instagram (ou em qualquer outra baboseira do tipo). O ‘lanterninha’, aquele funcionário que fica passeando pelo cinema o notou e pediu para que desligasse o celular. Além desse ato no mínimo criminoso, o rapaz ainda teve coragem de contestar: “mas só estou filmando o filme, qual é o problema?”. Ao ouvir tal frase, comecei a pensar. Pensar se não sou eu o errado, se não sou eu o deslocado…

Os tempos mudaram. Nas conversas, não existe mais o papo de cinema, apenas o papo sobre o próximo filme de super-herói. No cinema, não há respeito, mas por qual motivo esperava que houvesse? Se não há fora, quem dirá dentro, quando as pessoas estão acompanhadas e se veem na obrigação de se mostrar ou algo do tipo. E afinal qual o problema de ir ao cinema sozinho? É tão estranho assim?

Apesar de tudo, não vou deixar de frequentar as salas; porém sinto-me deslocado, a canalhice parece ter tomado conta do mundo. Não é assim, ao meu ver, que se contempla um filme, mas estou praticamente sozinho nessa. O fim da experiência demonstra também o fim do respeito.

Crítica: Vidro (2019): conclusão é patética e irritante.

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Corpo Fechado (Unbreakable) não é só considerado o melhor filme de M. N. Shyamalan, como, muitas vezes, também como um dos melhores de super-heróis do século. Não é dizer muito em nenhuma das ocasiões citadas, afinal o diretor, de carreira instável, sempre transitou entre (poucas) produções de qualidade (O Sexto Sentido, Sinais) e (muitas) produções desastrosas (O Último Mestre do Ar, Depois da Terra, Fim dos Tempos e outros). Na segunda categoria, a de super-herói, também não é muito difícil de se destacar devido as produções de qualidade duvidosa dos estúdios Marvel/DC — fazem sucesso, é claro; mas o público está mais interessado nas calças coladas do que de fato no cinema.

De calça colada, Corpo Fechado não tem nada. O filme de 2000 tratava os poderes de David Dunn (Bruce Willis) com seriedade, contextualizando o psicológico do personagem super poderoso na nossa sociedade.

Dezessete anos depois, veio Fragmentado (Split), que ninguém sabia que era continuação do filme de 2000, até ‘Visions’, de James Newton Howard, começar a tocar— música que abre “Corpo” e toca na bela cena em que o herói descobre seu propósito em meio a multidão.

Agora, chega Vidro, o emburrecimento do universo construído até aqui! Imagine todo o contexto realizado nas duas produções predecessoras sendo jogadas para o alto e talvez tenha uma panorâmica das ideias propostas: onde a sobriedade dá tom apenas ao fantástico; onde os conflitos internos dão lugar a ação sem brilho; resumindo: onde as boas ideias são atiradas no lixo.

“Vidro” é tão decepcionante que dói, se não pela má execução, pela oportunidade perdida. “Há uma necessidade de conversar com o público atual” muitos dizem, é verdade. Shyamalan tenta verbalizar a fonte de toda essa indústria tóxica atual (das produções inspiradas em histórias em quadrinhos); porém não obteve êxito. A linguagem se aproxima mais à Split, a continuação nada óbvia. Afinal, Vidro não é nada óbvio quando o assunto é cinema de qualidade.

Mal feito: as ideias que compõem o plot twist — as famosas reviravoltas no roteiro — são representadas por um novo interlocutor, a Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson, péssima no papel), que, além de propor uma nova visão para os poderes dos personagens (já adiantado no trailer), realiza um processo tolo de controle. Agora confinados em um mesmo espaço — Sr. Vidro: A mente brilhante, Dunn: O Vigilante e Kevin Wendell Crumb: A Fera e outras personalidades que se provam inúteis — os três personagens caminham pelos corredores vazios das instalações médicas para prisioneiros de mente debilitada. A segurança é forte, mas apenas dentro do quarto onde esses se encontram confinados, pois há apenas um segurança e um médico de prontidão para vigiar esses seres super poderosos. Há também câmeras por todos os lados, mas não importa, Sr. Vidro é inteligente o suficiente para criar um pendrive sem recursos, se necessário.

Alguns podem rebater o fato de que ‘não se deve questionar a lógica no universo dos heróis de Shyamalan’, mas devo lembra-los que os heróis desse universo não vivem em uma hiper-realidade alternativa, mas sim, coexistem em uma sociedade semelhante a nossa. A sacada inicial que era apresentar um olhar fresco e contido se esvai na falta de lucidez do roteiro, que brinca com o espectador, a ponto de chama-lo de idiota. Basta ver como uma câmera de segurança se torna o álibi perfeito para evidenciar toda uma nova espécie até então desconhecida — apenas para se ter uma noção da imensidão de babaquice que é proposta.

Não poderia faltar a pieguice: cada um dos três personagens possuem laços fora da instituição, são mãe, filho e vítima, que se unem para passar o bastão do legado dos heróis (ou vilões, como queira) para frente. Só não espere emoção humana em nenhum dos personagens, a não ser um choro sem fim. É só para isso que os atores foram pagos, para chorar, e para protagonizar um desfecho tolo.

Anya Taylor-Joy, que chamou a atenção em Split, só não é o maior desperdício, pois há uma vontade extrema do enredo de deixar Dunn pelos cantos. O personagem que conhecemos dezenove anos atrás, continua o mesmo — talvez o fato de o tempo não afetar o personagem seja um de seus poderes? Se fosse, faria mais sentido do que o maniqueísmo proposto (também se aplica ao Sr. Vidro).

Shyamalan brinca com ideias megalomaníacas no clímax, normal em quadrinhos, mas se contém, e faz tudo terminar em pizza, talvez o único acerto (em partes, pois cai por terra uma vez que acompanhamos o destino do trio).

“Vidro” problematiza a ideia de aceitação dos diferentões perante uma sociedade não preparada para aceita-los, nada de novo no cinema, muito menos se levarmos em conta os quadrinhos d’Os fabulosos X-Men, que já levantaram a ideia nos anos 60, e vem discutindo o tema desde então!

Não basta as ideias desperdiçadas pelo roteiro banal, o filme ainda desperdiça seus personagens, repete as (pífias) reflexões de Split, e irrita. Irrita pelo legado de Corpo Fechado, irrita por não desenvolver os personagens a um nível no mínimo padrão, irrita pelo desfecho abestalhado, irrita pela dissipação da boa atuação de James McAvoy, e irrita mais ainda, pelo potencial desperdiçado de estabelecer, finalmente, um diálogo entre cinema e quadrinhos.

Crítica: “Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven” é diálogo de homem com sua natureza animal.

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★★★★

A Saga dos Clones é sem dúvida a saga mais polêmica; mas talvez um dos arcos mais intrigantes de todo o ciclo d’O Homem-Aranha seja “A Última Caçada de Kraven” (dividida em seis partes) — Três décadas atrás: era chegada a hora de abalar (mais uma vez) a mente do aracnídeo após já terem falecidos Tio Ben, Gwen e outros. Porém, dessa vez seria um pouco diferente — a última caçada refere-se a essência de caçador, ou ao próprio Kraven?

Sergei Kravinoff, mais conhecido como Kraven, era russo, filho de pais exilados nos E.U.A. por conta da Revolução Russa. Sempre deslocado entre os arranha-céus da selva de concreto, preferia as selvas. É lá que se encontrou — “encontrei dignidade não nas cidades, mas nas selvas” – “encontrei honra, não no civilizado, mas no primitivo” —  Dedicando parte da vida adulta à caça, Sergei era daqueles personagens que apareciam de tempos em tempos com um plano mirabolante para erradicar o amigo da vizinhança. A caça era o que motivava sua existência. É nela em que baseava sua própria essência.

Tigres, leões, javalis, elefantes, ursos… Não importa qual animal selvagem, Kraven não era apenas homem, era também animal. Caçava suas presas com as próprias mãos. Matava-os sempre sem grandes problemas. Sua única presa que continuava a escapar, era o próprio Homem-Aranha. Nele encontrou mais um motivo para existir, mais uma meta para definir sua existência vazia.

Em sua última caçada, Kraven, o homem-animal, antes de consumir-se pelo seu vazio, caça o Homem-Aranha por uma última vez; porém a caça destina-se não ao homem, mas ao animal, ao símbolo, a aranha!

Passa a viver como aranha, anda como uma, ataca presas como uma. Ao confrontar o próprio Homem-Aranha, Kraven doma-o com um rifle munido por dardos envenenados. Enterra-o, não importa quem está por debaixo da máscara, Peter Parker ou qualquer outro. É o mito, a natureza animal que Kraven caçava.

Peter está vivo, Kraven sabe, o enterro, assim como a caça, é apenas simbólico. Enterra apenas a aranha! Era seu trunfo: vencer sua própria motivação.

No tempo em que a aranha está enterrada, envenenada e inconsciente, Kraven assumi o manto de Homem-Aranha. Destrói a imagem de herói; pois inicia uma onda de violência em seu nome.

Se Kraven é o Homem-Animal, Peter é apenas homem. Munido com seus poderes de aranha, claro, mas é da natureza espiritual do homem que J. M. DeMatteis (escritor da obra) fala. Peter vem passando pela dor da perda; recém-casado com M. Jane, agora tem maiores compromissos para voltar no fim da noite após sua rotina como protetor de N. York. É refém de seu espírito humanitário. Jamais se rendendo ao seu animal cordial.

Há ainda a presença de Rattus, que não é homem, apenas animal. Vive nos esgotos, sobe para se alimentar, mata por instinto, não pelo prazer da caça. Também não os poupa, pois não possui nenhuma moral.

Entre esses três personagens — o homem, o animal e o homem-animal — DeMatteis dialoga com a natureza de cada um deles. O centro dessa história, é narrado em vaivém: os quadros antecipam um enterro, ainda não sabemos quem será enterrado, ao mesmo tempo, acompanhamos a ação. Há mais de um enterro nessa história. Não se sabe antes do final, se é homem ou animal que será enterrado.

Dotado de tensão e violência, hoje praticamente extinta nas comics do mundo da Marvel, A Última Caçada de Kraven é de uma época em que era válido experimentar sem amarras, onde o sombrio ainda era algo natural, e não ‘chamadas’ para uma nova repaginação. É também de um tempo em que os quadrinhos eram tidos como arte, o que parece estar esquecido, inclusive pela própria Marvel.