Crítica: “Dragon Ball Super: Broly” é mais de oito mil!

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★★★★★

Vinte anos atrás era difícil obter informações sobre animação japonesa em geral. Com a internet ainda se alastrando, as referências eram as revistas especializadas (como a Anime Do, Ultra Jovem, etc). Através delas, conhecíamos mais sobre a, até então, não finalizada Saga de Hades de Cavaleiros do Zodíaco, ou sobre ‘um tal’ One Piece que parecia estar começando se tornar um fenômeno no Japão.

Também é pelas páginas das revistas, que as ilustrações de Broly cativavam o público. O misterioso personagem, vilão de um filme, que na época, era de difícil acesso e que tinha sido visto por poucos, raro de se achar em locadoras. A única esperança, era esperar a boa vontade de alguma emissora (Band, ou mais tarde, a Globo).

Existia uma tendência, de os longas/animes dos anos 1980 e 1990, serem meros produtos picaretas preparados para lucrar em prol da popularidade das séries de televisão (não que isso esteja extinto). Nada acrescentavam ao enredo principal (entenda: filler). Os filmes de Dragon Ball Z por exemplo, seguiam padrões, sempre reciclados de uma produção para outra: inimigo poderoso chega à terra, Goku e os guerreiros Z apanham, e logo Goku lança uma Genki Dama com energia provida de seus amigos. Não era exclusivo de ‘DB’ esse ciclo vicioso. CDZ, outro fenômeno da TV prolífico no cinema, seguia também um padrão (os inimigos eram derrotados com Seiya vestindo a armadura de Sagitário e lançando uma flecha em seu último suspiro de esperança).

“Broly, O Lendário Super Saiyajin”, também nadava na picaretagem. O filme de 1993, contava a história de Paragus e seu filho Broly, que ao serem tidos como ameaça pelo Rei Vegeta, são deixados à mercê da morte. Sobrevivem, e planejam se vingar. Daí se estendem uma seção de eventos padronizados e seguidos à risca (incluindo a Genki Dama).

Apesar da imagem mítica que o personagem título havia alcançado por meio da falta de acesso, seu filme não preenchia as expectativas (principalmente suas continuações canalhas), e se revelava apenas mais um no panteão das bobeiras produzidas em nome do dinheiro. Sequer chegava perto de Bojack Unbound, melhor filme baseado na franquia — que curiosamente se afastava do padrão, mas reaproveitava o desfecho da batalha contra Cell.

É sabido que quando Dragon Ball Super estreou na TV em 2015, dois filmes da safra recente já haviam vindo para os cinemas brasileiros, o frustrante “A Batalha dos Deuses” (2013) e o competente “O Renascimento de F” (2015), alguns meses antes da estreia na TV — ambos, refeitos na série, o que reforçava o valor canônico dos eventos.

Talvez seja pelo sucesso de Kale, a introvertida garota que, no Torneio do Poder, liberou seu poder oculto descontrolado, que esse filme tenha visto a luz do dia. Seu sucesso não se deve pelo fato de a personagem bronzeada ter feito a cabeça do público, mas por reaver o potencial do personagem não canônico — Era comum ouvir como ela seria incapaz de ser o próximo Broly, seja pela falta de carisma, ou pela pífia abordagem da série.

Já com o anúncio, ficava difícil não se alegrar, mesmo com ressalvas, que o personagem finalmente teria uma merecida segunda chance. A observação que evidencia a existência de alguma irregularidade no anúncio da nova obra, é que DB Super foi incapaz, ao longo de seus episódios, de recapturar o que fez da franquia o fenômeno que é. Mais centrado em atrair um novo público (principalmente mais jovem), era comum personagens emburrecidos e vilões pastelões. Um verdadeiro show de horrores.

E é por isso, que o público que saiu enfurecido das sessões de ‘A Batalha dos Deuses’, ou que abandonou a série de TV no meio (em boa parte pela horrenda Ribrianne, é patética), encontrará nessa nova aventura, um alento. O novo filme é mais Dragon Ball do que o Super havia conseguido ser até o momento.

Pode parecer saudosismo mas não é. O fato é que Super queria reaver o que ficou para trás. Negando o amadurecimento que a série teve ao longo dos anos e constantemente tentando retornar às raízes, quando Goku ainda era uma criança. ‘GT’ falhou nessa recaptura, e em grande parte, ‘Super’ também. Digo em parte, pois houve acertos, como a introdução de novos universos — mas quando erravam, a coisa ficava realmente vergonhosa.

Quatro anos e 131 episódios depois, chega aos cinemas brasileiros “Dragon Ball Super: Broly”. A terceira aventura cinematográfica canônica da série resgata do filme de 1993, o personagem com maior potencial desperdiçado da franquia. Com uma nova abordagem, o roteiro assinado pelo próprio Akira Toriyama, reaproveita pouco da produção antiga (da qual havia contribuído apenas com o design do personagem).

A premissa é a mesma: ciente do poder extraordinário que Broly, ainda bebê, possui. O Rei Vegeta decide dar um fim a esse, que poderia no futuro, se tornar uma ameaça incontrolável. Terminam aí as semelhanças entre as duas obras.

Preocupado em dar uma origem mais elaborada ao personagem título, Toriyama ocupa boa parte da primeira metade do longa com diálogos, são quase trinta minutos dedicados só a construção e a formulação de eventos que fez Broly abster-se durante os muitos anos em que todo o enredo de Dragon Ball se submete. Há certa preocupação em ‘humaniza-lo’ através do drama. Sentimos pena dele, quando o rapaz perde a razão, ainda não conseguimos vê-lo como o demônio desumano dos anos 1990.

A direção ficou à cargo de Tatsuya Nagamine, de One Piece Film Z (2012), o melhor filme baseado nos mangás de Eiichiro Oda. Não satisfeito, Nagamine agora traz o melhor filme da franquia Dragon Ball.

A trama é como a chama que se extingue no relógio das doze casas do zodíaco. É só Freeza chegar na terra com o brutamontes, que todo o enredo desaparece (o que é um acerto). Abre-se espaço para a incrível sequência de ação. É a única batalha do longa, e esse confronto único demonstra um grande trabalho de animação. Os ângulos inusitados (com direito a sequência em primeira pessoa) e os efeitos de som e luzes vão levar qualquer fã ao delírio (destaque para o anúncio de cada transformação e técnica).

Em Dragon Ball sempre há espaço para humor bobo, o diferencial deste para os dois últimos, é que as piadas funcionam. Sem medo de parecer exagerado ou demasiado inocente. O longa ainda brinca com a fórmula antiga: Piccolo, que sempre fazia uma ponta nos filmes antigos, era motivo de piada, pois suas entradas marcantes, no ápice da batalha, causava impacto visual, mas sempre acabava minutos depois com o Namekuseijin espancado e inconsciente em algum canto do cenário. Dessa vez, Piccolo adianta que se for até onde a batalha está acontecendo, seria apenas questão de minutos até que ele seja derrotado.

Apesar dessa participação de Piccolo, o filme não se preocupa em explicar onde estão os demais guerreiros Z. Gohan por exemplo, sequer dar as caras (não fez falta).

O relacionamento entre Goku e Vegeta alcançam cada vez mais novos horizontes, os agora amigos, servem de contraponto um para o outro. A ingenuidade tola de Goku por exemplo, é contextualizada pelas sacadas geniais de Vegeta.

No fim de “O Ressurgimento de F”, ambos discordavam de lutar juntos contra um inimigo em comum. Dessa vez eles não só lutam juntos, como trazem a vida Gogeta (que antes também era filler). Então abre espaço para um segundo round ainda mais incrível do que se havia visto até aqui, não só no filme em questão, mas em qualquer animação de ação feita até o momento.

Na sequência mais incrível do longa, Gogeta e Broly transcendem tempo e espaço, e protagonizam a batalha mais épica da franquia desde o combate final contra o androide ‘Cell’.

A UNIDUB ficou responsável pela dublagem brasileira, estúdio chefiado por ninguém menos do que Wendel Bezerra, responsável pela voz de Goku, que todos aprendemos a amar. Grande acerto da FOX. Wendel reescalou boa parte dos dubladores originais, com exceção de Carlos Campanile (Freeza).

É em meio ao choro e aos gritos que o público iniciado vai se sentar pelos 100 minutos de duração (o mais longo da franquia até o momento). E perto do colapso de êxtase, (re)descobrir junto aos personagens esse mito que, dessa vez, faz jus a sua própria lenda e imagem.

 

Crítica: The Matrix Reloaded (2003) de Lana e Lilly Wachowski

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★★★★

“As continuações de The Matrix não são tão filosóficas quanto o primeiro” — esse é um argumento que se escuta constantemente mundo a fora, como se Reloaded e Revolutions não seguissem a herança do primeiro filme em toda a sua magnitude e/ou não fizessem jus. Mas por qual motivo essa questão é sempre apontada?

Pode-se sustentar esses argumentos contra Reloaded (mas nunca contra Revolutions). O segundo filme da trilogia é o que mais se entrega a ação (há uma sequência de quase trinta minutos ininterruptos), logo, é o que conta com menos diálogos. O problema de Reloaded, talvez, seja a quantidade de personagens. Ou seria o problema o fato de o universo estendido tomar partido da obra principal para explicar certos contextos e situações?

Pois bem, o jogo Enter the Matrix veio com a proposta de fazer parte do universo canônico da franquia, desenvolvido ao mesmo tempo em que as duas continuações estavam sendo rodadas. Portanto, para entender o papel crucial de Niobe (Jada Pinkett-Smith) e Ghost (Anthony Wong) nos eventos de Reloaded é necessário jogar o game. Se estender o universo através de outras mídias e torna-las importantes é certo ou errado, vai de cada um.

Mas é inegável que o fator ‘auto suficiente’ que se espera da obra acaba caindo por terra, principalmente no terceiro ato, onde vários dos eventos são narrados em elipse — todo o planejamento e execução do plano para destruir a usina, e apagar 27 quarteirões são transportados para a tela de forma corrida, afim de deixar os detalhes para os que se aventurarem pelo game.

O primeiro ato do filme original, era tomado pela paleta esverdeada que emulava a artificialidade da Matrix. O segundo ato, pelo azul opaco que mostrava o mundo real. No terceiro, as duas se encontravam constantemente uma vez que a história se passava em ambos os ‘mundos’. Em Matrix Reloaded, desde o início já acompanhamos a estrutura do terceiro ato do primeiro filme. Já sem razão para explicar o universo e o conceito da Matrix, os Wachowski se concentram em ampliar as sequências de ação que movem o longa. O filme é repleto delas. Já nos primeiros minutos, acompanhamos Trinity sendo morta por um agente, que logo se mostra um sonho (já sacamos como profético); a reunião que toma parte na Matrix também é encerrada por outra cena de ação. Dessa vez, Neo vs três agentes. A fantástica sequência, apesar de curta, é embalada pela trilha de Rob Dougan que emplaca outros grandes momentos musicais desse segundo filme (em conjunto com a especial trilha original de Don Davis); Neo, agora voa (já acompanhamos isso no final do primeiro filme) e os diretores fizeram questão de fazer uso dessa habilidade para fins narrativos (velocidade de transição entre ponto A e ponto B; sacada para inutilizar Neo, abrindo espaço para Morpheus e Trinity). Digno de inveja para qualquer filme do Superman e outros.

Se as lutas funcionam, há os diálogos problemáticos que estão, em especial, mal representados por personagens menores, como é o caso daqueles que parecem existir para darem certo alívio cômico para a trama. Desnecessários e dispensados de forma tola (mas que contam com maior destaque no game Enter the Matrix).

Presos nas amarras do tempo padrão de produção, a estrutura sofre. Se mais ousados, poderiam ter prolongado a narrativa. Mais tempo com o drama das personagens ajudaria a desenvolve-los.

O Agente Smith, uma vez derrotado por Neo, deveria retornar à fonte ou pedir exílio na Matrix. Sem fazer nenhum dos dois, Smith se rebela, e embarca em uma jornada própria, contrariando o seu propósito. Os Agentes podem transitar por entre qualquer indivíduo conectado diretamente à Matrix; ‘cada indivíduo é um agente em potencial’ diz Morpheus durante o treinamento de Neo no primeiro filme. Agora, após ser excluído da função de Agente, Smith não mais transita por entre os vários habitantes aprisionados da Matrix, mas obtém a habilidade de infestar esses indivíduos, criando uma cópia exata de si mesmo, até ‘colando’ os códigos de sua própria consciência nessa nova cópia. Tornando-se assim, uma espécie de vírus.

Ainda na trama: as máquinas estão cavando, quase se adentrando no núcleo terrestre, onde a última cidade humana ainda resiste, Zion. Morpheus (Laurence Fishburne) e a Nabucodonosor estão a procura da Oráculo para guia-los nesse momento de urgência.

Em Zion, após conscientizar toda a população sobre as horas sombrias que se aproximam, inicia-se a derradeira festa carnal: embalado pelas batidas da banda FLUKE, a câmera passeia por entre os corpos desesperados que se libertam por uma última noite, o sexo e a agitação que fazem tremer os muros, é uma mensagem para as máquinas que o calor humano ainda existe, ainda há quem lute.

Mestre em Kung-Fu, Collin Chou foi escalado para viver Seraph, programa guardião da Oráculo — Gloria Foster em seu último papel — viria a falecer entre as filmagens de Reloaded e Revolutions. O confronto entre Neo (Keanu Reeves) e Seraph é o mais fluído desse segundo filme, talvez por se tratar do que menos utilizou CGI? Guiados pelos cabos metálicos, os dois atores entregam movimentos coreografados à risca. Destaque para Keanu que conseguiu acompanhar o mestre Chou durante a sequência, sem parecer anos luz atrás em termos de habilidade. Destaque também para todo o plano que se estende no grande salão do castelo de Merovingian (Lambert Wilson).

O já icônico confronto de Neo vs Smith (e suas cópias) demonstra o potencial do CGI no cinema. Em determinado momento Keanu é substituido por imagens 100% geradas em computação gráfica. Esse artificialismo crônico cobre boa parte de Reloaded, e apesar de os efeitos terem envelhecido bem, ainda são notáveis (o que não acontece no primeiro filme). É interessante notar que se tratando de acontecimentos dentro da própria Matrix, esse artificialismo não deve incomodar, nem parecer exagero, afinal trata-se de fato de um mundo artificial, gerado pela máquina.

Muito do enredo de Reloaded serve de introdução ao que estar por vir, os acontecimentos no final por exemplo, são deixados no vácuo para engatar ‘Revolutions’…

“To be concluded”

Crítica: The Matrix (1999) de Lana e Lilly Wachowski

Obra-prima da ficção científica continua atual, mesmo após vinte anos.

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No final do século passado, os computadores já estavam começando a se tornar padrões no cotidiano do ser humano, mas o gênero Cyberpunk já não era nada novo, prolífico na literatura nos anos 1980, havia rendido ótimas adaptações para o cinema, como Blade Runner, Akira e Ghost in the Shell, para citar os mais óbvios. Todas originadas de obras literárias — Akira e Ghost in the Shell são originalmente, mangás, que renderam ótimas adaptações, e foram, inclusive, pioneiras por levar a animação japonesa para os cinemas norte-americanos em uma época ainda dominada pela Disney.

Conhecidos até então como ‘Os Irmãos Wachowski’, ainda iniciantes — já haviam desenvolvido o roteiro de Assassinos (1995) e dirigido o erótico ‘Bound’ (1996) —, conseguiram a façanha de serem bancados por um grande estúdio como a Warner Brothers (Bound, havia sido um teste para o estúdio), com um roteiro original, que toma partido de vários conceitos da cultura Cyberpunk (proeza impensável para os tempos atuais — roteiros originais não tem muito orçamento), chegava em 1999, The Matrix. O filme que viria a revolucionar parte do cinema, para sempre!

Com várias cenas icônicas, como a que abre o longa, as letras esverdeadas que decaem sobre o monitor, que representam os códigos da Matrix. O filme, imortalizado na cultura pop (acredita-se que exista cinema pop antes e depois do longa), nos convida nos primeiros minutos para presenciar o impossível, na figura da mística Trinity (Carrie-Anne Moss) que se livra de uma armadilha distribuindo socos e chutes, em um malabarismo irreal, que desafia todas as leis da gravidade (anda pelas paredes e salta de um prédio para o outro), perseguida ainda por indivíduos ainda mais dominantes dessa arte distorcida de dobrar a lógica em meio aos seus movimentos. É um convite para abrir a mente para o que se estar por vir.

Logo após, somos apresentados a Thomas A. Anderson (Keanu Reeves), empregado de uma agência de computadores e softwares — digamos que muito bem empregado, era um deleite para poucos trabalhar com softwares nos anos 1990, com os computadores ainda encontrando o seu espaço na sociedade, até então, um ofício visionário —, incapacitado de seguir regras, insaciável em meio a busca pelo seu lugar no mundo, Thomas A. Anderson, era mais um indivíduo questionador e incapaz de compreender o sentido de sua vida. Deslocado, concentrava-se na busca de informações sobre Morpheus (Laurence Fishburne), o libertador de mentes, mito na rede por ser um dos indivíduos mais perigosos vivos. Mr. Anderson (como era cordialmente associado) também dedica-se ao ilegal, ao crime cibernético, era hacker; culpado de quase todos os crimes previstos na lei anti crime cibernético. Na rede, sai Mr. Anderson, entra o indivíduo conhecido apenas como “Neo”.

“A Matrix te pegou”, é o que diz o computador para Neo. “Siga o coelho branco” (uma, das muitas, referência à Alice no País das Maravilhas) — continua o computador — assustado, mas intrigado, Neo segue o coelho branco, tatuado em um de seus clientes do submundo da informação, que o convida para uma noitada. A boate, repleta de pessoas usando látex (fetiche que se estenderia por todo o figurino da trilogia), ainda apresenta o som da oposição ao som de Dragula, de Rob Zombie — curioso notar que Keanu Reeves viria dançar ao som da mesma música, um ano depois, em ‘O Observador’!

Lá está Trinity: então inicia-se o momento de transição da trama, onde o thriller abre espaço para a ficção, entende-se que o mundo em que Neo havia vivido até então, era na verdade, irreal; apenas um programa de computador feito para manter os seres humanos sob controle, uma vez que uma guerra havia explodido mais ou menos cem anos antes. De repente, Mr. Anderson já não fazia mais sentido, seu nome agora, era Neo.

O programa Matrix emulava a nossa própria realidade, com as mesmas regras limitadoras da gravidade, onde os humanos tocavam suas vidas, mas na verdade, estavam com suas mentes aprisionadas no programa desde que nasceram, para servirem de fonte de energia para as máquinas (que usavam o ser humano como bateria para sua própria existência).

A Matrix é mostrada em tom verde, opaco e sem vida. Essa paleta esverdeada que da tom ao artificialismo do mundo imagético da Matrix sai de cena uma vez que somos apresentados ao mundo real, toma-se conta uma paleta azul, empalidecida, que evidencia o frio desse mundo. Nesse mundo azulado, se encontra a resistência, os humanos ‘opositores’.

Os opositores hackeiam a Matrix e se esgueiram pelos cantos como procuradores de indivíduos em potencial para se libertar do controle das máquinas (em sua maioria, crianças, uma vez que adultos já enraizados no dia a dia dentro do mundo fantástico da Matrix tem dificuldade de desapego, torna-se mais difícil esquecer o irreal), esses procuradores são caçados pelos “Agentes”, indivíduos (nesse caso, leia: programas) arbitrários que servem de mediadores da realidade. Perseguem e eliminam todos que ousam se esgueirar pelo programa e desafiar a ordem. Nota-se que até mesmo esses programas “Agentes” são mantidos sobre controle pelas máquinas, são presos as mesmas leis gravitacionais que os demais, mas com habilidades de desdobramento moderados: prisioneiros de suas próprias limitações como máquinas, com códigos criptografados para não agir além de suas limitações.

Um desses agentes demonstra mais personalidade do que os demais, seu nome é Smith (Hugo Weaving), que percebendo sua limitação, anseia cumprir seu dever, destruir Zion (Sião na legenda clássica dos VHS nos anos 2000) última cidade humana ainda de pé no mundo real, escondida pelos escombros, perto do núcleo terrestre, onde ainda há calor. Smith, é assim, mais um dos prisioneiros da Matrix que anseia se libertar.

Morpheus torna-se o mentor de Neo, e através dele aprendemos mais sobre o conceito deste universo, meticulosamente criado por seus diretores. A trama é recheada de referências à Bíblia Sagrada, reutilizando padrões religiosos para além da fantasia irreal da Matrix (como nos nomes das personagens, por exemplo). Morpheus, acredita que Neo venha a ser O Escolhido, uma pessoa capaz de manipular os códigos da Matrix ao seu bel-prazer. Resultando em um poderoso aliado contra as máquinas arbitrárias, e que, acredita-se segundo profecia feito pela Oráculo, que seria o responsável por terminar a guerra entre humanos e máquinas, e finalmente trazer paz!

É aí que as coisas começam a ficar mais complexas: através de outras versões da Matrix, criadas anteriormente para a mente humana se adaptar ao irreal por toda sua existência (afinal a mente evolui, então o mundo ao seu redor também deve evoluir), alguns programas acabam ficando obsoletos, seja por ficarem ultrapassados diante de versões novas, ou de perderam o propósito diante das inovações. Após ficarem obsoletos, os programa podem: ou pedir exílio na Matrix; ou retornar a cidade das máquinas (no mundo real), retornando a ‘fonte’, e deixando assim, de existir.

No início do conceito d’A Matrix, as máquinas tinham problemas em fazer a mente humana se adaptar, criaram o mundo perfeito, sem dor, sem violência, sem guerra. Mas a mente humana recusava o programa designado para funcionar de forma perfeita, descobre-se que a mente humana precisa do livre-arbítrio e da desgraça para aceitar como real, do contrário passava a vida a tentar acordar. Um programa feito para estudar e analisar a complexidade do ser humano foi criado, foi dele (em conjunto com o Arquiteto, que só vamos conhecer em Matrix Reladed) que partiu parte dos conceitos da Matrix atual. Entendido a complexidade da mente humana em se adaptar nessa realidade, o programa deixa de ter um propósito, e decide se exilar na Matrix, esse programa se alia aos humanos, e passa a agir como mentor de parte da verdade (a que a mente humana é capaz de aceitar) e de guia (apontando para o melhor ‘para aquele momento’, acreditando que o desenvolvimento próprio é a melhor solução para a raça humana — eis o motivo da frase “Conheça-te a ti mesmo” na cozinha). É aí que entra o papel desse programa, conhecido como “Oráculo” (Gloria Foster).

O conceito filosófico e denso do material dos irmãos Wachowski ainda é recheado de grandes cenas de ação, somadas as famosas cenas de computação gráfica (revolucionárias na época e que continuam ótimas aos olhos, ainda hoje, mais de vinte anos depois). Os Wachowski são herdeiros de um cinema de ação antigo, de grandes mestres. O visual por exemplo, vem do mestre chinês John Woo, grande diretor do gênero Heroic Bloodshed, filmes de ação com muito estilo e que fazia dos tiroteios verdadeiros balés sangrentos. Esse visual é formado pelos óculos escuros e pelos sobretudos (em sua maioria pretos), onde os astros distribuíam tiros em câmera lenta.

A sequência de tiro no hall do prédio, onde Trinity e Neo se adentram afim de resgatar Morpheus, continua um dos melhores tiroteios já vistos no cinema. Parte disso se deve a outro fator importante na construção dessa sequência (além do visual): o trabalho de atores. São eles quem brilham, a computação gráfica é usada como complemento para as acrobacias feitas pelos atores, Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Carrie-Anne Moss. Todos eles treinaram por pouco mais de um ano (como pode ser acompanhado no ótimo documentário The Matrix Revisited) para cumprir as exigências de seus personagens. Longe de escalarem mestres das artes marciais, os Wachowski contaram com a habilidade de cada ator para dar o seu máximo. Isso não exclui o uso de dublês, mas é Keanu Reeves dando os vários saltos em frente a câmera, é Carrie-Anne andando nas paredes, suspensa por cabos no set de filmagem. Não estamos falando de lutas geradas por computação gráficas (como em atrocidades recentes, como Pantera Negra e toda trupe patética d’Os Vingadores). Ainda há outro fator importante: a câmera. Sem uso de shaky cam ou de abusar de cortes ligeiros que escondem a incapacidade dos diretores e dos atores, que compõe esse artifício cafajeste das produções citadas (e de muitas outras recentes), The Matrix é um deleite também para fãs de ação. Transitando entre o papo cabeça filosófico, o tiroteio/balé sangrento e a pancadaria  desenfreada.

A trilha sonora que vai do já citado Rob Zombie, transita também entre o trip e o eletrônico (destaque para Rob Dougan), são grandes responsáveis pela criação da atmosfera consistente do longa — os Wachowski colocavam músicas em específico para os atores antes das filmagens, músicas presentes no BOX blu-ray/DVD “Edição Definitiva The Matrix”, que, aliás, é essencial na estante de qualquer fã que se preze.

Roger Ebert (grande crítico americano) aponta em sua review que ‘não se inicia um tema filosófico e termina em pancadaria’, ponto na qual estava totalmente equivocado (com todo respeito ao mestre Ebert), afinal The Matrix são que representam apenas a ponta do iceberg.

The Matrix continua atual, mesmo com seus vinte anos de idade, a prova disso é a crescente imersão social no mundo virtual. Submerso em redes sociais, a sociedade parece viver cada vez mais dentro da máquina, deixando se influenciar e até mesmo ditar a própria realidade, seja política ou filosófica. The Matrix é aqui e agora.

Então, o Shun agora é mulher…

Cavaleiros-do-Zodíaco-Shun-será-uma-mulher-no-anime-da-Netflix

É inviável sustentar uma crítica a um programa que sequer estreou, afinal, talvez não seja tão ruim quanto o trailer aparenta, certo? Mesmo que na maioria das vezes, o trailer adiante a mediocridade das produções contemporâneas — Não importa o que eu disse até aqui, o trailer já entregou a mediocridade que nos espera!

Como fã, fascinado com o universo que Kurumada criou em Cavaleiros do Zodíaco, fascínio que já dura a pelo menos vinte anos (tenho a obra no meu coração bem ao lado de Dragon Ball), é realmente tarefa difícil de se ver o desperdício de oportunidades que CDZ vem recebendo desde o Prólogo do Céu, a quatorze anos atrás.

Retrabalhar o conceito não é novidade, Saint Seiya: Omega, já trazia um cenário inventivo e remoldou boa parte do conceito do universo (há a introdução dos elementos, que unificados ao cosmo, geram poder cosmológico maior do que a “já ultrapassada” fórmula de ‘apenas’ recriar o Big Bang com energia infinita), também já adiantava as ‘Saintias’, que a pouco tempo ganhou espaço próprio, no mangá e anime Spin-Off da franquia: Saintia Sho.

Em 2014, o bagunçado “Lenda do Santuário” trouxe novamente uma reestrutura do universo, dessa vez em forma de reboot/homenagem. Funciona se encarado como uma brincadeira. Ainda me lembro, saindo do cinema, estava em um misto de alegria por ter ouvido as vozes da obra original novamente depois de tantos anos (no caso, o cinema por aqui exibiu apenas versões dubladas, onde foram reescalados quase todos que participaram da dublagem nos estúdios Álamo, a mesma exibida pela Band nos anos 2000), mas ainda deixa aquele gosto amargo pelo potencial desperdiçado.

Um ano depois, abandonado o CGI de Lenda do Santuário, chega Soul of Gold, que acompanhei com firmeza. Mais uma grande bobeira dos estúdios Toei (apenas o súbito destaque aos cavaleiros Afrodite e Máscara da Morte sustentavam meu interesse) que resolveu extrapolar na redundância! resultado: mais potencial desperdiçado. Como conseguiram reunir os cavaleiros de ouro, e ainda deixar a coisa toda um porre, só eles para explicar (ainda bem Episódio G existe nesse mundo para preencher essa lacuna).

Não vou mencionar (já mencionando) Lost Canvas, que ganhou ótima adaptação mas nunca foi concluído — obrigado JBC, por atender os pedidos e começar, recentemente, a relançar o mangá —. Isso nos traz para 2018, a Netflix vem dando atenção para animes, e sou muito grato por isso (vai até trazer Evangelion). Devo confessar, fiquei animado com o anúncio de que seria a grande do streaming que ficaria responsável pelo ‘remake’, e não a própria Toei (estúdio de terrível animação), tadinho de mim, se esqueceu de Death Note?

“A produção será feita em computação gráfica!?” Não me importei, e ainda não me importa (mesmo achando que isso contrarie a minha ideia de “anime”). “Será mais próximo ao mangá!”. Notícia melhor do que essa, impossível. A animação clássica, não só continha fillers (normal), como abusava de chiliques abstratos na hora de narrar os eventos; alterava não só o design (até gosto das armaduras cafonas da primeira fase do anime) mas também alterava eventos importantes, alterava a relevância deles, e ainda dava destaque para momentos bestas (o drama de Saori e Seiya no precipício, atacados por Shina vem a mente — no mangá é infinitamente mais desenvolvido e interessante).

Enfim, aí vem o primeiro trailer: animação em computação gráfica, checado; mais próximo ao mangá… o que dizer do helicóptero soltando mísseis e de tantos outros momentos que não estão no mangá…; aparência dos cavaleiros de bronze (agora as coisas ficam complicadas): no mangá, são apenas adolescentes, mas com aparência de jovens (típico de shounen). Nessa nova animação, a aparência é de criança mesmo. De baixa estatura, esbanjando juventude. Juro que até aí, daria para engolir, mesmo a ausência de expressões nos rostos das personagens não teria incomodado tanto, se não fosse por mais um detalhe: Shun, agora é mulher (agora as coisas ficam complicadíssimas)!

Então é assim? Já não basta estragar Death Note com aquela produção de quinta, agora tem que estragar CDZ também? Qual será a próxima atrocidade? Um remake do “Dragon Ball: Evolution”?

Deixe-me adicionar alguns fatos ao debate: A franquia já possui personagens femininas fortes, Saori não conta pois é a donzela em perigo em muitos dos casos, certo? E (cuidado com o spoiler) o sacrifício dela por todos, salvando-os da pura extinção não conta? E a Shina? E a Marin? Oras, até a personagem filler em Asgard já preenchia a cota de personagem feminina de forte presença (hoje tudo é cota mesmo).

Mas não é o bastante, estamos na época do emburrecimento da propriedade intelectual de outrora. Shun, que antes era quase um andrógino no anime (nada a ver com o mangá), agora tem que ser mulher, pois qual outra forma de chamar a atenção? Não é assim que se atualiza uma obra antiga.

Shun já é um personagem estabelecido na cultura pop, e não estou falando do meme da fatídica cena na casa de libra — E o amor de irmão entre ele e Ikki, agora será menos complexo também? Talvez agora o Shun não seja fraco psicologicamente falando no início da história, afinal, como ele será mulher, se estiver em perigo, e chamar pelo seu irmão fênix, vai ser mais uma donzela em perigo!

Não, Shun (dane-se o novo nome) agora deve ser forte desde o início, pois não existe mulher (nem homem) psicologicamente frágil no mundo de hoje, então por quê tem que ter personagens assim? Talvez seja essa a linha de raciocínio absurdo.

Agora ele(a) vai se apaixonar por uma mulher também? Pois é mais fácil a June de Camaleão (já que não vão seguir mangá coisa nenhuma) continuar uma mulher e criar-se um relacionamento gay (está na moda) em uma obra que sequer tem espaço para desenvolver uma relação amorosa. Se fosse criar algo novo, que fizessem o Pabllo Vittar um cavaleiro de Bronze, mas estamos falando de uma obra já estabelecida. Não o bastante, estamos falando de mudanças não substanciais! De repente nem as vozes dos dubladores originais fazem sentido mais.

E se Shun for forte desde o início, o que há para se desenvolver na personagem (que se torna peça chave na saga de Hades)? Muitos outros momentos (que não convém dizer aqui) se tornam perdidos, não fazem mais sentido. Tudo isso, pelo quê? atenção? Aquele papo do Eugene Son (roteirista principal da adaptação) no Twitter não me convence. O nome disso é baboseira canalha, de quem quer chamar a atenção para a obra em que está envolvido. Devilman: Crybaby atualizou a fórmula antiquada do mangá de Go Nagai sem abusar de medidas mau-caráter!

Até o momento em que escrevo, o trailer no YouTube tem 828.968 visualizações, com 34 mil likes e 23 mil deslikes (número exorbitante). Todos que deram deslikes devem ser homens, e machistas, vai saber…

Crítica: Infiltrado na Klan (2018) de Spike Lee

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★★★

Alguns filmes que dialogam com a atualidade, correm o risco de rapidamente ficarem desatualizados, com discurso ultrapassado. Não é o caso do novo filme de Spike Lee, que apesar de se passar nos anos 1970, “Infiltrado na Klan” transborda contemporaneidade e pode ser levado como um documento para os tempos que estão por vir. Mas é válido enquanto cinema?

Não é a toa que a abertura fica por conta da antológica cena de “…E o Vento Levou” (1939), onde Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) caminha por entre os corpos caídos na Batalha de Atlanta. A cena simboliza abertura, é quando Scarlett finalmente abre os olhos para o mundo a sua volta. Serve de convite para nós fazermos o mesmo.

Que Spike Lee dedica sua carreira ao debate racial, não há dúvida. Que “Infiltrado” é um trabalho militante de um lado só, talvez: em determinada sequência, o músico e ativista político Harry Belafonte discursa para jovens negros terríveis eventos que vivenciou, gerando o coro da união racial contra os brancos opressores; em contrapartida, David Duke, nacionalista branco e ex líder da KKK, discursa para jovens brancos sobre a ‘supremacia branca’, o coro da união racial contra os negros é uníssono. Os gritos de ambos os lados se fundem na esperta sequência.

O conflito de interesses que gera o discurso do ódio em ambas as partes foi intencional da parte de Lee? Bom, mais uma vez: talvez!

Mas não se engane pela urgência dos fatos apresentados ou pelo contexto agressivo, afinal, trata-se na verdade de humor negro, e Lee constantemente nos lembra que estamos, de fato, assistindo a um filme — ele faz uso de split screen e até mesmo de cartazes de outros longas quando são discutidos.

Esse humor deve ser levado em conta na estrutura narrativa. O enredo é absurdo (baseado em absurdo evento real), e todas as voltas que dá em torno de si mesmo objetifica esse senso.

Ron Stallworth (John David Washington), novo integrante da força policial, entra em contato com a Ku Klux Klan pelo telefone, e obtém sucesso em se ‘infiltrar’. Flip Zimmerman (Adam Driver) assume a persona de Ron nos encontros reais. Com base nisso, Flip deve aprender a ‘falar’ como Ron. Por qual motivo Flip simplesmente não assume as conversas por telefone? — Pode ser uma grande bobagem argumentar a lógica em meio ao humor, ou também as artificialidades dos eventos, ou o relacionamento superficial entre Ron e a ativista negra Patrice Dumas (Laura Harrier); mas a besteira se amontoa tanto durante o caminho, que não deixa de incomodar, principalmente no terceiro ato (como a detonação da bomba no final que gera a mensagem barata de ‘o que vai, volta’ ou ‘o ódio faz mais mal a quem o pratica’).

Lee parece mover boa parte do discurso em prol do desfecho, onde a dramatização abre espaço para o documento real: as imagens fortes que a compõem, são de forte impacto, e explicita as elaboradas nuances discutidas, até então, entre as linhas. A bandeira dos E.U.A. de ponta cabeça, simboliza a oposição do cineasta, mas o bom discurso não é sinônimo de bom cinema.

Crítica: Akira Vol. 1

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★★★★★

Muito já se falou sobre a importância da adaptação de Akira para o mundo da animação japonesa (também para a cultura Cyberpunk), a obra é constantemente lembrada, como um dos responsáveis (em conjunto com Ghost in the Shell) pelo ‘boom’ dos animes mundo a fora. É inevitável consumir animes e não topar com a obra de Katsuhiro Otomo por aí. Akira, além de um marco da animação — dirigida pelo próprio mangaká —, é também um marco literário.

A editora JBC traz para o Brasil a versão omnibus, já lançada em outros países, em Formato 17,8 cm X 25,6 cm, com Papel Lux Cream, 362 páginas e uma linda sobrecapa.

Basta ter a edição em mãos, para se notar que estamos diante de um trabalho cuidadoso. No passar das primeiras páginas coloridas, que descrevem o início da terceira guerra mundial, que estoura a partir de vários ataques nucleares, entre eles, em Tóquio, já se nota o rigor estético no detalhamento dos quadros.

A seguir, já passados mais de 30 anos, estamos em 2019, rolamos a página para o já tradicional preto e branco, alternado entre o brando e o mais contrastado. Otomo, parece ainda, extrair nos detalhes de cada quadro uma ideia adicional sobre esse novo mundo pós-guerra, onde as lacunas imagéticas que preenchem o espaço entre um quadro e outro são um convite para a mente fluir.

Não mais Tóquio, agora estamos diante do que se restou, dos escombros: Neo Tóquio. Ecoando diretamente o que víamos já no final dos anos 1940 no cinema japonês, com Hiroshima em frangalhos, deixada em ruínas, para os moradores sobreviventes do atentado transitarem por um mar de lama, corpos e doenças. É nesse universo de contexto triste e realista em que convivem os personagens de “Anjo Embriagado” por exemplo, produção de 1948, do cineasta Akira Kurosawa. Era o cenário pós segunda guerra mundial, que tinha encontrado seu fim, apenas dois anos antes.

Traçado o paralelo, em Neo Tóquio, os adolescentes que transitam entre os escombros pós terceira guerra, são como os personagens Yakuza de Anjo Embriagado. Mas já não é necessária a luta pela aparência, ou pela hierarquia. É um mundo dominado pelo governo, pela marginalização. As ruas da cidade são um retrato dessa decadência que assola esse novo mundo. Pichações marginais aos montes, frases de rebeldia e anarquistas, da frequente luta contra o sistema.

A tecnologia super desenvolvida em Neo Tóquio, convive com esse paradoxo de baixo nível populacional — é um dos pilares da cultura Cyberpunk, mesclagem de ciência cibernética avançada que anda lado a lado com a desintegração social. A decadência da moral, em ascensão, circula pelo cotidiano dos ‘punks’ anárquicos, que circulam pelo mundo marginalizado. Além dos mendigos e dos incontáveis jovens que caminham pelas ruas desencantados, imersos na cultura delinquente, há também os grupos de ‘motoqueiros’ que se dividem por região, por gangues. É entre eles que conhecemos Kaneda, Tetsuo, Yamagata e outros.

A primeira vez que acompanhamos seus trajetos, são acompanhando-os entre as ruínas abandonadas, do que antes havia sido vastas rodovias. Com destruição e manobras perigosas, próximo onde foi lançada a bomba nuclear trinta anos antes — agora era uma área restrita da cidade, viria a ser reconstruida para sediar as Olimpíadas de Neo Tóquio de 2020 (um pouco mais sobre isso abaixo); era só mais um dia de caos, quando de repente uma figura empalidecida aparece no caminho de Tetsuo, o que ocasiona em um acidente. Em estado grave, Tetsuo é acudido pelos colegas, enquanto Kaneda vai ter com a figura responsável pelo acidente, tratava-se de uma criança, mas com aparência envelhecida. É então que o impossível acontece diante dos olhos de Kaneda: a criança desaparece, assim, em um piscar de olhos. Incrédulo, Kaneda sequer se dar ao trabalho de tentar convencer seus colegas do que acabara de ver por entre a fumaça.

O exército logo aparece (pelo menos é isso que os jovens delinquentes pensam) e levam um quase morto Tetsuo, com eles. É a partir daí que Kaneda se envolve com a complexa trama governamental. Na companhia de um grupo opositor, que também procurava a criança empalidecida, nosso jovem protagonista, que inicialmente estava apenas no lugar errado, na hora errada, é tragado para essa trama conspiratória.

O garoto Takeshi (a criança paranormal que antes, desaparecera), está envolvido em algum tipo de programa do governo, é caçado com urgência pela figura conhecida como ‘General’, mais crianças também dão as caras, com suas diferentes facetas paranormais.

As drogas que circulam por toda Neo Tóquio, são pílulas que alteram a psique do usuário. Uma febre que domina cada esquina da cidade. Uma nova geração de usufrutuário: os psicodependentes — paranoiamais, brincam os personagens em algum momento. O governo parece tratar as crianças/experimentos com uma variação da droga, ainda mais pesada. Kaneda consegue uma amostra, ao mesmo tempo, Tetsuo reaparece nas ruas.

A violência do cotidiano marginal em que convivem os rapazes, refletem o espírito desiludido da sociedade dos escombros. A escola é composta por uma atmosfera agonizante, onde os professores corrigem os alunos na base da pancadaria e da ignorância. Não que os alunos do Distrito 8 (Distrito por onde o grupo principal circula) mereçam todo o cuidado do mundo, já se perderam para os narcóticos e para o estilo de vida delinquente.

Tetsuo mudou, agora vaga pelas ruas possuindo um poder psíquico, capaz de levitar ou destruir objetos com o poder da mente; ou ainda de rachar a cabeça de alguém ao meio. Fadado a megalomania eminente, Tetsuo domina (através do medo) uma gangue inteira e se torna o ‘cabeça’ do grupo. Claro que não demora para armar um confronto contra todas as gangues da região, o que coloca em cheque sua amizade com seus ex companheiros.

Somos levados a crer que existe muito mais por entre os destroços que dominam as ruas; além do suspense por detrás do complexo governamental, a trama leva o leitor a se questionar: quem (ou o que) é AKIRA? Claro que isso não será discutido aqui, e sequer é muito debatido nessa primeira (de seis) volume da série.

Se os Simpsons fazem as famosas ‘previsões’, Akira já adiantava, em 1982, as Olimpíadas a serem disputadas em Tóquio em 2020 (claro que são apenas coincidências). O estado decadente, tratado de forma tão natural, ainda leva a crer que não só Tóquio se encontra em ruínas, mas todo o mundo.

Curioso notar a singela evolução de Tetsuo, que passa de coadjuvante passivo para coprotagonista agressivo em pouco tempo. Que segredos reservam essa transformação? Tetsuo já visado pelo governo, torna-se uma espécie de cobaia! Sem respostas. E mesmo no fim do primeiro volume, ainda não vimos um terço do que os personagens e esse mundo fantástico tem para mostrar.

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Crítica: Contra a Parede (2018) de Paulo Pons

Feito para a TV, “Contra a Parede” é didatismo moral e ético.

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★★★

A trama: Às vésperas da Eleição Presidencial, o jornalista ‘Cacá Viana’ (Antônio Fagundes), em sua última semana na posição de âncora do ‘Jornal das Dez’, é pego — juntamente com os amigos Igor e Roberto, ambos do partido fictício PI, concorrendo diretamente à presidência — em uma teia de intrigas desencadeada pelo atropelamento de uma jovem.

A situação se agrava quando uma testemunha aparece, acusando um dos eleitos de mentir sobre o ocorrido e Cacá se vê em meio a um caos moralístico. Como jornalista, sua obrigação com o povo brasileiro é entregar a verdade, discutir os fatos, mas poderia  entregar seu próprio amigo? Não o bastante, arcar com as consequências?

Não convém revelar muito, mas é a partir daí que essa teia se desdobra, o que antes pareciam fatos comprovados, logo se revelam eventos manipulados. As múltiplas facetas do incidente refletem não só a moral de Cacá, mas também a da nação como um todo. O diretor e também roteirista Paulo Pons articula através da voz de Fagundes, um discurso político e filosófico sobre ética populacional que vai da fila do supermercado da esquina aos homens no poder — ampliado ainda para a vida conjugal com sua esposa Giovana (Alexandra Martins).

No meio desse tumulto, o âncora passa a vagar entre a verdade e os mitos da imprensa. Mesmo quando decide que decisão tomar, já fora antecipada por outrem. Pelos homens que decidiram ‘jogar o jogo’. Não para por aí: o didatismo até se estende além da ética, e flerta com discurso do ‘voto consciente’.

É nas reviravoltas que as falhas começam, não pelos acontecimentos em si, mas é a montagem em flashbacks constantes, que tentam nos situar, com excesso, no vai e vem dos eventos, que muitas vezes deixa a linearidade. Esse excesso, não só irrita, como subestima a capacidade do espectador de seguir a trama, não tão confusa ou complexa. É demasiado contraditório tal escolha, uma vez que a construção dos diálogos são um alento quando o assunto é cinema brasileiro. Sem os close-ups e cortes novelescos, a câmera de Paulo Pons deixa Fagundes à mercê de suas habilidades. Se o longa não fracassa, é pela ótima atuação do ator, que praticamente carrega a obra nas costas — ainda vale destacar: Paulo não tem pressa na decupagem, até prolonga certas sequências para maior impacto visual; se arrisca na recriação de eventos por pontos de vistas diferentes — alguns podem reclamar da diferença de tempo das reações quando recriadas, mas são detalhes bobos.

Mesmo se rendendo ao heroísmo (quase) judaico no terceiro ato, encontrando a saída para o labirinto político e moral com méritos de um MacGyver âncora, tudo bem, o discurso assimétrico e didático ainda é válido no Brasil refletido da atualidade.