Mar em Fúria (2000) de Wolfgang Petersen

https://images.metadata.sky.com/pd-image/3f52e658-1afe-4e23-b6ad-d8724ac15fad/16-9

Recentemente estou assistindo a filmografia de Wolfgang Petersen, (Das Boot), de fato um diretor muito versátil (dirigiu o clássico Força Aérea Um). Era hora de rever Mar em Fúria, filme que vi na SBT muitos anos atrás em qualidade ruim (minha TV/antena não eram boas), dessa vez, vi a versão remasterizada, com áudio 5.1. Posso confirmar: é uma experiência aterrorizante. Já havia ficado assustado no início dos anos 2000 com o realismo da pesca e com a natureza agressiva engolindo aqueles que se aventuravam na imensidão azul.

O primeiro ponto que me chamou a atenção nessa revisita, foi a pesca — que acho um exercício terrível e cruel, e aqui é retratada de forma realista, toda a impiedade diante dos seres fantásticos que habitam os mares desse planeta — de peixe-espada a tubarões —, mortos com arpões e sorrisos, confesso que esse realismo me deixou incomodado a ponto de ter que pausar e fazer uma rápida pesquisa sobre a violência ali contida, encontrei uma verdade mais humana, Petersen não usou sequer um peixe de verdade durante as filmagens — e de volta ao filme… mesmo com essa informação apurada, tudo ainda era incrivelmente aterrorizante, um grande feito!

Há muita crítica negativa em relação a obra, principalmente a falta de backstory em alguns dos personagens a bordo de Andrea Gail (nome do barco de nossos protagonistas), claro, muito mais poderia ter sido explorado no personagem de George Clooney, de longe o mais complexo do filme, mas Mar em Fúria não é sobre seus personagens, e sim sobre um evento. O nome em inglês casa muito melhor, e não entendo o motivo da troca, afinal, “A Tempestade Perfeita” não só soa melhor do que “Mar em Fúria”, como também condiz mais com os eventos propostos pela narrativa, inclusive a frase é entoada em determinado momento.

Em Força Aérea Um a trilha sonora de Jerry Goldsmith sabia balancear bem os momentos patrióticos e os de tensão, porém, em Mar em Fúria, a trilha de James Horner é puro caça níquel! Falta identidade, peca no acompanhamento dos acontecimentos em tela — como no clímax, onde a trilha insiste em tons lentos já utilizados em excesso durante os momentos mais dramáticos, e quando finalmente resolve acompanhar o ritmo acelerado, já estamos no fim.

Mais aterrorizante do que a pesca, é o evento, a tal da tempestade perfeita, recomendo que o filme seja assistido com a melhor qualidade de imagem possível, pois seus efeitos especiais continuam segurando as pontas, sem momentos embaraçosos como no clímax de Força Aérea. O mar é assustador, e por vezes belo: ondas de nove metros; o tom escurecido; os closes nos rostos úmidos e assustados, os planos abertos do barco Andrea Gail, como um pontinha insignificante no meio da tempestade.
Petersen se afasta do protagonismo fácil, sonda outros personagens ligados a catástrofe, alguns funcionam, como é o caso dos tripulantes a bordo de outro barco; do drama da equipe de resgate; da leve participação do homem do tempo, admirado pela tempestade em si; a personagem de Mary Elizabeth Mastrantonio (muito bem no papel) e outros poucos, não funcionam, é o caso de todo o arco da personagem de Diane Lane e das que ficam a espera de notícias sobre seus entes queridos, até então desaparecidos.

Mar em Fúria é uma experiência estarrecedora, desde que, como dito, o caro leitor se lembre que trata-se de um filme sobre o evento, e embora não seja perfeita, essa tempestade merece muito ser redescoberta. É um dos grandes filmes de Petersen.