Crítica: Vidro (2019): conclusão é patética e irritante.

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Corpo Fechado (Unbreakable) não é só considerado o melhor filme de M. N. Shyamalan, como, muitas vezes, também como um dos melhores de super-heróis do século. Não é dizer muito em nenhuma das ocasiões citadas, afinal o diretor, de carreira instável, sempre transitou entre (poucas) produções de qualidade (O Sexto Sentido, Sinais) e (muitas) produções desastrosas (O Último Mestre do Ar, Depois da Terra, Fim dos Tempos e outros). Na segunda categoria, a de super-herói, também não é muito difícil de se destacar devido as produções de qualidade duvidosa dos estúdios Marvel/DC — fazem sucesso, é claro; mas o público está mais interessado nas calças coladas do que de fato no cinema.

De calça colada, Corpo Fechado não tem nada. O filme de 2000 tratava os poderes de David Dunn (Bruce Willis) com seriedade, contextualizando o psicológico do personagem super poderoso na nossa sociedade.

Dezessete anos depois, veio Fragmentado (Split), que ninguém sabia que era continuação do filme de 2000, até ‘Visions’, de James Newton Howard, começar a tocar— música que abre “Corpo” e toca na bela cena em que o herói descobre seu propósito em meio a multidão.

Agora, chega Vidro, o emburrecimento do universo construído até aqui! Imagine todo o contexto realizado nas duas produções predecessoras sendo jogadas para o alto e talvez tenha uma panorâmica das ideias propostas: onde a sobriedade dá tom apenas ao fantástico; onde os conflitos internos dão lugar a ação sem brilho; resumindo: onde as boas ideias são atiradas no lixo.

“Vidro” é tão decepcionante que dói, se não pela má execução, pela oportunidade perdida. “Há uma necessidade de conversar com o público atual” muitos dizem, é verdade. Shyamalan tenta verbalizar a fonte de toda essa indústria tóxica atual (das produções inspiradas em histórias em quadrinhos); porém não obteve êxito. A linguagem se aproxima mais à Split, a continuação nada óbvia. Afinal, Vidro não é nada óbvio quando o assunto é cinema de qualidade.

Mal feito: as ideias que compõem o plot twist — as famosas reviravoltas no roteiro — são representadas por um novo interlocutor, a Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson, péssima no papel), que, além de propor uma nova visão para os poderes dos personagens (já adiantado no trailer), realiza um processo tolo de controle. Agora confinados em um mesmo espaço — Sr. Vidro: A mente brilhante, Dunn: O Vigilante e Kevin Wendell Crumb: A Fera e outras personalidades que se provam inúteis — os três personagens caminham pelos corredores vazios das instalações médicas para prisioneiros de mente debilitada. A segurança é forte, mas apenas dentro do quarto onde esses se encontram confinados, pois há apenas um segurança e um médico de prontidão para vigiar esses seres super poderosos. Há também câmeras por todos os lados, mas não importa, Sr. Vidro é inteligente o suficiente para criar um pendrive sem recursos, se necessário.

Alguns podem rebater o fato de que ‘não se deve questionar a lógica no universo dos heróis de Shyamalan’, mas devo lembra-los que os heróis desse universo não vivem em uma hiper-realidade alternativa, mas sim, coexistem em uma sociedade semelhante a nossa. A sacada inicial que era apresentar um olhar fresco e contido se esvai na falta de lucidez do roteiro, que brinca com o espectador, a ponto de chama-lo de idiota. Basta ver como uma câmera de segurança se torna o álibi perfeito para evidenciar toda uma nova espécie até então desconhecida — apenas para se ter uma noção da imensidão de babaquice que é proposta.

Não poderia faltar a pieguice: cada um dos três personagens possuem laços fora da instituição, são mãe, filho e vítima, que se unem para passar o bastão do legado dos heróis (ou vilões, como queira) para frente. Só não espere emoção humana em nenhum dos personagens, a não ser um choro sem fim. É só para isso que os atores foram pagos, para chorar, e para protagonizar um desfecho tolo.

Anya Taylor-Joy, que chamou a atenção em Split, só não é o maior desperdício, pois há uma vontade extrema do enredo de deixar Dunn pelos cantos. O personagem que conhecemos dezenove anos atrás, continua o mesmo — talvez o fato de o tempo não afetar o personagem seja um de seus poderes? Se fosse, faria mais sentido do que o maniqueísmo proposto (também se aplica ao Sr. Vidro).

Shyamalan brinca com ideias megalomaníacas no clímax, normal em quadrinhos, mas se contém, e faz tudo terminar em pizza, talvez o único acerto (em partes, pois cai por terra uma vez que acompanhamos o destino do trio).

“Vidro” problematiza a ideia de aceitação dos diferentões perante uma sociedade não preparada para aceita-los, nada de novo no cinema, muito menos se levarmos em conta os quadrinhos d’Os fabulosos X-Men, que já levantaram a ideia nos anos 60, e vem discutindo o tema desde então!

Não basta as ideias desperdiçadas pelo roteiro banal, o filme ainda desperdiça seus personagens, repete as (pífias) reflexões de Split, e irrita. Irrita pelo legado de Corpo Fechado, irrita por não desenvolver os personagens a um nível no mínimo padrão, irrita pelo desfecho abestalhado, irrita pela dissipação da boa atuação de James McAvoy, e irrita mais ainda, pelo potencial desperdiçado de estabelecer, finalmente, um diálogo entre cinema e quadrinhos.

Crítica: “Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven” é diálogo de homem com sua natureza animal.

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★★★★

A Saga dos Clones é sem dúvida a saga mais polêmica; mas talvez um dos arcos mais intrigantes de todo o ciclo d’O Homem-Aranha seja “A Última Caçada de Kraven” (dividida em seis partes) — Três décadas atrás: era chegada a hora de abalar (mais uma vez) a mente do aracnídeo após já terem falecidos Tio Ben, Gwen e outros. Porém, dessa vez seria um pouco diferente — a última caçada refere-se a essência de caçador, ou ao próprio Kraven?

Sergei Kravinoff, mais conhecido como Kraven, era russo, filho de pais exilados nos E.U.A. por conta da Revolução Russa. Sempre deslocado entre os arranha-céus da selva de concreto, preferia as selvas. É lá que se encontrou — “encontrei dignidade não nas cidades, mas nas selvas” – “encontrei honra, não no civilizado, mas no primitivo” —  Dedicando parte da vida adulta à caça, Sergei era daqueles personagens que apareciam de tempos em tempos com um plano mirabolante para erradicar o amigo da vizinhança. A caça era o que motivava sua existência. É nela em que baseava sua própria essência.

Tigres, leões, javalis, elefantes, ursos… Não importa qual animal selvagem, Kraven não era apenas homem, era também animal. Caçava suas presas com as próprias mãos. Matava-os sempre sem grandes problemas. Sua única presa que continuava a escapar, era o próprio Homem-Aranha. Nele encontrou mais um motivo para existir, mais uma meta para definir sua existência vazia.

Em sua última caçada, Kraven, o homem-animal, antes de consumir-se pelo seu vazio, caça o Homem-Aranha por uma última vez; porém a caça destina-se não ao homem, mas ao animal, ao símbolo, a aranha!

Passa a viver como aranha, anda como uma, ataca presas como uma. Ao confrontar o próprio Homem-Aranha, Kraven doma-o com um rifle munido por dardos envenenados. Enterra-o, não importa quem está por debaixo da máscara, Peter Parker ou qualquer outro. É o mito, a natureza animal que Kraven caçava.

Peter está vivo, Kraven sabe, o enterro, assim como a caça, é apenas simbólico. Enterra apenas a aranha! Era seu trunfo: vencer sua própria motivação.

No tempo em que a aranha está enterrada, envenenada e inconsciente, Kraven assumi o manto de Homem-Aranha. Destrói a imagem de herói; pois inicia uma onda de violência em seu nome.

Se Kraven é o Homem-Animal, Peter é apenas homem. Munido com seus poderes de aranha, claro, mas é da natureza espiritual do homem que J. M. DeMatteis (escritor da obra) fala. Peter vem passando pela dor da perda; recém-casado com M. Jane, agora tem maiores compromissos para voltar no fim da noite após sua rotina como protetor de N. York. É refém de seu espírito humanitário. Jamais se rendendo ao seu animal cordial.

Há ainda a presença de Rattus, que não é homem, apenas animal. Vive nos esgotos, sobe para se alimentar, mata por instinto, não pelo prazer da caça. Também não os poupa, pois não possui nenhuma moral.

Entre esses três personagens — o homem, o animal e o homem-animal — DeMatteis dialoga com a natureza de cada um deles. O centro dessa história, é narrado em vaivém: os quadros antecipam um enterro, ainda não sabemos quem será enterrado, ao mesmo tempo, acompanhamos a ação. Há mais de um enterro nessa história. Não se sabe antes do final, se é homem ou animal que será enterrado.

Dotado de tensão e violência, hoje praticamente extinta nas comics do mundo da Marvel, A Última Caçada de Kraven é de uma época em que era válido experimentar sem amarras, onde o sombrio ainda era algo natural, e não ‘chamadas’ para uma nova repaginação. É também de um tempo em que os quadrinhos eram tidos como arte, o que parece estar esquecido, inclusive pela própria Marvel.