A Fragmentação do respeito e a terceirização da culpa

É comum na sociedade atual, terceirizarmos a culpa pelos nossos fracassos ou atos infelizes. Fulano não passou de ano por culpa do Lula; beltrano cometeu um massacre por culpa do Bolsonaro. Sicrano não se esforçou na hora de estudar, foi incapaz de largar o iPhone momentos antes do exame final  — É culpa do Steve Jobs!

Enquanto o mundo pega fogo e caminha ladeira abaixo, a saúde mental continua sendo negligenciada. É frescura! Por qual razão se dedicar a saúde mental, afinal? É tudo coisa da nossa cabeça, certo? Errado.

Tudo está ligado a um fator muito importante; porém totalmente fragmentado: respeito. E já digo o motivo de tal fragmentação — Hoje não se ensina respeito, ensina-se aceitação. O aceita que dói menos é a nova forma de engolir as escolhas alheias, mesmo que não concorde com elas — Não seria mais eficaz ensinar a respeitar? Pois respeitar e aceitar até podem ser sinônimos, mas na prática são muito diferentes.

Agora, o que quero dizer com tal fragmentação? É você retirar do “respeite ao próximo” apenas aquilo que seja do seu interesse. Você é a favor da cor azul agora ser chamada de verde? Ótimo. Isso invalida quem não é a favor? Não (e vice-versa)! Aí começa a guerra… Os que são a favor, vão contestar a falta de respeito dos que não aceitam tal mudança, e do lado oposto, vão reclamar da falta de respeito aos fatores já estabelecidos, afinal, para esse segundo grupo, azul é azul desde que se entende de cores! Aí está, o respeito fragmentado, usado em prol do ponto de vista que mais se enquadra na sua convicção. Quem acredita que azul agora é verde não consegue entender a ignorância de seus opostos diante do novo, da mudança — quase sempre generalizada, mas alguém que seja contra azul ser agora verde, não necessariamente seria contra marrom ser agora chamado de amarelo — e os conservadores, não conseguem entender a perversão dos liberais em mexer em algo tão tradicional  — também generalizado na maioria das vezes, afinal, quem não tem seus valores morais/ideológicos tradicionais?

E afinal, qual lado está mais equivocado? Temos aqui um empate técnico! Enquanto o respeito se torna um fragmento dos valores ideológicos de quem o prega, quem ainda é a favor da velha frase ‘respeite ao próximo’ fica no fogo cruzado. Não escolher um lado nessa guerra é pedir para ser fuzilado por ambos os lados.

Pabllo Vittar é transexual, mas você não gosta da música dela? Acha as letras pobres, o instrumental fraquíssimo, com um vocal desafinado e irritante? Seu homofóbico; Não é a favor do Bolsonaro? Seu PTralha; Não é a favor do PT? Seu fascista! O extremismo faz parte da ignorância dos tolos.

Se tudo começa com o respeito, termina com a culpa… Afinal, a culpa do seu filho ser incapaz de ler um texto de quatro linhas é do governo. Terceirizar nossas derrotas já se tornou um hábito. Não conviver mais com nossos fracassos, será a nossa ruína, não só como indivíduos, mas também como sociedade. Fragmentamos não só o respeito, mas também a culpa.

Já não é mais do nosso feitio sermos iguais, embora todos continuemos o pregando como tal, agora ‘temos’ que ser diferentes. Diferentes do que já fomos (se é que um dia já respeitamos verdadeiramente alguém)! E tome muito cuidado antes de sair por aí pregando o respeito ao próximo, a pessoa do seu lado pode ter mais caras do que o Kevin Wendell Crumb!

Afinal, o que realmente importa?

Esse texto toma como base, a seguinte matéria:
https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,voce-a-serie-que-evidencia-o-poder-da-netflix,70002696961

É verdade, visibilidade nunca foi sinônimo de qualidade; mas afinal, o que realmente importa? O que é qualidade cinematográfica? — aqui, incluo também séries (a contragosto, pois são mais mídia), veja Game of Thrones como exemplo, tanto sucesso pelos motivos errados; acredito que se há público o suficiente que veja determinada obra como arte, então é arte!

Alguns fogem da regra – Homem nu no museu é arte? Antes me pergunto: há público que considere como arte? Se a resposta é sim, então quem sou eu para dizer que não é? Agora quando o assunto é cinema, não há discussão: é arte! Em sua própria essência, em sua própria definição, em seu berço. Pode ser entretenimento também? É claro que pode, mas isso não tira o fator inicial de que está sendo usado, para entreter, uma linguagem artística. Vingadores é arte? É arte com o intuito de entreter; mas e quanto a qualidade? Aí já é outro tema. Vingadores está mais preocupado com a carteira do público, do que com sua afinidade com o cinema. O mesmo vale para boa parte dos blockbusters atuais.

A computação gráfica é uma boa representante da decadência do cinema americano, veja esse parágrafo: “Em “Planeta dos Macacos – O Confronto”, temos mais uma amostra de que a tecnologia, que costumava andar de mãos dadas com a evolução da linguagem cinematográfica, agora está destruindo o cinema.” – o texto em questão é do crítico Sérgio Alpendre, basta essas poucas palavras para resumir o mal-estar atual das produções arrasa-quarteirão.

Se o tema é visibilidade, então a Netflix é o centro, mas ter tanta visibilidade não quer dizer absolutamente nada! Há tantas evidências de produções ruins que fazem sucesso por aí: 50 tons de cinza, Vingadores, Game of Thrones, Velozes e Furiosos… e claro, muitas das produções com selo Netflix: Stranger Things, Narcos (a partir da segunda temporada) e agora uma tal de Você.
Essa última, talvez seja o que melhor evidencie (hoje, pois basta esperar GoT retornar) esse mal-estar da falta de qualidade, que se torna a menina dos olhos de um público ávido por uma nova descoberta na plataforma, mais preocupado com as voltas e mais voltas do roteiro do que de fato com a linguagem cinematográfica; mais preocupados em se inteirar do assunto mais discutido no Twitter do que de fato em refletir junto à obra.

Não importa a qualidade da tal série Você, se está na Netflix, corre um grande risco de fazer sucesso, e é aí que começa o ciclo vicioso da falta de qualidade. Para as empresas, qualidade é sinônimo de visibilidade; para o público contemporâneo, visibilidade é sinônimo de qualidade. Então já podem dar as mãos. O cinéfilo que considera Luchino Visconti um dos grandes mestres do cinema, talvez olhe para a Netflix e se indague: “onde foi que errei?”, afinal, o erro também é nosso. É nosso erro, como cinéfilo.

Erro também da crítica: a internacional, mais preocupada em falar bem para não perder a credencial na próxima cabine; e da brasileira: mais preocupada em não virar inimiga do grande público por falar a verdade sobre o novo filme da Marvel.

O equívoco já chegou ao Oscar, não que um dia esse evento tenha sido sinônimo de qualidade; porém, há a eterna discussão de 42: Cidadão Kane perdeu para Como era Verde o Meu Vale na categoria melhor filme, e nós sabemos qual dos dois se revelou mais duradouro com o tempo. Mais duradouro na boca do público, e na mão dos acadêmicos. Você consegue escolher entre Orson Welles e John Ford? Bom, eu não.

Eram outros tempos, hoje se escolhe entre Pantera Negra ou Nasce uma Estrela. O primeiro, uma continuação de um universo estendido, que conta a mesma história já repetida inúmeras vezes, feito de forma tola (as lutas são em boa parte feitas em computação gráfica), mas qual o fator principal? o elenco é negro — representatividade é importante, mas não é sinônimo de qualidade; o segundo é um remake de um remake de um remake… — melhor ator/atriz: Glen Cose é ótima, já provou isso tantas vezes, mas o prêmio vai para a que mais se destaca em meio ao dejeto? pois A Esposa é sofrível até em sua proposta. O mesmo vale para Rami Malek no mascarado Bohemian Rhapsody.

Mais do que a série Você, outro exemplo de visibilidade/qualidade é Roma, como já adianta o crítico Inácio Araújo: …se fosse lançado nos cinemas, a seco, “Roma” teria o público que está tendo? […] – Nós sabemos a resposta!

Roma é, de fato, um bom filme, mas convenhamos, não há nada ali que o coloque no panteão de grandes filmes do Século XXI. E qual seria o motivo de tanto burburinho? É o trabalho de câmera? As atuações? A atmosfera? Se for, Lav Diaz e Béla Tarr merecem ser lançados na Netflix urgentemente! Mas apesar de Roma ser um bom filme, há outra menina dos olhos do cinéfilo de Instagram: Birdbox. Esse sim, o exemplo definitivo; pois Birdbox é um filme ruim, mas é sucesso absoluto!

— O texto parece fugir do tema inicial proposto, e também não possui uma conclusão, mas afinal, o que realmente importa? E o que diabos é arte?

“A arte não é a reflexão da realidade, é a realidade da reflexão”
La Chinoise, Jean-Luc Godard (1967).

Vamos refletir…

O fim do respeito.

Ir ao cinema não é um hobby, ir ao cinema é um ritual; uma cerimônia. Desde criança, quando frequentava o cinema para ver a estreia da semana, notava algo de mágico: o som alto, a tela grande, o ambiente escuro, a atmosfera… Não é coisa da minha cabeça, pois sei que não estou sozinho no mundo, mas ir ao cinema, é mais do que simplesmente ‘ver o filme’, é contemplar o próprio cinema.

É triste, mas hoje prefiro ver os filmes em casa. Seja pelo circuito, que só se preocupa com filmes americanos, ou melhor, blockbusters americanos — afinal até mesmo o filme indie americano tem pouco espaço no país, não que eles fossem a salvação, uma vez que não há nenhum Cassavetes —, além do circuito fraco, há outro problema gravíssimo: o público.

Aqui, o único cinema da cidade fica no shopping, vejo as pessoas escolhendo filmes na hora com a família, não se importam se é o dois ou o três, não se importam em saber quem ou quê. É um programa, apenas para matar o tempo. Até aí tudo bem, não sou eu quem vou dizer como se deve apreciar arte — desde os meus treze anos não sei o que é ir ao cinema sem ao menos saber o nome do diretor ou do elenco.

O problema começa lá dentro, as conversas altas, o celular que não apaga (sequer se preocupam com a intensidade do brilho mais), e o que mais me chateia, a falta de interesse. Para ficar no celular durante um filme, já demonstra grande falta de interesse (por qual motivo pagar para ver algo que não está afim? Não entendo). Afinal, como ver o filme e conversar por mensagem ao mesmo tempo? Impossível.

Mas a falta de interesse maior, é para com o próprio cinema, não há mais respeito pela experiência, não há mais apreciação pelos filmes!

Na última vez que fui (semana passada), uma moça levou uma criança (não sei se era filha ou não), sentaram-se ao meu lado. Além de ficarem conversando o tempo todo, a criança não desgrudava do celular. Saia toda hora para comprar bala ou refrigerante, e, ao voltar, perguntava sobre o que estava acontecendo. Então a mãe contava todo o filme para a criança (de forma tola e incoerente, diga-se de passagem) sem se importar com os outros ao redor, não só comigo, afinal todos por perto ficaram impacientes e incomodados. Desviava a atenção. Pedir educadamente não adianta mais.

Não foi a primeira vez, nem será a última. A tendência é piorar, sou pessimista quando falamos, não só de cinema, mas de linguagem em geral. O interesse não existe mais.

Afinal, pedir para a pessoa parar é o suficiente? Claro que não! Ouvir o outro é muito penoso — as pessoas se escutam cada vez menos. Na penúltima vez que fui, um adulto (de adulto só a idade), decidiu filmar o filme para postar no Instagram (ou em qualquer outra baboseira do tipo). O ‘lanterninha’, aquele funcionário que fica passeando pelo cinema o notou e pediu para que desligasse o celular. Além desse ato no mínimo criminoso, o rapaz ainda teve coragem de contestar: “mas só estou filmando o filme, qual é o problema?”. Ao ouvir tal frase, comecei a pensar. Pensar se não sou eu o errado, se não sou eu o deslocado…

Os tempos mudaram. Nas conversas, não existe mais o papo de cinema, apenas o papo sobre o próximo filme de super-herói. No cinema, não há respeito, mas por qual motivo esperava que houvesse? Se não há fora, quem dirá dentro, quando as pessoas estão acompanhadas e se veem na obrigação de se mostrar ou algo do tipo. E afinal qual o problema de ir ao cinema sozinho? É tão estranho assim?

Apesar de tudo, não vou deixar de frequentar as salas; porém sinto-me deslocado, a canalhice parece ter tomado conta do mundo. Não é assim, ao meu ver, que se contempla um filme, mas estou praticamente sozinho nessa. O fim da experiência demonstra também o fim do respeito.

Crítica: Contra a Parede (2018) de Paulo Pons

Feito para a TV, “Contra a Parede” é didatismo moral e ético.

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★★★

A trama: Às vésperas da Eleição Presidencial, o jornalista ‘Cacá Viana’ (Antônio Fagundes), em sua última semana na posição de âncora do ‘Jornal das Dez’, é pego — juntamente com os amigos Igor e Roberto, ambos do partido fictício PI, concorrendo diretamente à presidência — em uma teia de intrigas desencadeada pelo atropelamento de uma jovem.

A situação se agrava quando uma testemunha aparece, acusando um dos eleitos de mentir sobre o ocorrido e Cacá se vê em meio a um caos moralístico. Como jornalista, sua obrigação com o povo brasileiro é entregar a verdade, discutir os fatos, mas poderia  entregar seu próprio amigo? Não o bastante, arcar com as consequências?

Não convém revelar muito, mas é a partir daí que essa teia se desdobra, o que antes pareciam fatos comprovados, logo se revelam eventos manipulados. As múltiplas facetas do incidente refletem não só a moral de Cacá, mas também a da nação como um todo. O diretor e também roteirista Paulo Pons articula através da voz de Fagundes, um discurso político e filosófico sobre ética populacional que vai da fila do supermercado da esquina aos homens no poder — ampliado ainda para a vida conjugal com sua esposa Giovana (Alexandra Martins).

No meio desse tumulto, o âncora passa a vagar entre a verdade e os mitos da imprensa. Mesmo quando decide que decisão tomar, já fora antecipada por outrem. Pelos homens que decidiram ‘jogar o jogo’. Não para por aí: o didatismo até se estende além da ética, e flerta com discurso do ‘voto consciente’.

É nas reviravoltas que as falhas começam, não pelos acontecimentos em si, mas é a montagem em flashbacks constantes, que tentam nos situar, com excesso, no vai e vem dos eventos, que muitas vezes deixa a linearidade. Esse excesso, não só irrita, como subestima a capacidade do espectador de seguir a trama, não tão confusa ou complexa. É demasiado contraditório tal escolha, uma vez que a construção dos diálogos são um alento quando o assunto é cinema brasileiro. Sem os close-ups e cortes novelescos, a câmera de Paulo Pons deixa Fagundes à mercê de suas habilidades. Se o longa não fracassa, é pela ótima atuação do ator, que praticamente carrega a obra nas costas — ainda vale destacar: Paulo não tem pressa na decupagem, até prolonga certas sequências para maior impacto visual; se arrisca na recriação de eventos por pontos de vistas diferentes — alguns podem reclamar da diferença de tempo das reações quando recriadas, mas são detalhes bobos.

Mesmo se rendendo ao heroísmo (quase) judaico no terceiro ato, encontrando a saída para o labirinto político e moral com méritos de um MacGyver âncora, tudo bem, o discurso assimétrico e didático ainda é válido no Brasil refletido da atualidade.

Crítica: Halloween (2018) de David Gordon Green

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★★

É um equívoco dizer que a franquia ‘Halloween’ está de volta aos eixos. Tirando a trilha sonora mais do que especial de John Carpenter — que dirigiu o original em 1978 e não mais se envolveu com a franquia como diretor, apenas como compositor da trilha sonora de Halloween 2 (1981) e Halloween 3 (1982) —, Halloween (2018) não bebe em nada do que a franquia, originalmente trouxe para o cinema de horror. O original é importante por ser um dos precursores do Slasher nos Estados Unidos — Mario Bava já tinha lançado Banho de Sangue em 1971 na Itália, então Halloween não é necessariamente o “Slasher original”. Há uma discussão de quem deveria usar essa coroa (Dario Argento também já flertava com o gênero nos anos 1970), bobagem, todos foram importantes para emoldurar o gênero, o original de Carpenter apenas aperfeiçoou o que já vinha sendo feito no decorrer da década. A versão de 1978 nos causava: Ansiedade por causa da trama lenta (a primeira morte só ocorre na faixa dos cinquenta minutos de filme); sentimento de estar sendo observado, afinal Michael Myers observa Laurie (Jamie Lee Curtis) por praticamente toda a duração; claustrofobia pela casa escura e as sequências em cômodos apertados; imersão na atmosfera. Esse último talvez o mais importante para o sucesso, e é exatamente o que mais faz falta no novo Halloween.

Abandonadas as sequências  — isso inclui o segundo filme de 1981, que parece causar confusão em alguns por ser uma continuação direta do primeiro, logo vale lembrar que como consequência o parentesco entre Laurie e Myers também foi descartado —, quarenta anos se passaram desde a fatídica noite em que Haddonfield foi atacada na noite de Halloween pelo implacável Michael Myers, e Laurie, agora já avó, mora isolada nos arredores da cidade, paranoica, se preparando para o inevitável reencontro com o assassino em massa.

O filme abre com um casal de jornalistas visitando Myers no hospício, como ele foi preso não nos é informado. De uma forma mirabolante, um dos jornalistas (que estava preparando um PODCAST sobre os eventos de quarenta anos atrás) tem em posse a icônica máscara usada durante a chacina, após provoca-lo exibindo-a, querendo obter qualquer tipo de reação (frustrado), tem início o hino, tema reestruturado a partir do original, que Carpenter compôs para esse novo capítulo. A trilha de Carpenter é um alívio, ajuda a remeter a atmosfera do original, porém acaba por aí.

É nos momentos seguintes, com Alysson (Andi Matichak ) e Karen (Judy Greer ), (respectivamente, sobrinha e filha de Laurie) que as coisas desandam, assim tão cedo. Cinco minutos de apresentação clichê de personagens maniqueístas e diálogos fúteis. É só Alysson chegar no colégio que já sabemos quem vai brincar de vilão nessa história de triangulo amoroso que se inicia e que se complica, claro, no baile da escola. É difícil imaginar que David Gordon Green e toda sua equipe trabalharam arduamente no roteiro por tanto tempo para no fim, se renderem não só as convenções do gênero slasher, como ainda se perderem nas dimensões baratas de toda ou qualquer produção envolvendo jovens/adolescentes.

Halloween (2018) emula constantemente tudo o que já se foi visto no cinema horror, e não o bastante: Tudo que já se foi visto na própria franquia. Há uma sequência no banheiro que é idêntica à uma de “Halloween: 20 anos depois” (produção de 1998 que foi vendida como “O reencontro final entre Laurie e Michael”). A Laurie bem resolvida de H:20 não está presente, nessa nova versão é uma louca que mora em uma gaiola, que também se prova uma enorme armadilha; com problemas em se relacionar com os outros, devido aos traumas daquela noite de 1978. Esse trauma ainda parece se esticar para uma nova personagem, que no fim, existe apenas para manter a franquia viva após esse (suposto) último capítulo.

Em determinado momento, Michael está solto nas ruas de Haddonfield, a câmera logo invoca Halloween 2, o plano longo em que o assassino caminha livremente pelas ruas misturado ao público festivo. Porém, Gordon Green vai além, sustenta o plano para acompanharmos Michael fazer jus ao termo “Assassino em série”, e de casa em casa, o vemos matar inocentes. A sequência culmina em um pequeno período de tensão ao ouvirmos o chorar de um bebê, Michael vai mata-lo ou não? É a melhor sequência da obra.

A trama ainda reserva uma ‘surpresa’ envolvendo um dos personagens, uma reviravolta ideológica que nos leva a perguntar “Como os três elementos responsáveis pelo roteiro tiveram uma ideia tão tosca?”, soa forçada, e pior: como concordaram entre si, com tal ideia!?. Assinam o roteiro: Danny McBride, Jeff Fradley e o próprio David Gordon Green.

É difícil se decidir quem é o personagem mais redundante em Halloween (2018) — até o título mastigado sem originalidade remete a qualidade do filme, é o terceiro capítulo da franquia que se chama apenas “Halloween” —, talvez Ray (Toby Huss), pai de Alysson, mereça tal título, se limita durante todo o longa à fazer ‘caras e bocas’ e piadas sobre o amendoim que caiu no seu pênis. Ou talvez seja Cameron Elam (o estranho Dylan Arnold), típico arquétipo namorado abobalhado que existe com o simples propósito de criar nuances no roteiro. Esses e mais alguns, que são descartados da trama, não necessariamente vítimas em potencial, só inutilizados pelo corrido enredo que parece estar preocupado apenas com a reta final.

O novo Halloween pode até ter ignorado as sequências, mas tudo que consegue ser é exatamente mais uma delas. O confronto final entre Laurie e Michael até reserva algumas surpresas inventivas e que endereçam diretamente o original, como a inversão de papeis de caça e caçador, mas não é o bastante para desfazer as bobagens dos eventos ocorridos para criar toda a situação em si.

Esse foi o último confronto entre Laurie e Michael? Daqui vinte anos a gente descobre.

Crítica: A Noite nos Persegue (2018) de Timo Tjahjanto

The Night Comes For Us (2018)
★★★★

Desde 2014 em produção, A Noite nos Persegue (The Night Comes for us) passou pelo inferno e voltou. O filme chegou a ser cancelado, iria virar uma graphic novel, por alguma razão o projeto ressuscitou. Geralmente, coisa boa não poderia ser, é comum produções conturbadas se tornarem produtos finais entregues de forma inacabada, com ausência de identidade e outros males, felizmente essa é uma das raras exceções.

Distribuído em alguns mercados pela PT. Merantau Films, empresa que tem como cofundador Gareth Evans, diretor de Operação Invasão e Merantau (daí o nome), logo, já se pode esperar sangue e tripas para todos os cantos. Some isso ao fato de que o diretor é Timo Tjahjanto (de Headshot — disponível na Netflix) e o resultado só pode ser avermelhado.

Lançado aqui no Brasil pela Netflix (de novo ela), “A Noite” prova que não existe limite para a violência nas produções da Indonésia, e de fato estamos falando de um filme sobre violência.

Na trama, Ito (Joe Taslim), é um mercenário que trabalha para a tríade. Durante uma chacina, no lugar de matar a última vítima restante de um vilarejo, uma criança que acabara de presenciar a morte dos pais, Ito resolve salva-la; claro que isso acarreta uma série de conflitos, afinal ele se voltou contra a tríade. Então ele embarca em confronto atrás de confronto, deixando membros decepados  para trás — são pernas, braços e cabeças rolando por 121 minutos —. É uma jornada sem volta, que nos leva até os confins da violência.

Há mais na trama, porém não vale adiantar aqui, e de fato não importa. “A Noite” é uma daquelas produções que não se implica com o roteiro, os clichês do gênero estão por lá, mas são as intermináveis acrobacias violentas de ação que importam para Timo e sua trupe. Diferente do clima de horror que marca as produções com seu irmão Kimo Stamboel, como Assassinos (2014) e Macabre (2009) — ambos são conhecidos como ‘The Mo Brothers’ — , Timo, agora sozinho, busca mais a ação e o thriller da franquia Operação Invasão, clara inspiração.

Por falar na franquia, outros astros foram reescalados além de Joe Taslim. São eles: Iko Uwais e Julie Estelle. Uwais e Taslim são mestres em artes marciais fora das telas, tendo já participado de inúmeros campeonatos grandes antes de se tornarem atores, o que chama mais a atenção nesse caso, é Julie Estelle: A atriz que teve seu primeiro contato com arte marciais em 2013, enquanto rodava Operação Invasão 2 (ela era a “mulher do martelo”), se sai muito bem nas coreografias, fluída, rápida, acompanha bem o ritmo da coreografia. Destaque também para Shareefa Daanish (de Macabre) e Hannah Al Rashid, irreconhecíveis, e que assim como Estelle, demonstram muita intimidade com as complexas cenas de ação. Cenas essas que não abusam de cortes rápidos ou da assombrosa câmera balançando (Shaky Cam). Todos ângulos são amplos e capturam bem toda a dimensão do cenário. Contam ainda com certos momentos inventivos, como a câmera pregada na nuca de Ito, enquanto ele distribui socos e facadas. É muito mais do que A Vilã (The Villainess, 2017) conseguiu ser.

Sempre é usado algum truque ao se adentrar em determinado local onde a carnificina irá tomar conta. Como algum personagem que observa os arredores, a câmera passeia pela locação, é para nos por a par da geografia local. Sem picaretagens, as lutas de armas brancas não escondem a brutalidade do instinto assassino que move todos personagens em tela. Com a exceção da mocinha salva no início do filme (e que criança traumatizada ela será!), todos os personagens que integram a narrativa são vilões, o clima frio e de distanciamento é intencional. De fato não temos com quem se identificar.

Diferente do recente 22 Milhas, a já citada execrável câmera balançando não é usada, o brilho das coreografias bens boladas são somadas à um trabalho de atores invejáveis. O resultado é um tapa na cara no trabalho de Peter Berg, que deveria se envergonhar de desperdiçar a presença de Uwais (em ascensão nos E.U.A.); Então é só apertar os cintos e contemplar a carnificina, e se no fim seu apetite por sangue ainda não estiver saciado é melhor procurar ajuda.