Crítica: Em Chamas (2018) de Lee Chang-dong

MV5BZmIyMjBhYmUtMTBlZi00YmQ0LWJmMDQtNzRhMzVhYmJiN2NmXkEyXkFqcGdeQXVyODA4ODIwNDM@._V1_
★★★★

A partir do momento em que o aspirante a escritor Lee Jong-su (Ah-In Yoo, de ‘O Veterano’) reencontra Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), amiga de infância, é como se um longo pavio fosse aceso, com o fogo queimando de forma gradual, sem pressa. A trama de “Em Chamas”, novo trabalho do diretor sul coreano Lee Chang-dong, é como pequenas faíscas que resultam em um incêndio descontrolado.

O que começa como um drama, que aparenta se basear em temas como inclusão, se revela um olhar metafórico entre diferenças e relacionamentos de duas diferentes classes sociais, não o bastante, a trama evolui na segunda metade para um suspense psicológico intenso, onde um personagem simplesmente desaparece e dá início a um jogo de aflições.

Se o fogo começa a queimar após o reencontro com a inusitada Hae-mi, ele fica mais intenso quando Ben, personagem de Steven Yeun (The Walking Dead), esgueira pelas beiradas do abrupto relacionamento entre Lee Jong-su e Shin Hae-mi. Se Jong-su dirige uma caminhonete antiga, com lataria parcialmente enferrujada, Ben dirige um Porsche; enquanto Jong-su mora em uma pequena casa no campo, afastado da cidade, Ben mora em Gangnam — bairro nobre de Seoul que ficou famoso pela música “Gangnam Style” do rapper sul-coreano PSY” — É aí que começa o conflito de classes.

Arma-se certa disputa, o troféu é a atenção da garota, de temperamento bipolar, que está em busca de seu lugar no mundo, em busca de um sentido para a vida. Essas características são tudo que sabemos dela, pois o resto é rodeado por grandes dúvidas: “Alimente meu gato no tempo que estou fora!”, pede Hae-mi à Jong-su pouco antes de embarcar em uma viajem para a África, nunca vemos o tal gato no apartamento, muito menos Jong-su. “Lembra-se quando cai no poço perto da minha casa?” Jong-su não se lembra, o proprietário diz não se lembrar sequer da existência de um poço, a mãe de Jong-su, essa sim se lembra, não sabemos em quem confiar, essa e muitas outras teias de informações são despejadas em meio as incertezas, cabe a nós buscar as respostas.

E é assim, em meio as dúvidas que a trama anda, elas se agravam calmamente, de acordo com os acontecimentos que rodeiam o trio de personagens. Quando um deles desaparece, a dúvida se intensifica, a chama do pavio se aproxima do fim, até que explode em um conflito, o pobre sempre culpa o rico (ou vice-versa).

Recheado de metáforas para o mal estar da sociedade sul coreana, “Em Chamas” consegue dialogar com o aqui e com o agora. O Brasil em que vivemos!

Em determinado momento, Jong-su está andando para lá e para cá em sua casa. Na TV, com suas caras e bocas, um discurso do presidente Trump está sendo exibido no noticiário. Jong-su não presta atenção no conteúdo, nós sim. É o discurso da desigualdade, a mesma que lembra Jong-su de sua pequenez, sempre que seu adversário aparece em seu ‘carrão’ para disputar amigavelmente Hae-mi. Mas seria Ben um esnobe, ou um ingênuo?

Longe de dialogar apenas com um lado da moeda, o diretor coloca sinais de ambos os lados, denunciando os conflitos que os cercam. Até os pequenos gestos, como o bocejar de tédio daquele que se rodeia de pessoas para preencher seu próprio vazio (ou seria ego?) — Cada gesto é válido e importante, mais uma vez Lee Chang-dong não decepciona.

O filme foi o selecionado pela Coreia do Sul como o representante do Oscar. Sem surpresas aqui, dificilmente algum filme sul coreano poderia bater essa horripilante metáfora social, que vai muito além de Seoul, e nos atinge diretamente, do outro lado do mundo.

Crítica: As Senhoras de Salem (2013) de Rob Zombie

As_Senhoras_de_Salem

Os personagens da filmografia de Rob Zombie seguem vários estereótipos: São roqueiros e de aparência ‘rebelde’; boca suja; explosivos e não pensam muito. Se eles funcionam muito bem em “Rejeitados pelo Diabo”, seu melhor filme, em “As Senhoras de Salem” eles flertam com a mediocridade e abraçam de vez o absurdo, o ilógico (já ensaiado no remake de Halloween).

Heidi (Sheri Moon Zombie, que só é escalada para os filmes do diretor, vai ver por ser sua esposa), é uma locutora de rádio, que recebe em determinado dia, um vinil endereçado diretamente a ela, o remetente é assinado apenas como o grupo “The Lords”. Ao transmitir a música na rádio, Heidi, e outras mulheres espalhadas pela cidade de Salem que estavam antenadas, entram em um estado de transe.

O longa se propõe em acompanhar esse estado alterado de consciência através de imagens desconexas, amarradas ao sonho. A tal música do The Lords, resgata os sons do passado obscuro de Salem e expõe as várias mulheres à uma hipnose sensorial contínua, que as levam a seguir um passo a passo para concretizar um ritual em grande escala.

Zombie invoca as produções de horror dos anos 1960, não só constantemente paga homenagens, como também recria o terror opressivo que vai além dos sustos fáceis, e coloca ‘apenas’ o espectador a par do mal que rodeia as personagens, excluindo-as da ação em volta.

A montagem que por traz, sonho após sonho, imagens surreais, apocalípticas e que evidenciam em fragmentos os planos por detrás do ritual, são repetitivas e aparentam ser a saída ideal para estender a duração do filme. E é assim, pelo tempo que se estende, que As Senhoras de Salem se leva. Fragmento após fragmento, montagem após montagem, é pedante, demasiado abrangente, equivocado.

Rob Zombie deixa de fora dessa vez o sexo estranho das demais produções que carregam seu nome, mas não poderia faltar a nudez gratuita: Zombie tem um fetiche por filmar as silhuetas de sua esposa e coloca-las na tela — Gosta de evidenciar as curvas femininas em momentos inoportunos, fica feio, soa exagerado e deslocado, sem substância.

Os demais personagens que complementam a trama são constantemente descartados e/ou simplesmente esquecidos. Zombie parece tentar recriar o ritual das bruxas do cinema clássico com: música inaudível, quase um ruído; orações pagãs e bruxas de aparência velha e enrugada; cabras em volta do cenário abrasado. Funciona bem nos momentos mais surreais.

Os sonhos clarividentes que pintam o eminente ritual são compostos por uma montagem rápida, decupagem semelhante a de uma vídeo clipe, são repetitivos e evidenciam a falta de tato de Zombie como diretor.

Esteticamente, esse longo vídeo clipe de uma hora e quarenta minutos alcança raras passagens de belas imagens estáticas, mas que não se justificam por serem desconexas, mais uma vez, avulsas demais. O trailer já bastaria, pois é mais gratificante e ao menos justifica a montagem absurda.

 

Não ignore os vídeo clipes do ‘Behemoth’

Se você é fã de música extrema, não ignore os clipes da banda de Black/Death Metal, Behemoth. Mesmo ainda sendo, na nata, um meio de promover a música, os vídeos abusam da criatividade na hora de transpor as letras para o ecrã.

Ignorados os clipes pré-Lúcifer (que falhavam no deslocamento para imagem, ou seja, era mais do mesmo), são em suma, uma forma de narrativa que consegue ecoar o tema das letras com estética (arrisco dizer) cinematográficas.

A montagem composta por frequentes cortes, característica de clipes musicais, ainda estão lá em boa parte das produções, porém, o que mais chama a atenção é a habilidade de traduzir as blasfêmias ritualísticas líricas em imagem, os corpos nus que frequentemente fazem parte das produções, emulam o paganismo liberal que a banda prega, também a liberdade de expressão.

Vindo da Polônia, país onde segundo pesquisas, 80% da população adere à fé cristã, Behemoth tem realmente algo a dizer. O discurso se estende além da liberdade de expressão, e aborda temas como: Satanismo (quase didático), que procura debater a figura satânica como símbolo de soltura, um livramento das amarras conservadoras; uma alegoria à oposição do pensamento majoritário; ao ensinamento parcial e político totalitário; e também os (comuns no gênero) desejos obscuros do subconsciente.

O clipe de Lúcifer, que, como já citado, inaugura a nova onda de vídeos da banda, traz a tona o didatismo rigoroso dos enquadramentos que capturam o pensamento não convencional.

Na contra mão, sem apelar para o tradicionalismo simplista, como a captura da banda tocando em lugares exóticos ou nos piores casos, debaixo de forte chuva em local abandonado. Os vídeos recentes fazem questão de abandonar esse padrão clichê, e no lugar de separar a banda da narrativa, como se o grupo estivesse isolado da situação problema — é comum atores ficarem independentes, movendo a narrativa lírica na dramatização dos eventos, enquanto a letra é cantada à parte —, os vídeos do Behemoth unem ambas as partes, colocam Nergal (Holocausto) no centro, o vocalista é o protagonista do conto. É certo que até aí não é nenhuma novidade, se colocado em contexto geral então, existe aos montes, mas é da música extrema que falo, do Death Metal, Black Metal, etc.

Deleites visuais — Se por vezes mais animalesco, como é o caso da ótima, porém exagerada, Messe Noire, que com os ambientes escuros e forte presença de refletores em formato pisca-pisca, traz atmosfera opressiva e aterrorizante. O que mais chama a atenção são as mais claras, com imagem mais brandas, com maior presença de uma fotografia cinematográfica, menos cartunesca, como: “O Father, O Satan, O Son“, que mesmo abusando do Slow Motion alcança a beleza nos movimentos (raro de se ver); a imagem narrativa lenta de “Ben Sahar” (mais antiga) que contraria a batida sonora, e opta por um preto e branco mais acinzentado, um Béla Tarr musical; “Bartzabel” (mais recente) que abusa da cerimônia de invocação e não poupa os detalhes ritualísticos envolvendo mulheres completamente nuas — uma afronta aos padrões imagéticos de um vídeo clipe; “Blow your Trumpets Gabriel“, a mais profana dentre as citadas, (presente no álbum The Satanist), busca a montagem rápida, mas sem abandonar o contraste atípico das produções (pós Lúcifer) da banda, com capturas dignas que gritam beleza; por fim, retornando mais uma vez aos tempos recentes, “God=Dog” busca o extremismo estético presente nos outros vídeos (o pênis sempre deve pegar muita gente de surpresa) mas abandona a captura ampla da imagem e se concentra mais nos closes dos corpos em vaivém violento e com edição mais tradicional (“Woves of Siberia” segue o mesmo molde).

Tudo isso é imagem! E quanto a música em si? (não deve agradar os que genuinamente desgostam de metal extremo): São poesias de cunho liberal, fortemente inspirado no Thelema, filosofia-religiosa baseada em um postulado desenvolvido por Aleister Crowley em 1900, um escritor inglês e mago cerimonial. A lei de Thelema resume bem a pregação da banda: “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei“, a mesma pregada por Raul Seixas em “Sociedade Alternativa”. Ainda sobra espaço para um pouco de história, por um ponto de vista um tanto quanto antiquado, convenhamos. Ousado, vale a pena conhecer.

Crítica: Halloween (2018) de David Gordon Green

halloween-david-gordon-green
★★

É um equívoco dizer que a franquia ‘Halloween’ está de volta aos eixos. Tirando a trilha sonora mais do que especial de John Carpenter — que dirigiu o original em 1978 e não mais se envolveu com a franquia como diretor, apenas como compositor da trilha sonora de Halloween 2 (1981) e Halloween 3 (1982) —, Halloween (2018) não bebe em nada do que a franquia, originalmente trouxe para o cinema de horror. O original é importante por ser um dos precursores do Slasher nos Estados Unidos — Mario Bava já tinha lançado Banho de Sangue em 1971 na Itália, então Halloween não é necessariamente o “Slasher original”. Há uma discussão de quem deveria usar essa coroa (Dario Argento também já flertava com o gênero nos anos 1970), bobagem, todos foram importantes para emoldurar o gênero, o original de Carpenter apenas aperfeiçoou o que já vinha sendo feito no decorrer da década. A versão de 1978 nos causava: Ansiedade por causa da trama lenta (a primeira morte só ocorre na faixa dos cinquenta minutos de filme); sentimento de estar sendo observado, afinal Michael Myers observa Laurie (Jamie Lee Curtis) por praticamente toda a duração; claustrofobia pela casa escura e as sequências em cômodos apertados; imersão na atmosfera. Esse último talvez o mais importante para o sucesso, e é exatamente o que mais faz falta no novo Halloween.

Abandonadas as sequências  — isso inclui o segundo filme de 1981, que parece causar confusão em alguns por ser uma continuação direta do primeiro, logo vale lembrar que como consequência o parentesco entre Laurie e Myers também foi descartado —, quarenta anos se passaram desde a fatídica noite em que Haddonfield foi atacada na noite de Halloween pelo implacável Michael Myers, e Laurie, agora já avó, mora isolada nos arredores da cidade, paranoica, se preparando para o inevitável reencontro com o assassino em massa.

O filme abre com um casal de jornalistas visitando Myers no hospício, como ele foi preso não nos é informado. De uma forma mirabolante, um dos jornalistas (que estava preparando um PODCAST sobre os eventos de quarenta anos atrás) tem em posse a icônica máscara usada durante a chacina, após provoca-lo exibindo-a, querendo obter qualquer tipo de reação (frustrado), tem início o hino, tema reestruturado a partir do original, que Carpenter compôs para esse novo capítulo. A trilha de Carpenter é um alívio, ajuda a remeter a atmosfera do original, porém acaba por aí.

É nos momentos seguintes, com Alysson (Andi Matichak ) e Karen (Judy Greer ), (respectivamente, sobrinha e filha de Laurie) que as coisas desandam, assim tão cedo. Cinco minutos de apresentação clichê de personagens maniqueístas e diálogos fúteis. É só Alysson chegar no colégio que já sabemos quem vai brincar de vilão nessa história de triangulo amoroso que se inicia e que se complica, claro, no baile da escola. É difícil imaginar que David Gordon Green e toda sua equipe trabalharam arduamente no roteiro por tanto tempo para no fim, se renderem não só as convenções do gênero slasher, como ainda se perderem nas dimensões baratas de toda ou qualquer produção envolvendo jovens/adolescentes.

Halloween (2018) emula constantemente tudo o que já se foi visto no cinema horror, e não o bastante: Tudo que já se foi visto na própria franquia. Há uma sequência no banheiro que é idêntica à uma de “Halloween: 20 anos depois” (produção de 1998 que foi vendida como “O reencontro final entre Laurie e Michael”). A Laurie bem resolvida de H:20 não está presente, nessa nova versão é uma louca que mora em uma gaiola, que também se prova uma enorme armadilha; com problemas em se relacionar com os outros, devido aos traumas daquela noite de 1978. Esse trauma ainda parece se esticar para uma nova personagem, que no fim, existe apenas para manter a franquia viva após esse (suposto) último capítulo.

Em determinado momento, Michael está solto nas ruas de Haddonfield, a câmera logo invoca Halloween 2, o plano longo em que o assassino caminha livremente pelas ruas misturado ao público festivo. Porém, Gordon Green vai além, sustenta o plano para acompanharmos Michael fazer jus ao termo “Assassino em série”, e de casa em casa, o vemos matar inocentes. A sequência culmina em um pequeno período de tensão ao ouvirmos o chorar de um bebê, Michael vai mata-lo ou não? É a melhor sequência da obra.

A trama ainda reserva uma ‘surpresa’ envolvendo um dos personagens, uma reviravolta ideológica que nos leva a perguntar “Como os três elementos responsáveis pelo roteiro tiveram uma ideia tão tosca?”, soa forçada, e pior: como concordaram entre si, com tal ideia!?. Assinam o roteiro: Danny McBride, Jeff Fradley e o próprio David Gordon Green.

É difícil se decidir quem é o personagem mais redundante em Halloween (2018) — até o título mastigado sem originalidade remete a qualidade do filme, é o terceiro capítulo da franquia que se chama apenas “Halloween” —, talvez Ray (Toby Huss), pai de Alysson, mereça tal título, se limita durante todo o longa à fazer ‘caras e bocas’ e piadas sobre o amendoim que caiu no seu pênis. Ou talvez seja Cameron Elam (o estranho Dylan Arnold), típico arquétipo namorado abobalhado que existe com o simples propósito de criar nuances no roteiro. Esses e mais alguns, que são descartados da trama, não necessariamente vítimas em potencial, só inutilizados pelo corrido enredo que parece estar preocupado apenas com a reta final.

O novo Halloween pode até ter ignorado as sequências, mas tudo que consegue ser é exatamente mais uma delas. O confronto final entre Laurie e Michael até reserva algumas surpresas inventivas e que endereçam diretamente o original, como a inversão de papeis de caça e caçador, mas não é o bastante para desfazer as bobagens dos eventos ocorridos para criar toda a situação em si.

Esse foi o último confronto entre Laurie e Michael? Daqui vinte anos a gente descobre.

Crítica: A Noite nos Persegue (2018) de Timo Tjahjanto

The Night Comes For Us (2018)
★★★★

Desde 2014 em produção, A Noite nos Persegue (The Night Comes for us) passou pelo inferno e voltou. O filme chegou a ser cancelado, iria virar uma graphic novel, por alguma razão o projeto ressuscitou. Geralmente, coisa boa não poderia ser, é comum produções conturbadas se tornarem produtos finais entregues de forma inacabada, com ausência de identidade e outros males, felizmente essa é uma das raras exceções.

Distribuído em alguns mercados pela PT. Merantau Films, empresa que tem como cofundador Gareth Evans, diretor de Operação Invasão e Merantau (daí o nome), logo, já se pode esperar sangue e tripas para todos os cantos. Some isso ao fato de que o diretor é Timo Tjahjanto (de Headshot — disponível na Netflix) e o resultado só pode ser avermelhado.

Lançado aqui no Brasil pela Netflix (de novo ela), “A Noite” prova que não existe limite para a violência nas produções da Indonésia, e de fato estamos falando de um filme sobre violência.

Na trama, Ito (Joe Taslim), é um mercenário que trabalha para a tríade. Durante uma chacina, no lugar de matar a última vítima restante de um vilarejo, uma criança que acabara de presenciar a morte dos pais, Ito resolve salva-la; claro que isso acarreta uma série de conflitos, afinal ele se voltou contra a tríade. Então ele embarca em confronto atrás de confronto, deixando membros decepados  para trás — são pernas, braços e cabeças rolando por 121 minutos —. É uma jornada sem volta, que nos leva até os confins da violência.

Há mais na trama, porém não vale adiantar aqui, e de fato não importa. “A Noite” é uma daquelas produções que não se implica com o roteiro, os clichês do gênero estão por lá, mas são as intermináveis acrobacias violentas de ação que importam para Timo e sua trupe. Diferente do clima de horror que marca as produções com seu irmão Kimo Stamboel, como Assassinos (2014) e Macabre (2009) — ambos são conhecidos como ‘The Mo Brothers’ — , Timo, agora sozinho, busca mais a ação e o thriller da franquia Operação Invasão, clara inspiração.

Por falar na franquia, outros astros foram reescalados além de Joe Taslim. São eles: Iko Uwais e Julie Estelle. Uwais e Taslim são mestres em artes marciais fora das telas, tendo já participado de inúmeros campeonatos grandes antes de se tornarem atores, o que chama mais a atenção nesse caso, é Julie Estelle: A atriz que teve seu primeiro contato com arte marciais em 2013, enquanto rodava Operação Invasão 2 (ela era a “mulher do martelo”), se sai muito bem nas coreografias, fluída, rápida, acompanha bem o ritmo da coreografia. Destaque também para Shareefa Daanish (de Macabre) e Hannah Al Rashid, irreconhecíveis, e que assim como Estelle, demonstram muita intimidade com as complexas cenas de ação. Cenas essas que não abusam de cortes rápidos ou da assombrosa câmera balançando (Shaky Cam). Todos ângulos são amplos e capturam bem toda a dimensão do cenário. Contam ainda com certos momentos inventivos, como a câmera pregada na nuca de Ito, enquanto ele distribui socos e facadas. É muito mais do que A Vilã (The Villainess, 2017) conseguiu ser.

Sempre é usado algum truque ao se adentrar em determinado local onde a carnificina irá tomar conta. Como algum personagem que observa os arredores, a câmera passeia pela locação, é para nos por a par da geografia local. Sem picaretagens, as lutas de armas brancas não escondem a brutalidade do instinto assassino que move todos personagens em tela. Com a exceção da mocinha salva no início do filme (e que criança traumatizada ela será!), todos os personagens que integram a narrativa são vilões, o clima frio e de distanciamento é intencional. De fato não temos com quem se identificar.

Diferente do recente 22 Milhas, a já citada execrável câmera balançando não é usada, o brilho das coreografias bens boladas são somadas à um trabalho de atores invejáveis. O resultado é um tapa na cara no trabalho de Peter Berg, que deveria se envergonhar de desperdiçar a presença de Uwais (em ascensão nos E.U.A.); Então é só apertar os cintos e contemplar a carnificina, e se no fim seu apetite por sangue ainda não estiver saciado é melhor procurar ajuda.

Crítica: Jailbreak (2017) de Jimmy Henderson

Filme é ainda pior do que aparenta.

MV5BNDAzY2EwYWUtMTY1Yi00YmUxLTgyNzAtMjI5YTczNTQ5MTRiXkEyXkFqcGdeQXVyNDY2MTU0MzY@._V1_

Não se deixe levar pela introdução no estilo seriado de pouca qualidade (como os muitos presentes na Netflix) que abre “Jailbreak”, com instabilidade na edição e uma aparência de amador, o filme consegue ser muito pior do que aparenta em seus minutos iniciais.

A trama gira em torno de uma grupo de policiais que ficam encarregados de escoltar um prisioneiro, que atende pelo nome de PlayBoy, até uma prisão de segurança máxima. Lá, uma rebelião se inicia, arquitetada por um sindicato criminoso formado apenas por mulheres (da qual PlayBoy fazia parte — ele era o único homem) para dar cabo do futuro prisioneiro pelo seu recente delato. Logo, o grupo de policial fica preso no meio da rebelião, e o jeito é partir para a pancadaria para sair com vida.

É de praxe no gênero uma trama pobre e sem nenhum desenvolvimento, usada como desculpa para a ação acontecer. Mas e quando a ação não compensa toda essa bobeira? Afinal, até mesmo a babaquice tem que ter um limite!

Em certo momento o grupo tem acesso a um celular, rapidamente ligam para o chefe encarregado, ele não atende, estava no banho, paciência… O telefone então se torna inútil. Não se pode ligar para mais ninguém no mundo, tem que esperar o encarregado retornar a ligação. São besteiras como essas que nos fazem desligar o cérebro para se concentrar na pancadaria, mas o problema não acaba aí.

Em outro momento, cansada de esperar resultados de dentro da prisão, a arquiteta de toda a situação (que pagou para matar PlayBoy) decide invadir a prisão para dar cabo do traidor ela mesma, portando apenas uma katana, e na companhia de outras mulheres, todas vestidas de couro e salto alto, invadem a prisão, ainda em rebelião, com dois minutos. “É uma longa história” a líder responde quando indagada como invadiu a prisão deserta (talvez fosse domingo e todos os policiais da cidade se encontravam de folga). Claro que não podia faltar o close-up na ‘bunda’ de cada uma das moças enquanto elas desfilam em slow motion pelos corredores vazios do cenário mal feito da prisão, que se resume apenas nisso: corredores e mais corredores.

Deixando a trama boba de lado, nos resta os aperitivos do gênero proposto pelo filme: artes marciais e comédia.

As lutas são compostas pelo único acerto do longa: o trabalho estável de câmara. O que deveria ser uma obrigação no gênero (como era nos anos 1970, 1980 e 1990) se tornaram um mérito em época de mediocridades como “The Equalizer” ou “A Colombiana”. A câmera emula o visto em Operação Invasão, longa que obviamente serviu de inspiração para JailBreak, há inclusive a câmera dinâmica que acompanha um corpo atirado ao chão, fazendo o movimento em 180° até que se tenha a imagem de ponta cabeça, retornando para a posição normal de forma a acompanhar o retorno do atingido para mais um round. Esse truque já foi emulado recentemente, em “Headshot“, mas tudo bem, JailBreak é uma produção da Camboja, país sem tradição no gênero.

Mesmo em meio ao bom trabalho de câmera, as coreografias podem parecer mais falsas do que o normal, os atores até que são bons, mas os movimentos são toscos com apenas alguns lapsos de bons momentos, faltou cortes mais precisos nos momentos de ataques mais complexos, parecia uma obrigação capturar tudo em plano sequência.

O diretor italiano Jimmy Henderson, ciente do absurdo da trama, resolveu colocar muito humor, sem saber que esse seria o prego final no caixão do longa. É de extremo mau gosto a comédia repetitiva de ‘caras e bocas’ forçadas durante todo o tempo por personagens concebidos como alívio cômico.

Já não basta toda a idiotice que se desenrola pelos seus 92 minutos, ainda sobra tempo para uma resolução patética e banal durante os créditos, não foi dessa vez que a Camboja produziu um bom filme de artes marciais, mas a culpa deve ser atribuída a incompetência de seu diretor, que já conta com mais dois filmes em pós produção, alguém pare esse homem!

As duas horas de catarse com Roger Waters em Belo Horizonte

WhatsApp Image 2018-10-22 at 03.18.39
★★★★★

Eram 21:10 quando as luzes parcialmente se apagaram no estádio do Mineirão, um vídeo era exibido no enorme telão para as mais de 50 mil pessoas presentes, ansiosos para ver o ex-Pink Floyd. A imagem nos convidava a contemplar uma mulher, de costas para nós, observando o longínquo horizonte em uma praia deserta. “Começa logo” alguns gritaram, sem se dar conta de que na verdade, já havia começado. O vento lentamente se fundia com o batimento cardíaco e os ruídos iniciais de Speak to Me, é um convite ao estado atmosférico. O céu sob o horizonte lentamente se torna vermelho, é então que a introdução de quase quinze minutos termina, os músicos entram no palco, e os primeiros acordes de Breathe (In the Air) podem finalmente ser ouvidos. Os gritos são intensos, tomam conta do estádio, até dificulta ouvir a banda. “Já começaram a tocar?”, reagem os menos atentos. O coro era unânime, durante seus quase três minutos, o que se tinha era uma catarse geral, e isso era apenas o início.

A instrumental “One of these Days” vem logo em seguida para reforçar o tom psicodélico do Pink Floyd, o público ainda era um só, pouco se ouvia sobre “Ele Não” e afins. Até então, a multidão só tinha a purgação de suas paixões, isso se estendeu pelas canções seguintes. A fusão dos efeitos visuais presentes no telão fazia a tarefa de cantar em plenos pulmões uma dificuldade. Hipnotizante demais, era muito o que se admirar.

A tela, nunca uma mera reprodução do que se acontecia no palco, sempre uma reprodução com efeitos visuais impressionantes, a imagem dos músicos se fundiam com as viagens alucinantes das rimas visuais. Em Time, um mar de relógios eram despejados e se fundiam em uma espécie de íris. Meticulosamente pensado, Roger estava no centro da imagem, com sua posição sempre curvada, tocando seu baixo. Mas ele não é o único protagonista, ‘The Great Gig in the Sky’ abre espaço para Jess Wolfe e Holly Laessig da banda americana Lucius, cantarem em um tom hermético, em vários tempos, difundindo o canto da versão original, uma mudança mais do que bem-vinda, o estado hipnótico é constante e as lágrimas já escorriam em cascata.

“Welcome to the Machine” — música com forte presença de sintetizador, que ecoou por vários cantos do estádio em uma incrível distribuição de caixas, criavam uma constante procura pela fonte sonora. Essa versão ao vivo ficou ainda melhor do que a versão de estúdio, um incrível feito, pois trata-se de uma grande música do álbum “Wish you were Here”.

É então que o trio ‘Déja Vu’, ‘The Last Refugee’ e ‘Picture That’ do álbum solo de Waters, Is This the Life We Really Want? ganham o ar da graça, maravilhosas canções humanísticas que calaram o público, não por sua espantosa performance, mas pela falta de tato dos presentes com o trabalho solo de Roger Waters, é como se estivessem ali apenas para ver “Pink Floyd por Waters”! Não importa, os sete minutos de ‘Picture That’ foram esmagadores e já deixaram a deixa para “Wish you were Here”. O coro mais uma vez era unânime por todo o estádio e as lágrimas, mais uma vez uma realidade.

Quase cinquenta minutos se passaram desde o início da apresentação, era chegada a hora definitiva, “Finalmente!”, alguém gritou durante os acordes iniciais, já sabíamos o que esperar, era “The Happiest Days of Our Lives”, que anunciava o hino: Another Brick in the Wall! O Mineirão cai por terra, uniforme no coro, dividido em ideologia política. À esquerda, “Ele Não” ecoou durante boa parte da música, à direita, “Ele Sim” e “Mito” se somaram aos sons de vaias. As crianças belohorizontinas encapuzadas no palco, gradualmente revelaram seus rostos e a palavra “RESIST”, em sua camisa. Ao fim, a palavra também aparece no enorme telão. Era hora da divisão, a polarização política se intensifica.

Agora são quinze minutos de espera, uma pausa no evento. Hora de acompanhar os letreiros que anunciam: ‘Resist who?’ (Resistir à quem?) e suas explicações. Era um cenário tenso, algumas pessoas da pista premium se aproximaram da Pista Comum (onde eu estava), e fizeram gestos de ‘Bolsonaro 17’, a moçada do Ele Não nada podia fazer além de xingar, e jogar cerveja nos opositores que estavam na Premium, divididos até pelo preço do ingresso. Bobagens. O coro “música, música, música” era mais interessante.

Segunda parte do show, surge DOGS — alguns abandonaram a manifestação, mas liricamente, ainda estamos falando sobre política, Pink Floyd sempre criticou ambos os lados, e mais importante, sempre abordou temas políticos, logo, não esperar por abordagens políticas por parte do público é querer demais, ainda mais em um cenário como a do Brasil atual. Interessante será o show em Porto Alegre, independente das ideologias do público presente por lá, as eleições já terão se concretizado — a música se estende por quase vinte minutos. Algum maluco sobe na estrutura metálica do som e acende um cigarro, se queria chamar atenção não conseguiu, o show era interessante demais para perder tempo desviando o olhar, independente do que houve com o indivíduo, só causou danos a si mesmo.

O cenário que passa por uma metamorfose até se assemelhar a capa do álbum Animals, reforça que estamos diante de um espetáculo que vai além da música, uma verdadeira manifestação artística audiovisual, o visual onírico se intensifica. O estado de hipnose já era constante, a música somada aos efeitos já criavam a atmosfera apoteótica. É então que o grande porco flutuante sai pelo canto esquerdo do palco para sobrevoar todo o estádio, é a vez da música, de título bem sugestivo, “Pigs (Three Different Ones)”. O que fazer?: Cantar e assistir os músicos? Observar o porco voador? Acompanhar as duras críticas ao presidente Trump exibidas na enorme tela? Cada um se vira como pode. No meu caso, estava em estado de transe profundo, estático, hipnotizado demais para esbanjar qualquer reação.

Com máscaras de porcos, os membros no palco tomam champanhe, Roger ainda exibe a placa “Pigs rule the World” (Porcos governam o mundo), para logo em seguida, exibir uma segunda: “Fuck the Pigs” (Fodam-se os porcos).

O porco voador cai no meio do público à direita da pista. Não demorou para ser destruído por completo. A frase “Stay Human” cravadas no corpo do animal já não existia mais, foi dilacerado. Para alguns, uma lembrança, para outros, uma alegoria: Um senhor, após rasgar o porco inflável, amarra os seus resto na sua cabeça em tom de ironia e oposição. “Aqui está os restos mortais da Dilma e do PT”, grita outro, levantando a parte para o alto com os punhos fechados. Muitos outros, ainda chocados pelo ocorrido (intencional ou não), estáticos. É o melhor momento do evento!

O coro “Ele Não” retorna, saía da boca de muitos que sequer se moviam durante todo o evento, talvez tenham ido apenas para se manifestar? (é inteligível, afinal o show dá cordas para tal). E eu… ainda em transe, a única coisa que me ocorreu foi chorar mais uma vez! As guitarras de Dave Kilminster e Jonathan Wilson finalmente atingiram minh’alma — toda essa manifestação do público causada pela arte ainda em vigor no palco não poderia ter me causado nada diferente se não essa tempestade de emoções satisfatórias.

Em “Money”, Ian Ritchie surge no topo, ao lado das torres, com seu saxofone, poucos o enxergaram lá, isolado. A música mais uma vez une o público só para rapidamente se dividirem com Us + Them, é compreensível, mais uma vez estamos falando de guerra e política (não que o capitalismo de Money não faça parte).

Em Brain Damage e em Eclipse, flashes de luzes coloridas formam o arco-íris que atravessa o prisma formado por Lêiseres. Está formado a imagem que ilustra “The Dark Side of the Moon”. Invejo os que encontraram forças para cantar nesse momento, pois tudo que consegui fazer foi ficar como uma estátua, feliz e mais uma vez, impressionado demais, para fazer qualquer outra coisa. Aprender a letra de todo o álbum se provou inútil nesses momentos. Tinha ainda, uma esfera negra que circulava pelo estádio, que somada as várias luzes do local, formaram um maravilhoso buraco negro. Era o visual que faltava para complementar o prisma em meio ao espaço.

Um breve (porém belo) discurso de Roger sobre igualdade e cuidados com o planeta já antecipam as últimas músicas do evento. Sem ‘Mother’, a opção foi Two Suns in the Sunset (presente em The Final Cut), uma surpresa que deixou muita gente confusa.

Chegou o momento derradeiro, hora de Comfortably Numb, então é adeus. Os celulares mais uma vez se mostram presente para registrar a performance, por uma última vez (não é o meu caso), a música une todos em um único coro, e mais uma vez, as palavras não saiam, apenas o choro, já estava até mesmo nostálgico.

A imagem inicial volta a tela! Chegou o fim, todos deixam o estádio eufóricos, cansados — alguns até mesmo bêbados, se escorando em outros para não cair, talvez no outro dia se deem conta do desperdício.

Todos já sabíamos o que esperar do clima político do espetáculo, e independente da ideologia dos presentes nesse dia vinte e um de outubro de dois mil e dezoito, todos contemplamos um evento artístico. E que maravilhosa a arte que nos une em um único coro, mesmo que momentaneamente.

 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.