Ataque dos Titãs: Temporada 1 — Como é bom esquecer!

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Final de 2013, cinco anos atrás, a primeira temporada de “Ataque dos Titãs” já havia terminado no Japão, na época pouco se falava em Crunchyroll — sequer me lembro se já estava disponível no Brasil, não importa.

Decidi dar uma chance para o “anime da temporada”, da qual todos estavam falando. Resultado: Vi tudo em um só dia, pois é, em uma só sessão, devorei todos os 25 episódios, sem parar. Me custou todo o sábado, mas como valeu a pena, no fim do dia, estava emocionado com tamanha proporção épica, e o melhor: era apenas o começo. Já não podia viver sem a segunda temporada.

O tempo passou, e devido a minha escolha de esperar o anime e não partir para o mangá (minha política vai contra ler mangá online), sou fiel — mentira, estava sem grana na época em que o mangá começou a ser comercializado, já naquele final de 2013, estava acompanhando (e ainda acompanho) Berserk pela Panini, que é uma obra inadaptável (um dos melhores mangás de todos os tempos), pelo menos é isso que os estúdios japoneses provaram até o momento, principalmente a última (lamentável) adaptação que… ah vá!

Foco: O tempo passou, outras boas animações vieram com o tempo, revi muitas outras, mais antigas, e “Ataque” se tornou uma espécie de Bleach para mim, “nunca vou saber o final daquela bagaça” (lembre-se da minha política); até que em algum momento de 2016 (memória falha) o anúncio: Shingeki no Kyojin temporada 2!, “Dane-se, já não faço mais questão.”, esse foi o meu pensamento quando topei com o teaser, para piorar ainda, era só em 2017 que seria exibida. Anime por temporada é o inferno, às vezes dá saudades dos fillers (aí me lembro de Bleach e as pernas tremem), por falar nisso onde está Magi temporada 3? Vai saber.

Passadas as Temporadas 2 e 3, reencontrei minha antiga camisa do Ataque dos Titãs, a muito perdida no guarda-roupas (sou desses), então uma chama reacendeu. O acesso é ainda mais fácil hoje em dia — não que na época já não fosse, ou algum fã de anime não baixa aquele mkv básico? —, mas hoje tenho o Crunchyroll, bastou um clique para começar a reviver a mágica.

Foi só quando a música de abertura da banda Linked Horizon começou a tocar que percebi o quanto sentia falta dessa bobeira toda (nunca pulei essa abertura, fico triste quando ela é substituída). Sabe o melhor de tudo? Sequer me recordava dos eventos, já não me lembrava dos fatos, dos acontecimento inusitados, o pouco que me lembrava, estava embaralhado, então não lembrava como chegaria a acontecer.

Como era o Capitão Levi mesmo? — como é bom esquecer, pude me surpreender novamente com sua presença, claro que não só isso, todo o contexto por detrás da Titã Fêmea me era um grande borrão duvidoso, talvez seja efeito por ter visto tudo em um só dia?

Apesar dos rodeios (normal, ainda estamos falando de um Shounen — há quem diga que se trata de um Seinen, mas o mangá é publicado na revista Bessatsu Shōnen Magazine, ainda tem dúvida?), a melhor coisa são as surpresas em cada esquina. São muitos os pontos de virada. Em cada batalha, consequências, algumas delas, são terríveis (no bom sentido) e deixa aquele gosto amargo de: “Mas, eu gostava desse personagem, e ele morreu dessa forma grotesca?” Com as tripas arrancadas ou com a cabeça arrancada em uma só mordida! Melhor já ir se acostumando com a ideia de que todos os personagens que rodeiam Eren (protagonista) e Mikasa (mais legal que o Eren) não estão salvos.

Não para por aí, além desse frio na barriga, as consequências não são apenas momentâneas, o que faz de muitos eventos, traumas reais. Personagens remoem, se desesperam, choram, chamam pela mãe (clássico), se arrependem, tomam decisões precipitadas e sentem medo, muito medo antes de um confronto. É o que humaniza os bonecos que rodeiam os Titãs como baratas, o que é raro no gênero.

A humanidade está praticamente dizimada, o que restou, está concentrada dentro das muralhas (uma espécie de Zion), há várias etnias juntas e, claro, muita discórdia. O melhor da trama de Hajime Isayama (o mangaká), é sua sutil habilidade de trabalhar a sociedade. Se eles veem algo que não compreendem, querem a destruição daquilo; se o contexto social muda, novos Deuses aparecem (ou não necessariamente, há quem adore os grandes muros da muralha como divindades reais); há ainda a briga de classes, os esnobes políticos e burgueses também estão por lá. Ainda acho que no fim, ele vai estabelecer alguma analogia de que estamos lutando contra nós mesmos, ou algo do tipo, o que abriria espaço para um ótimo debate se ele souber conduzir bem a trama (medo).

Nem tudo são flores, a animação que outrora era impecável aos meus olhos, agora se revela plástica, opaca, até mesmo sem vida em alguns momentos (não se aplica as batalhas contra os titãs), e com momentos de imagem estática que parecem ter sido simplesmente retiradas do mangá e jogadas na tela. O Eren, esse chato, faz jus ao título de protagonista de Shounen, constantemente se esforçando para ser o mais estúpido de todos. Me disseram que a animação deu um salto gigantesco nas temporadas recentes, que bom que o estúdio não deu uma de Toei e regrediu uns vinte anos (One Piece tem a animação hoje, pior do que tinha em 2000).

Claro, já terminei a primeira temporada, dessa vez, vendo mais lentamente, mais atento, finalizando bem a tempo de coincidir com o início das férias da faculdade. Resumindo: Vou devorar os episódios das demais temporadas disponíveis, que não são muitos, mas o mangá está quase acabando, então quem sabe a próxima temporada não demore vinte anos (nem vi a segunda ainda mas quero garantia que vai retornar logo, cadê Magi?).

Crítica: Em Chamas (2018) de Lee Chang-dong

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★★★★

A partir do momento em que o aspirante a escritor Lee Jong-su (Ah-In Yoo, de ‘O Veterano’) reencontra Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), amiga de infância, é como se um longo pavio fosse aceso, com o fogo queimando de forma gradual, sem pressa. A trama de “Em Chamas”, novo trabalho do diretor sul coreano Lee Chang-dong, é como pequenas faíscas que resultam em um incêndio descontrolado.

O que começa como um drama, que aparenta se basear em temas como inclusão, se revela um olhar metafórico entre diferenças e relacionamentos de duas diferentes classes sociais, não o bastante, a trama evolui na segunda metade para um suspense psicológico intenso, onde um personagem simplesmente desaparece e dá início a um jogo de aflições.

Se o fogo começa a queimar após o reencontro com a inusitada Hae-mi, ele fica mais intenso quando Ben, personagem de Steven Yeun (The Walking Dead), esgueira pelas beiradas do abrupto relacionamento entre Lee Jong-su e Shin Hae-mi. Se Jong-su dirige uma caminhonete antiga, com lataria parcialmente enferrujada, Ben dirige um Porsche; enquanto Jong-su mora em uma pequena casa no campo, afastado da cidade, Ben mora em Gangnam — bairro nobre de Seoul que ficou famoso pela música “Gangnam Style” do rapper sul-coreano PSY” — É aí que começa o conflito de classes.

Arma-se certa disputa, o troféu é a atenção da garota, de temperamento bipolar, que está em busca de seu lugar no mundo, em busca de um sentido para a vida. Essas características são tudo que sabemos dela, pois o resto é rodeado por grandes dúvidas: “Alimente meu gato no tempo que estou fora!”, pede Hae-mi à Jong-su pouco antes de embarcar em uma viajem para a África, nunca vemos o tal gato no apartamento, muito menos Jong-su. “Lembra-se quando cai no poço perto da minha casa?” Jong-su não se lembra, o proprietário diz não se lembrar sequer da existência de um poço, a mãe de Jong-su, essa sim se lembra, não sabemos em quem confiar, essa e muitas outras teias de informações são despejadas em meio as incertezas, cabe a nós buscar as respostas.

E é assim, em meio as dúvidas que a trama anda, elas se agravam calmamente, de acordo com os acontecimentos que rodeiam o trio de personagens. Quando um deles desaparece, a dúvida se intensifica, a chama do pavio se aproxima do fim, até que explode em um conflito, o pobre sempre culpa o rico (ou vice-versa).

Recheado de metáforas para o mal estar da sociedade sul coreana, “Em Chamas” consegue dialogar com o aqui e com o agora. O Brasil em que vivemos!

Em determinado momento, Jong-su está andando para lá e para cá em sua casa. Na TV, com suas caras e bocas, um discurso do presidente Trump está sendo exibido no noticiário. Jong-su não presta atenção no conteúdo, nós sim. É o discurso da desigualdade, a mesma que lembra Jong-su de sua pequenez, sempre que seu adversário aparece em seu ‘carrão’ para disputar amigavelmente Hae-mi. Mas seria Ben um esnobe, ou um ingênuo?

Longe de dialogar apenas com um lado da moeda, o diretor coloca sinais de ambos os lados, denunciando os conflitos que os cercam. Até os pequenos gestos, como o bocejar de tédio daquele que se rodeia de pessoas para preencher seu próprio vazio (ou seria ego?) — Cada gesto é válido e importante, mais uma vez Lee Chang-dong não decepciona.

O filme foi o selecionado pela Coreia do Sul como o representante do Oscar. Sem surpresas aqui, dificilmente algum filme sul coreano poderia bater essa horripilante metáfora social, que vai muito além de Seoul, e nos atinge diretamente, do outro lado do mundo.

Crítica: As Senhoras de Salem (2013) de Rob Zombie

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Os personagens da filmografia de Rob Zombie seguem vários estereótipos: São roqueiros e de aparência ‘rebelde’; boca suja; explosivos e não pensam muito. Se eles funcionam muito bem em “Rejeitados pelo Diabo”, seu melhor filme, em “As Senhoras de Salem” eles flertam com a mediocridade e abraçam de vez o absurdo, o ilógico (já ensaiado no remake de Halloween).

Heidi (Sheri Moon Zombie, que só é escalada para os filmes do diretor, vai ver por ser sua esposa), é uma locutora de rádio, que recebe em determinado dia, um vinil endereçado diretamente a ela, o remetente é assinado apenas como o grupo “The Lords”. Ao transmitir a música na rádio, Heidi, e outras mulheres espalhadas pela cidade de Salem que estavam antenadas, entram em um estado de transe.

O longa se propõe em acompanhar esse estado alterado de consciência através de imagens desconexas, amarradas ao sonho. A tal música do The Lords, resgata os sons do passado obscuro de Salem e expõe as várias mulheres à uma hipnose sensorial contínua, que as levam a seguir um passo a passo para concretizar um ritual em grande escala.

Zombie invoca as produções de horror dos anos 1960, não só constantemente paga homenagens, como também recria o terror opressivo que vai além dos sustos fáceis, e coloca ‘apenas’ o espectador a par do mal que rodeia as personagens, excluindo-as da ação em volta.

A montagem que por traz, sonho após sonho, imagens surreais, apocalípticas e que evidenciam em fragmentos os planos por detrás do ritual, são repetitivas e aparentam ser a saída ideal para estender a duração do filme. E é assim, pelo tempo que se estende, que As Senhoras de Salem se leva. Fragmento após fragmento, montagem após montagem, é pedante, demasiado abrangente, equivocado.

Rob Zombie deixa de fora dessa vez o sexo estranho das demais produções que carregam seu nome, mas não poderia faltar a nudez gratuita: Zombie tem um fetiche por filmar as silhuetas de sua esposa e coloca-las na tela — Gosta de evidenciar as curvas femininas em momentos inoportunos, fica feio, soa exagerado e deslocado, sem substância.

Os demais personagens que complementam a trama são constantemente descartados e/ou simplesmente esquecidos. Zombie parece tentar recriar o ritual das bruxas do cinema clássico com: música inaudível, quase um ruído; orações pagãs e bruxas de aparência velha e enrugada; cabras em volta do cenário abrasado. Funciona bem nos momentos mais surreais.

Os sonhos clarividentes que pintam o eminente ritual são compostos por uma montagem rápida, decupagem semelhante a de uma vídeo clipe, são repetitivos e evidenciam a falta de tato de Zombie como diretor.

Esteticamente, esse longo vídeo clipe de uma hora e quarenta minutos alcança raras passagens de belas imagens estáticas, mas que não se justificam por serem desconexas, mais uma vez, avulsas demais. O trailer já bastaria, pois é mais gratificante e ao menos justifica a montagem absurda.

 

Não ignore os vídeo clipes do ‘Behemoth’

Se você é fã de música extrema, não ignore os clipes da banda de Black/Death Metal, Behemoth. Mesmo ainda sendo, na nata, um meio de promover a música, os vídeos abusam da criatividade na hora de transpor as letras para o ecrã.

Ignorados os clipes pré-Lúcifer (que falhavam no deslocamento para imagem, ou seja, era mais do mesmo), são em suma, uma forma de narrativa que consegue ecoar o tema das letras com estética (arrisco dizer) cinematográficas.

A montagem composta por frequentes cortes, característica de clipes musicais, ainda estão lá em boa parte das produções, porém, o que mais chama a atenção é a habilidade de traduzir as blasfêmias ritualísticas líricas em imagem, os corpos nus que frequentemente fazem parte das produções, emulam o paganismo liberal que a banda prega, também a liberdade de expressão.

Vindo da Polônia, país onde segundo pesquisas, 80% da população adere à fé cristã, Behemoth tem realmente algo a dizer. O discurso se estende além da liberdade de expressão, e aborda temas como: Satanismo (quase didático), que procura debater a figura satânica como símbolo de soltura, um livramento das amarras conservadoras; uma alegoria à oposição do pensamento majoritário; ao ensinamento parcial e político totalitário; e também os (comuns no gênero) desejos obscuros do subconsciente.

O clipe de Lúcifer, que, como já citado, inaugura a nova onda de vídeos da banda, traz a tona o didatismo rigoroso dos enquadramentos que capturam o pensamento não convencional.

Na contra mão, sem apelar para o tradicionalismo simplista, como a captura da banda tocando em lugares exóticos ou nos piores casos, debaixo de forte chuva em local abandonado. Os vídeos recentes fazem questão de abandonar esse padrão clichê, e no lugar de separar a banda da narrativa, como se o grupo estivesse isolado da situação problema — é comum atores ficarem independentes, movendo a narrativa lírica na dramatização dos eventos, enquanto a letra é cantada à parte —, os vídeos do Behemoth unem ambas as partes, colocam Nergal (Holocausto) no centro, o vocalista é o protagonista do conto. É certo que até aí não é nenhuma novidade, se colocado em contexto geral então, existe aos montes, mas é da música extrema que falo, do Death Metal, Black Metal, etc.

Deleites visuais — Se por vezes mais animalesco, como é o caso da ótima, porém exagerada, Messe Noire, que com os ambientes escuros e forte presença de refletores em formato pisca-pisca, traz atmosfera opressiva e aterrorizante. O que mais chama a atenção são as mais claras, com imagem mais brandas, com maior presença de uma fotografia cinematográfica, menos cartunesca, como: “O Father, O Satan, O Son“, que mesmo abusando do Slow Motion alcança a beleza nos movimentos (raro de se ver); a imagem narrativa lenta de “Ben Sahar” (mais antiga) que contraria a batida sonora, e opta por um preto e branco mais acinzentado, um Béla Tarr musical; “Bartzabel” (mais recente) que abusa da cerimônia de invocação e não poupa os detalhes ritualísticos envolvendo mulheres completamente nuas — uma afronta aos padrões imagéticos de um vídeo clipe; “Blow your Trumpets Gabriel“, a mais profana dentre as citadas, (presente no álbum The Satanist), busca a montagem rápida, mas sem abandonar o contraste atípico das produções (pós Lúcifer) da banda, com capturas dignas que gritam beleza; por fim, retornando mais uma vez aos tempos recentes, “God=Dog” busca o extremismo estético presente nos outros vídeos (o pênis sempre deve pegar muita gente de surpresa) mas abandona a captura ampla da imagem e se concentra mais nos closes dos corpos em vaivém violento e com edição mais tradicional (“Woves of Siberia” segue o mesmo molde).

Tudo isso é imagem! E quanto a música em si? (não deve agradar os que genuinamente desgostam de metal extremo): São poesias de cunho liberal, fortemente inspirado no Thelema, filosofia-religiosa baseada em um postulado desenvolvido por Aleister Crowley em 1900, um escritor inglês e mago cerimonial. A lei de Thelema resume bem a pregação da banda: “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei“, a mesma pregada por Raul Seixas em “Sociedade Alternativa”. Ainda sobra espaço para um pouco de história, por um ponto de vista um tanto quanto antiquado, convenhamos. Ousado, vale a pena conhecer.

Crítica: Halloween (2018) de David Gordon Green

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★★

É um equívoco dizer que a franquia ‘Halloween’ está de volta aos eixos. Tirando a trilha sonora mais do que especial de John Carpenter — que dirigiu o original em 1978 e não mais se envolveu com a franquia como diretor, apenas como compositor da trilha sonora de Halloween 2 (1981) e Halloween 3 (1982) —, Halloween (2018) não bebe em nada do que a franquia, originalmente trouxe para o cinema de horror. O original é importante por ser um dos precursores do Slasher nos Estados Unidos — Mario Bava já tinha lançado Banho de Sangue em 1971 na Itália, então Halloween não é necessariamente o “Slasher original”. Há uma discussão de quem deveria usar essa coroa (Dario Argento também já flertava com o gênero nos anos 1970), bobagem, todos foram importantes para emoldurar o gênero, o original de Carpenter apenas aperfeiçoou o que já vinha sendo feito no decorrer da década. A versão de 1978 nos causava: Ansiedade por causa da trama lenta (a primeira morte só ocorre na faixa dos cinquenta minutos de filme); sentimento de estar sendo observado, afinal Michael Myers observa Laurie (Jamie Lee Curtis) por praticamente toda a duração; claustrofobia pela casa escura e as sequências em cômodos apertados; imersão na atmosfera. Esse último talvez o mais importante para o sucesso, e é exatamente o que mais faz falta no novo Halloween.

Abandonadas as sequências  — isso inclui o segundo filme de 1981, que parece causar confusão em alguns por ser uma continuação direta do primeiro, logo vale lembrar que como consequência o parentesco entre Laurie e Myers também foi descartado —, quarenta anos se passaram desde a fatídica noite em que Haddonfield foi atacada na noite de Halloween pelo implacável Michael Myers, e Laurie, agora já avó, mora isolada nos arredores da cidade, paranoica, se preparando para o inevitável reencontro com o assassino em massa.

O filme abre com um casal de jornalistas visitando Myers no hospício, como ele foi preso não nos é informado. De uma forma mirabolante, um dos jornalistas (que estava preparando um PODCAST sobre os eventos de quarenta anos atrás) tem em posse a icônica máscara usada durante a chacina, após provoca-lo exibindo-a, querendo obter qualquer tipo de reação (frustrado), tem início o hino, tema reestruturado a partir do original, que Carpenter compôs para esse novo capítulo. A trilha de Carpenter é um alívio, ajuda a remeter a atmosfera do original, porém acaba por aí.

É nos momentos seguintes, com Alysson (Andi Matichak ) e Karen (Judy Greer ), (respectivamente, sobrinha e filha de Laurie) que as coisas desandam, assim tão cedo. Cinco minutos de apresentação clichê de personagens maniqueístas e diálogos fúteis. É só Alysson chegar no colégio que já sabemos quem vai brincar de vilão nessa história de triangulo amoroso que se inicia e que se complica, claro, no baile da escola. É difícil imaginar que David Gordon Green e toda sua equipe trabalharam arduamente no roteiro por tanto tempo para no fim, se renderem não só as convenções do gênero slasher, como ainda se perderem nas dimensões baratas de toda ou qualquer produção envolvendo jovens/adolescentes.

Halloween (2018) emula constantemente tudo o que já se foi visto no cinema horror, e não o bastante: Tudo que já se foi visto na própria franquia. Há uma sequência no banheiro que é idêntica à uma de “Halloween: 20 anos depois” (produção de 1998 que foi vendida como “O reencontro final entre Laurie e Michael”). A Laurie bem resolvida de H:20 não está presente, nessa nova versão é uma louca que mora em uma gaiola, que também se prova uma enorme armadilha; com problemas em se relacionar com os outros, devido aos traumas daquela noite de 1978. Esse trauma ainda parece se esticar para uma nova personagem, que no fim, existe apenas para manter a franquia viva após esse (suposto) último capítulo.

Em determinado momento, Michael está solto nas ruas de Haddonfield, a câmera logo invoca Halloween 2, o plano longo em que o assassino caminha livremente pelas ruas misturado ao público festivo. Porém, Gordon Green vai além, sustenta o plano para acompanharmos Michael fazer jus ao termo “Assassino em série”, e de casa em casa, o vemos matar inocentes. A sequência culmina em um pequeno período de tensão ao ouvirmos o chorar de um bebê, Michael vai mata-lo ou não? É a melhor sequência da obra.

A trama ainda reserva uma ‘surpresa’ envolvendo um dos personagens, uma reviravolta ideológica que nos leva a perguntar “Como os três elementos responsáveis pelo roteiro tiveram uma ideia tão tosca?”, soa forçada, e pior: como concordaram entre si, com tal ideia!?. Assinam o roteiro: Danny McBride, Jeff Fradley e o próprio David Gordon Green.

É difícil se decidir quem é o personagem mais redundante em Halloween (2018) — até o título mastigado sem originalidade remete a qualidade do filme, é o terceiro capítulo da franquia que se chama apenas “Halloween” —, talvez Ray (Toby Huss), pai de Alysson, mereça tal título, se limita durante todo o longa à fazer ‘caras e bocas’ e piadas sobre o amendoim que caiu no seu pênis. Ou talvez seja Cameron Elam (o estranho Dylan Arnold), típico arquétipo namorado abobalhado que existe com o simples propósito de criar nuances no roteiro. Esses e mais alguns, que são descartados da trama, não necessariamente vítimas em potencial, só inutilizados pelo corrido enredo que parece estar preocupado apenas com a reta final.

O novo Halloween pode até ter ignorado as sequências, mas tudo que consegue ser é exatamente mais uma delas. O confronto final entre Laurie e Michael até reserva algumas surpresas inventivas e que endereçam diretamente o original, como a inversão de papeis de caça e caçador, mas não é o bastante para desfazer as bobagens dos eventos ocorridos para criar toda a situação em si.

Esse foi o último confronto entre Laurie e Michael? Daqui vinte anos a gente descobre.

Crítica: A Noite nos Persegue (2018) de Timo Tjahjanto

The Night Comes For Us (2018)
★★★★

Desde 2014 em produção, A Noite nos Persegue (The Night Comes for us) passou pelo inferno e voltou. O filme chegou a ser cancelado, iria virar uma graphic novel, por alguma razão o projeto ressuscitou. Geralmente, coisa boa não poderia ser, é comum produções conturbadas se tornarem produtos finais entregues de forma inacabada, com ausência de identidade e outros males, felizmente essa é uma das raras exceções.

Distribuído em alguns mercados pela PT. Merantau Films, empresa que tem como cofundador Gareth Evans, diretor de Operação Invasão e Merantau (daí o nome), logo, já se pode esperar sangue e tripas para todos os cantos. Some isso ao fato de que o diretor é Timo Tjahjanto (de Headshot — disponível na Netflix) e o resultado só pode ser avermelhado.

Lançado aqui no Brasil pela Netflix (de novo ela), “A Noite” prova que não existe limite para a violência nas produções da Indonésia, e de fato estamos falando de um filme sobre violência.

Na trama, Ito (Joe Taslim), é um mercenário que trabalha para a tríade. Durante uma chacina, no lugar de matar a última vítima restante de um vilarejo, uma criança que acabara de presenciar a morte dos pais, Ito resolve salva-la; claro que isso acarreta uma série de conflitos, afinal ele se voltou contra a tríade. Então ele embarca em confronto atrás de confronto, deixando membros decepados  para trás — são pernas, braços e cabeças rolando por 121 minutos —. É uma jornada sem volta, que nos leva até os confins da violência.

Há mais na trama, porém não vale adiantar aqui, e de fato não importa. “A Noite” é uma daquelas produções que não se implica com o roteiro, os clichês do gênero estão por lá, mas são as intermináveis acrobacias violentas de ação que importam para Timo e sua trupe. Diferente do clima de horror que marca as produções com seu irmão Kimo Stamboel, como Assassinos (2014) e Macabre (2009) — ambos são conhecidos como ‘The Mo Brothers’ — , Timo, agora sozinho, busca mais a ação e o thriller da franquia Operação Invasão, clara inspiração.

Por falar na franquia, outros astros foram reescalados além de Joe Taslim. São eles: Iko Uwais e Julie Estelle. Uwais e Taslim são mestres em artes marciais fora das telas, tendo já participado de inúmeros campeonatos grandes antes de se tornarem atores, o que chama mais a atenção nesse caso, é Julie Estelle: A atriz que teve seu primeiro contato com arte marciais em 2013, enquanto rodava Operação Invasão 2 (ela era a “mulher do martelo”), se sai muito bem nas coreografias, fluída, rápida, acompanha bem o ritmo da coreografia. Destaque também para Shareefa Daanish (de Macabre) e Hannah Al Rashid, irreconhecíveis, e que assim como Estelle, demonstram muita intimidade com as complexas cenas de ação. Cenas essas que não abusam de cortes rápidos ou da assombrosa câmera balançando (Shaky Cam). Todos ângulos são amplos e capturam bem toda a dimensão do cenário. Contam ainda com certos momentos inventivos, como a câmera pregada na nuca de Ito, enquanto ele distribui socos e facadas. É muito mais do que A Vilã (The Villainess, 2017) conseguiu ser.

Sempre é usado algum truque ao se adentrar em determinado local onde a carnificina irá tomar conta. Como algum personagem que observa os arredores, a câmera passeia pela locação, é para nos por a par da geografia local. Sem picaretagens, as lutas de armas brancas não escondem a brutalidade do instinto assassino que move todos personagens em tela. Com a exceção da mocinha salva no início do filme (e que criança traumatizada ela será!), todos os personagens que integram a narrativa são vilões, o clima frio e de distanciamento é intencional. De fato não temos com quem se identificar.

Diferente do recente 22 Milhas, a já citada execrável câmera balançando não é usada, o brilho das coreografias bens boladas são somadas à um trabalho de atores invejáveis. O resultado é um tapa na cara no trabalho de Peter Berg, que deveria se envergonhar de desperdiçar a presença de Uwais (em ascensão nos E.U.A.); Então é só apertar os cintos e contemplar a carnificina, e se no fim seu apetite por sangue ainda não estiver saciado é melhor procurar ajuda.

Crítica: Jailbreak (2017) de Jimmy Henderson

Filme é ainda pior do que aparenta.

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Não se deixe levar pela introdução no estilo seriado de pouca qualidade (como os muitos presentes na Netflix) que abre “Jailbreak”, com instabilidade na edição e uma aparência de amador, o filme consegue ser muito pior do que aparenta em seus minutos iniciais.

A trama gira em torno de uma grupo de policiais que ficam encarregados de escoltar um prisioneiro, que atende pelo nome de PlayBoy, até uma prisão de segurança máxima. Lá, uma rebelião se inicia, arquitetada por um sindicato criminoso formado apenas por mulheres (da qual PlayBoy fazia parte — ele era o único homem) para dar cabo do futuro prisioneiro pelo seu recente delato. Logo, o grupo de policial fica preso no meio da rebelião, e o jeito é partir para a pancadaria para sair com vida.

É de praxe no gênero uma trama pobre e sem nenhum desenvolvimento, usada como desculpa para a ação acontecer. Mas e quando a ação não compensa toda essa bobeira? Afinal, até mesmo a babaquice tem que ter um limite!

Em certo momento o grupo tem acesso a um celular, rapidamente ligam para o chefe encarregado, ele não atende, estava no banho, paciência… O telefone então se torna inútil. Não se pode ligar para mais ninguém no mundo, tem que esperar o encarregado retornar a ligação. São besteiras como essas que nos fazem desligar o cérebro para se concentrar na pancadaria, mas o problema não acaba aí.

Em outro momento, cansada de esperar resultados de dentro da prisão, a arquiteta de toda a situação (que pagou para matar PlayBoy) decide invadir a prisão para dar cabo do traidor ela mesma, portando apenas uma katana, e na companhia de outras mulheres, todas vestidas de couro e salto alto, invadem a prisão, ainda em rebelião, com dois minutos. “É uma longa história” a líder responde quando indagada como invadiu a prisão deserta (talvez fosse domingo e todos os policiais da cidade se encontravam de folga). Claro que não podia faltar o close-up na ‘bunda’ de cada uma das moças enquanto elas desfilam em slow motion pelos corredores vazios do cenário mal feito da prisão, que se resume apenas nisso: corredores e mais corredores.

Deixando a trama boba de lado, nos resta os aperitivos do gênero proposto pelo filme: artes marciais e comédia.

As lutas são compostas pelo único acerto do longa: o trabalho estável de câmara. O que deveria ser uma obrigação no gênero (como era nos anos 1970, 1980 e 1990) se tornaram um mérito em época de mediocridades como “The Equalizer” ou “A Colombiana”. A câmera emula o visto em Operação Invasão, longa que obviamente serviu de inspiração para JailBreak, há inclusive a câmera dinâmica que acompanha um corpo atirado ao chão, fazendo o movimento em 180° até que se tenha a imagem de ponta cabeça, retornando para a posição normal de forma a acompanhar o retorno do atingido para mais um round. Esse truque já foi emulado recentemente, em “Headshot“, mas tudo bem, JailBreak é uma produção da Camboja, país sem tradição no gênero.

Mesmo em meio ao bom trabalho de câmera, as coreografias podem parecer mais falsas do que o normal, os atores até que são bons, mas os movimentos são toscos com apenas alguns lapsos de bons momentos, faltou cortes mais precisos nos momentos de ataques mais complexos, parecia uma obrigação capturar tudo em plano sequência.

O diretor italiano Jimmy Henderson, ciente do absurdo da trama, resolveu colocar muito humor, sem saber que esse seria o prego final no caixão do longa. É de extremo mau gosto a comédia repetitiva de ‘caras e bocas’ forçadas durante todo o tempo por personagens concebidos como alívio cômico.

Já não basta toda a idiotice que se desenrola pelos seus 92 minutos, ainda sobra tempo para uma resolução patética e banal durante os créditos, não foi dessa vez que a Camboja produziu um bom filme de artes marciais, mas a culpa deve ser atribuída a incompetência de seu diretor, que já conta com mais dois filmes em pós produção, alguém pare esse homem!