As duas horas de catarse com Roger Waters em Belo Horizonte

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★★★★★

Eram 21:10 quando as luzes parcialmente se apagaram no estádio do Mineirão, um vídeo era exibido no enorme telão para as mais de 50 mil pessoas presentes, ansiosos para ver o ex-Pink Floyd. A imagem nos convidava a contemplar uma mulher, de costas para nós, observando o longínquo horizonte em uma praia deserta. “Começa logo” alguns gritaram, sem se dar conta de que na verdade, já havia começado. O vento lentamente se fundia com o batimento cardíaco e os ruídos iniciais de Speak to Me, é um convite ao estado atmosférico. O céu sob o horizonte lentamente se torna vermelho, é então que a introdução de quase quinze minutos termina, os músicos entram no palco, e os primeiros acordes de Breathe (In the Air) podem finalmente ser ouvidos. Os gritos são intensos, tomam conta do estádio, até dificulta ouvir a banda. “Já começaram a tocar?”, reagem os menos atentos. O coro era unânime, durante seus quase três minutos, o que se tinha era uma catarse geral, e isso era apenas o início.

A instrumental “One of these Days” vem logo em seguida para reforçar o tom psicodélico do Pink Floyd, o público ainda era um só, pouco se ouvia sobre “Ele Não” e afins. Até então, a multidão só tinha a purgação de suas paixões, isso se estendeu pelas canções seguintes. A fusão dos efeitos visuais presentes no telão fazia a tarefa de cantar em plenos pulmões uma dificuldade. Hipnotizante demais, era muito o que se admirar.

A tela, nunca uma mera reprodução do que se acontecia no palco, sempre uma reprodução com efeitos visuais impressionantes, a imagem dos músicos se fundiam com as viagens alucinantes das rimas visuais. Em Time, um mar de relógios eram despejados e se fundiam em uma espécie de íris. Meticulosamente pensado, Roger estava no centro da imagem, com sua posição sempre curvada, tocando seu baixo. Mas ele não é o único protagonista, ‘The Great Gig in the Sky’ abre espaço para Jess Wolfe e Holly Laessig da banda americana Lucius, cantarem em um tom hermético, em vários tempos, difundindo o canto da versão original, uma mudança mais do que bem-vinda, o estado hipnótico é constante e as lágrimas já escorriam em cascata.

“Welcome to the Machine” — música com forte presença de sintetizador, que ecoou por vários cantos do estádio em uma incrível distribuição de caixas, criavam uma constante procura pela fonte sonora. Essa versão ao vivo ficou ainda melhor do que a versão de estúdio, um incrível feito, pois trata-se de uma grande música do álbum “Wish you were Here”.

É então que o trio ‘Déja Vu’, ‘The Last Refugee’ e ‘Picture That’ do álbum solo de Waters, Is This the Life We Really Want? ganham o ar da graça, maravilhosas canções humanísticas que calaram o público, não por sua espantosa performance, mas pela falta de tato dos presentes com o trabalho solo de Roger Waters, é como se estivessem ali apenas para ver “Pink Floyd por Waters”! Não importa, os sete minutos de ‘Picture That’ foram esmagadores e já deixaram a deixa para “Wish you were Here”. O coro mais uma vez era unânime por todo o estádio e as lágrimas, mais uma vez uma realidade.

Quase cinquenta minutos se passaram desde o início da apresentação, era chegada a hora definitiva, “Finalmente!”, alguém gritou durante os acordes iniciais, já sabíamos o que esperar, era “The Happiest Days of Our Lives”, que anunciava o hino: Another Brick in the Wall! O Mineirão cai por terra, uniforme no coro, dividido em ideologia política. À esquerda, “Ele Não” ecoou durante boa parte da música, à direita, “Ele Sim” e “Mito” se somaram aos sons de vaias. As crianças belohorizontinas encapuzadas no palco, gradualmente revelaram seus rostos e a palavra “RESIST”, em sua camisa. Ao fim, a palavra também aparece no enorme telão. Era hora da divisão, a polarização política se intensifica.

Agora são quinze minutos de espera, uma pausa no evento. Hora de acompanhar os letreiros que anunciam: ‘Resist who?’ (Resistir à quem?) e suas explicações. Era um cenário tenso, algumas pessoas da pista premium se aproximaram da Pista Comum (onde eu estava), e fizeram gestos de ‘Bolsonaro 17’, a moçada do Ele Não nada podia fazer além de xingar, e jogar cerveja nos opositores que estavam na Premium, divididos até pelo preço do ingresso. Bobagens. O coro “música, música, música” era mais interessante.

Segunda parte do show, surge DOGS — alguns abandonaram a manifestação, mas liricamente, ainda estamos falando sobre política, Pink Floyd sempre criticou ambos os lados, e mais importante, sempre abordou temas políticos, logo, não esperar por abordagens políticas por parte do público é querer demais, ainda mais em um cenário como a do Brasil atual. Interessante será o show em Porto Alegre, independente das ideologias do público presente por lá, as eleições já terão se concretizado — a música se estende por quase vinte minutos. Algum maluco sobe na estrutura metálica do som e acende um cigarro, se queria chamar atenção não conseguiu, o show era interessante demais para perder tempo desviando o olhar, independente do que houve com o indivíduo, só causou danos a si mesmo.

O cenário que passa por uma metamorfose até se assemelhar a capa do álbum Animals, reforça que estamos diante de um espetáculo que vai além da música, uma verdadeira manifestação artística audiovisual, o visual onírico se intensifica. O estado de hipnose já era constante, a música somada aos efeitos já criavam a atmosfera apoteótica. É então que o grande porco flutuante sai pelo canto esquerdo do palco para sobrevoar todo o estádio, é a vez da música, de título bem sugestivo, “Pigs (Three Different Ones)”. O que fazer?: Cantar e assistir os músicos? Observar o porco voador? Acompanhar as duras críticas ao presidente Trump exibidas na enorme tela? Cada um se vira como pode. No meu caso, estava em estado de transe profundo, estático, hipnotizado demais para esbanjar qualquer reação.

Com máscaras de porcos, os membros no palco tomam champanhe, Roger ainda exibe a placa “Pigs rule the World” (Porcos governam o mundo), para logo em seguida, exibir uma segunda: “Fuck the Pigs” (Fodam-se os porcos).

O porco voador cai no meio do público à direita da pista. Não demorou para ser destruído por completo. A frase “Stay Human” cravadas no corpo do animal já não existia mais, foi dilacerado. Para alguns, uma lembrança, para outros, uma alegoria: Um senhor, após rasgar o porco inflável, amarra os seus resto na sua cabeça em tom de ironia e oposição. “Aqui está os restos mortais da Dilma e do PT”, grita outro, levantando a parte para o alto com os punhos fechados. Muitos outros, ainda chocados pelo ocorrido (intencional ou não), estáticos. É o melhor momento do evento!

O coro “Ele Não” retorna, saía da boca de muitos que sequer se moviam durante todo o evento, talvez tenham ido apenas para se manifestar? (é inteligível, afinal o show dá cordas para tal). E eu… ainda em transe, a única coisa que me ocorreu foi chorar mais uma vez! As guitarras de Dave Kilminster e Jonathan Wilson finalmente atingiram minh’alma — toda essa manifestação do público causada pela arte ainda em vigor no palco não poderia ter me causado nada diferente se não essa tempestade de emoções satisfatórias.

Em “Money”, Ian Ritchie surge no topo, ao lado das torres, com seu saxofone, poucos o enxergaram lá, isolado. A música mais uma vez une o público só para rapidamente se dividirem com Us + Them, é compreensível, mais uma vez estamos falando de guerra e política (não que o capitalismo de Money não faça parte).

Em Brain Damage e em Eclipse, flashes de luzes coloridas formam o arco-íris que atravessa o prisma formado por Lêiseres. Está formado a imagem que ilustra “The Dark Side of the Moon”. Invejo os que encontraram forças para cantar nesse momento, pois tudo que consegui fazer foi ficar como uma estátua, feliz e mais uma vez, impressionado demais, para fazer qualquer outra coisa. Aprender a letra de todo o álbum se provou inútil nesses momentos. Tinha ainda, uma esfera negra que circulava pelo estádio, que somada as várias luzes do local, formaram um maravilhoso buraco negro. Era o visual que faltava para complementar o prisma em meio ao espaço.

Um breve (porém belo) discurso de Roger sobre igualdade e cuidados com o planeta já antecipam as últimas músicas do evento. Sem ‘Mother’, a opção foi Two Suns in the Sunset (presente em The Final Cut), uma surpresa que deixou muita gente confusa.

Chegou o momento derradeiro, hora de Comfortably Numb, então é adeus. Os celulares mais uma vez se mostram presente para registrar a performance, por uma última vez (não é o meu caso), a música une todos em um único coro, e mais uma vez, as palavras não saiam, apenas o choro, já estava até mesmo nostálgico.

A imagem inicial volta a tela! Chegou o fim, todos deixam o estádio eufóricos, cansados — alguns até mesmo bêbados, se escorando em outros para não cair, talvez no outro dia se deem conta do desperdício.

Todos já sabíamos o que esperar do clima político do espetáculo, e independente da ideologia dos presentes nesse dia vinte e um de outubro de dois mil e dezoito, todos contemplamos um evento artístico. E que maravilhosa a arte que nos une em um único coro, mesmo que momentaneamente.

 

 

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Crítica: Quem bate à minha porta? (1967) de Martin Scorsese

Esse texto contém revelações sobre o enredo!

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★★★★

Logo nos minutos iniciais de “Quem bate à minha porta?”, acompanhamos o confronto entre duas pequenas gangues de Nova York. Portando apenas pedaços de pau, o confronto acontece na calçada, em alguma rua qualquer da cidade, o Rock N’ Roll anuncia o início do confronto, os sons das pauladas se fundem com o ritmo acelerado da música até que somos interrompidos de acompanhar sua continuidade, é a música que anuncia um ‘wait a minute’ (espere um minuto!), para então sermos transportados para outro momento da vida de alguns desses marginais. O filme é, não só o primeiro longa de Scorsese, como é também a do ator e amigo Harvey Keitel, que viria a trabalhar com o diretor em Caminhos Perigosos e Taxi Driver.

Minutos depois do confronto, acompanhamos as primeiras palavras trocadas entre J.R. (Keitel) e a personagem de Zina Bethune, nós nunca ouvimos seu nome, mas eles logo notam um interesse em comum: Filmes! Ela estava com uma revista francesa em sua mão, uma provável Cahiers du Cinéma, durante um longo plano de quase onze minutos, eles conversam sobre John Wayne em Rastros de Ódio de John Ford (em outra ocasião, Lee Marvin em O Homem que Matou o Facínora, também de Ford) e outros assuntos cinematográficos. Ao fim do plano, o corte nos leva de volta para a companhia de seus amigos, J.R. está melancólico, então sabemos que a narrativa segue dois tempos, o durante a relação com a moça e o que vem depois do rompimento. Esse vai e vem dos fatos ainda é, em alguns momentos, alterados e narrados em espaços mínimos, com cortes malucos, como quando acompanhamos um personagem roubando dinheiro da mulher enquanto estão se beijando, e os cortes não param de ir e vir no tempo.

Em ‘Quem bate à minha porta?’ muita coisa pacata acontece, ao mesmo tempo em que pouco se desenrola. O enredo é praticamente nulo na primeira metade, sendo uma colagem de vários momentos em diferentes tempos. Scorsese usa uma decupagem descompromissada, herança da Nouvelle Vague (principalmente de Godard). Há ainda o uso de slow motion: Em certa sequência, a câmera passeia pelo cenário enquanto observamos os amigos brincarem com uma arma de fogo. O filme é quase que uma montagem de vários momentos do grupo de amigos, uma real captura do estilo de vida simples e lento que eles levam.

É uma simplicidade que diverte, como na sequência de vários minutos em que os amigos disputam quem será o primeiro a entrar no quarto com a única moça disponível na ‘festa’ na casa de Joey. Um deles usa um óculos de sol dentro do apartamento escuro enquanto assiste Charlie Chan na TV.

Em certo momento, após saírem de uma sessão de Cinema: — Aquela moça era uma assanhada! disparada J.R. sobre uma personagem do filme que acabara de ver. — O que quer dizer? retruca sua namorada. — Assanhada é uma mulher descompromissada, que fica com vários homens, boa de cama, mas que nunca vai conseguir se casar! Após tal explicação, a narrativa abre espaço para o surrealismo. É um sonho, nele acompanhamos o relacionamento de J.R. com uma ‘assanhada’. Ao som de ‘The End’ do The Doors, uma panorâmica demonstra o sexo, os corpos nus entrelaçados, afastados da realidade, até mesmo deslocada da própria narrativa! Essa sequência foi demandada por outros, queriam sexo de alguma forma no filme para distribuírem, Scorsese se saiu bem na escolha de como incorporá-la

É só na segunda metade que ouvimos da namorada de J.R. o evento traumático que ela passou, fora estuprada anos antes. J.R. não reage da melhor forma, perde a cabeça, dispara comentários cretinos e sujos, ele a culpa.

Sem saber lidar com a situação, ele embarca em uma noite de bebedeira com os amigos, é daí que viera a melancolia. Os vários tempos da narrativa se fundem em uma última tentativa de J.R. lidar com a situação.

A falta de delicadeza para lidar com tal assunto demonstra a incapacidade do protagonista em entender a grande confiança que ela deposita ao se abrir sobre o ocorrido. O personagem falha miseravelmente em considerar a dor daquela que ele ama. Chateado, sequer consegue encará-la novamente, um covarde. Uma covardia necessária para nos ensinar, para que nunca cometamos tal erro diante de uma vítima de um ato tão covarde!

Todos os elementos que viriam fazer parte da carreira consagrada de Scorsese já estavam lá, alguns mais modestos, outros já bem explícitos. Muito se diz sobre os eventos serem na verdade uma dramatização de vários momentos reais vividos por Scorsese, é uma afirmação que só ele pode confirmar. Alguns até podem enxergar toda a estrutura do filme como uma grande falha, mas que falha maravilhosa essa a que Scorsese cometeu no seu início de carreira.

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Crítica: Paradise Lost – Host (1999)

Em nova remasterização, Host ainda se prova desafiador.

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★★★★

É sempre curioso notar a evolução de uma banda de Doom Metal proveniente do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a maioria delas transgrediram para o Rock Eletrônico (Synth Rock), Rock Gótico ou até mesmo para o Rock Alternativo e ali se enraizavam até encontrar o seu fim — como The Gathering e a belíssima Theatre of Tragedy — ou ainda, enfrentar uma nova e inevitável mudança sonora.

O Paradise Lost (desnecessárias as apresentações) iniciou em 1990 com seu ‘Lost Paradise’, onde um Death Metal seco já mostrava um potencial escondido na voz de Nick Holmes, e também nos instrumentos de Gregor Mackintosh e sua trupe, avançando nove anos, a banda já teria se estabelecido no Doom Metal, com os clássicos: Gothic (álbum que ainda seria importante para a formação do cenário-nome do álbum), Shades of God, Icon e o ápice Draconian Times. Mesmo que em boa parte desses álbuns algumas músicas já flertavam com o rock gótico (seria esse realmente um gênero musical?) a evidência de uma mudança começaria a se mostrar no prelúdio de 1997, com o lançamento do álbum ‘One Second'(de onde saiu Say Just Words), mas seria em 1999 que o Paradise Lost se mostraria uma banda corajosa, ao desafiar os ouvidos dos fãs com o álbum HOST.

O trabalho em si é uma abolição de todos os degraus escalados pela banda até então, uma espécie de reinvenção, a começar pela ausência das guitarras pesadas (ainda presentes no álbum anterior) e a adição constante de sintetizadores. Hoje, 19 anos depois, já sabemos que a banda retornaria para a sua zona de conforto com os triunfais “The Plaque Within” e “Medusa”, mas em sua época de lançamento, a guerra estava armada. Depois do lançamento, se desintegram os de ouvidos mais fechados, enquanto isso, claro, muitos outros chegaram. Teria então um dos pioneiros do Doom Metal se entregado ao cenário comercial, com direito a shows e clipe constantes na MTV? A resposta fica a cargo do caro ouvinte/leitor — O melhor álbum cover do Depeche Mode, alguns ainda gostam de debochar.

Host pode ser o ápice, ou um momento maldito, depende da variação musical aceitável por quem escuta — Existe algum fã de PL que não tenha um gosto variável? Desde o lançamento do HOST, os setlists da banda se transformaram em uma verdadeira salada de gêneros musicais. Para se ter um gostinho disso basta ouvir a ótima As I Die e em seguida colocar So Much is Lost, a música que abre HOST com maestria.

Todo o potencial do álbum foi recentemente resgatado em seu recente relançamento, o HOST REMASTERED, uma celebração a um momento controverso. De forma integral, as suas 13 músicas permanecem lá, intocadas, claro que com uma qualidade superior. A já citada So Much is Lost ainda fez carreira no setlist da banda, com eventuais aparições nos dias atuais. Foi ela também o primeiro single do álbum, tendo sido lançada um mês antes do álbum completo. Host ainda renderia um outro single, mais tardio, lançado quatro meses após o lançamento inicial de HOST, estrelando a viciante Permanent Solution (talvez devido ao eminente sucesso do vídeo clipe reprisado na MTV?), onde era composta da versão oficial do CD e outra editada para o vídeo clipe, que tinha uma introdução diferente e uma presença maior dos sintetizadores. Como bônus, além de faixas ao vivo, o single ainda trazia uma nova versão remixada do hit de sucesso “So Much is Lost”, a pouco conhecida “So Much Is Lost (Sanbreeze CO2 Remix)”, música que poderia muito bem estar incluída nessa nova remasterização do álbum.

Mesmo devendo em faixas bônus, o controverso álbum ainda mostra forças 19 anos após seu lançamento e segura o ouvinte pelos seus rápidos 52 minutos de duração. É difícil deixar uma faixa de fora em uma possível playlist montada a partir do álbum, uma composição atrás de outra, a voz mutável de Nick Holmes é apaixonante. A atmosfera de difícil assimilação para muitos, ainda se prova bastante fiel aos conceitos iniciais da banda, mesmo soando tão diferente de tudo que a banda tenha feito até então.

Os breves momentos instrumentais são os típicos sintetizadores que emulam uma constante vontade de fazer um loop do devido momento, é como a introdução (e também os momentos finais) da música título: Host. São cinco minutos de uma poesia repetitiva (longe de ser algo ruim) que contém espaço para todos os instrumentos terem o seu devido destaque, como o maravilhoso solo que nos leva pela mão para o desfecho da obra, acabando de forma poética e melancólica o que se iniciou como uma trilha sonora de alguma festa aleatória do início dos anos 2000.

Mesmo sendo um longo passo para longe do metal, o Paradise Lost se manteve no topo com 13 faixas atemporais, o famoso “ame ou odeie” muitas vezes empregados para determinar algo bem divergente, talvez seja aplicável em HOST (como também é o caso do álbum “34.788%… Complete” dos monstros britânicos do Doom Metal: My Dying Bride). É difícil não se encantar com essa remasterização de qualidade sendo apreciador da obra, e de carona, quem sabe esse relançamento não se prove para alguns, uma desculpa para revisitar o que antes era ignorado? Apenas o tempo dirá.

Setlist:
“So Much Is Lost”  – 4:17
“Nothing Sacred” – 4:02
“In All Honesty”  – 4:01
“Harbour”  – 4:23
“Ordinary Days”  – 3:30
“It’s Too Late”  – 4:47
“Permanent Solution” – 3:17
“Behind the Grey” – 3:13
“Wreck” – 4:41
“Made the Same” – 3:33
“Deep” – 4:00
“Year of Summer” – 4:17
“Host”  – 5:12

Integrantes:
Nick Holmes – Vocal
Gregor Mackintosh – Guitarra
Aaron Aedy – Guitarra
Steve Edmondson – Baixo
Lee Morris – Bateria

*Crítica também publicada (em colaboração) no site Whiplash!

Crítica: Escrito na Lei (2016) de Johnny Ma.

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★★★★★

A cena que abre Old Stone é composta por uma captura ampla de árvores ao vento, balançando enquanto a natureza assopra de um lado e para o outro. Esse local será revisitado por nós algumas outras vezes durante o longa!

Longe desse contexto sereno, nas ruas movimentas de uma cidade chinesa, mas que poderia ser em qualquer outro lugar do mundo, um grupo de curiosos se aglomera. Sem delicadeza, a câmera nos mostra que o observado é um homem caído em meio ao asfalto, com sua moto destroçada ao seu lado, tendo convulsões, provavelmente devido à uma pancada extremamente forte na cabeça, a multidão de nada ajuda, apenas o observa, em quanto a vítima se contorce em meio a dor. A multidão nervosa começa a tentar a achar um responsável por essa tragédia, alguém precisaria ser julgando como culpado. É em meio à essa situação que encontramos ali, afastado do grupo, com um celular na mão, a única pessoa que parece fazer algo mediante a essa situação extrema, esse homem é Lao Shi (Chen Gang), o motorista de táxi que acertou o pobre rapaz estirado no chão, aguardando retorno da emergência à sabe-se lá quanto tempo. É bem sabido que não se deve mexer em um corpo acidentado antes do socorro chegar, porém, cansado de esperar a ambulância e temendo pela vida do pobre rapaz, Lao decide levar a vítima para o hospital por conta própria, mesmo sendo alertado de que tal atitude é contra lei e de que poderia agravar ainda mais a situação física do acidentado.

Na delegacia, encontramos um Lao Shi cansado, tendo já entregue a vítima para o hospital, já tendo pago as caríssimas taxas de entrada em seu cartão de débito, mesmo sem ter condições para tal ato e mesmo sem nenhum parentesco com o agora internado rapaz, que vem a se encontrar em coma devido ao acidente. Então nos é revelado através de seu depoimento de que o acidente foi causado por conta de um passageiro alcoolizado, que virou o volante em um momento de baderna dentro do Táxi de Lao. Suas palavras são o bastante para nos convencer, sem imagens ou testemunhas, de que este homem diz a verdade sobre o acidente, ele não teve culpa, mas parece não ser o suficiente, lhe cai toda a responsabilidade quanto as despesas médicas, ou seja, ele terá que cobrir todas as despesas enquanto o vitimizado se encontrar em coma. “O passageiro embriagado deixou a cena do crime em um outro Táxi” diz Lao aos policiais que parecem não o levar muito a sério, ocupados demais em suas próprias obrigações rotineiras.

Quando conhecemos sua casa e sua família, temos a certeza daquilo que já se era o esperado, Lao é um homem humilde. Ele mora nos interiores de uma creche, da qual sua esposa a usa como ganha pão. Sob o mesmo teto, conhecemos também a filha de Lao, com sua expressão de quem gostaria de mais atenção do super ocupado pai, que trabalha para sustentar o lar.

Daí em diante acompanhamos a vida desse homem comum, honesto, trabalhador, que tem sua vida virada ao avesso, através de um furacão de situações da qual não lhe é possível controlar. Testemunhamos sua luta contra o sistema judicial, sua tentativa para tentar encontrar o passageiro embriagado e também vamos vir a conhecer seus medos e suas imperfeições. Nos é dado a tarefa de acompanhar essa luta do homem honesto contra todos os demônios que habitam nossa sociedade atual, vítima de todo esse sistema falho, sedento por apontar um culpado.

Em determinado momento dessa jornada, a honestidade e a lindíssima consideração pelo outro, começam a ruir, toda a sua força de vontade é substituída pela indiferença. Lao é sugado para o seu próprio mundo de obrigações, cada vez mais passa a fazer parte da sociedade da qual ainda permanecia intocado. Uma vítima da sociedade, uma vítima da indiferença para com o próximo. Um homem comum, jogado como uma pedra antiga, em meio à um rio tempestuoso e composto por um profundo vazio.

A trilha sonora do filme vem em raras ocasiões, em sua maioria, ela compõe os momentos de incerteza mediante as ações não concretizadas de vingança, de ódio, em outras palavras ela é o que acompanha Lao nessa jornada sem volta para o fundo do poço onde somos todos pagantes e malfeitores. Mesmo que em raros momentos pareça recobrar seu bom senso, Lao imediatamente se vê praticamente imerso em meio a essa situação que se agrava a todo momento, o que o deixa sem muito o que fazer, se não concretizar o mau. Afundando-se cada vez mais nesse espiral social, não nos resta muito, a não ser testemunharmos mais uma vítima rotineira da sociedade.

Durante esse processo, volta e outra acompanhamos a alma serena de Lao, que são como lindas árvores em meio ao vento, que deixam-se se levar de um lado para o outro. Esse comparativo alcança o ápice em meio ao clímax, onde as árvores se tornam alheias ao vento que as rodeiam e se tornam estáticas.

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Filme disponível para aluguel/compra no YouTube:

“Resident Evil 7” une fórmula moderna e antiga.

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★★★★

Foram muitos os deslizes da Capcom em relação à Resident Evil, a franquia já passou pelo céu e pelo inferno (às vezes transitando entre os dois em um mesmo título). O fator ‘inovação’ parecia perdido depois de Resident Evil 6, um título que tentou agradar gregos e troianos, mas que falhou em capturar sua essência.

Podemos dividir a franquia em duas fórmulas básicas: A fórmula antiga, que prezava pelos quebra-cabeças mirabolantes e a dificuldade antiquada em um tempo pré Dark Souls (estamos falando dos anos 1990 afinal), ou seja, Survival Horror em sua forma mais pura (pouca munição, poucos saves, pouca noção de objetividade). E a fórmula mais recente — Os fãs da primeira fase já não suportavam mais anúncios de um tal Umbrella Corps (se bem que esse é difícil agradar qualquer um), que apela para essa fórmula com cara de anos 2000, a ação desenfreada! Popularizada por Resident Evil 5, mas que convenhamos, começou realmente (mesmo que de forma mais controlada) em Resident Evil 4.

Uma divisão já estava se formando em 2005 (com o lançamento do quarto capítulo) e se consolidou de vez com o lançamento do quinto título, em 2009. Já na década atual, a Capcom tratou de tentar achar um meio termo para agradar ambos os lados, eis que surge a salada RE 6 e os spin-offs RE: Revelations.

Os mais puristas, se entregaram ao excelente remake do primeiro capítulo e a pré-sequência “Resident Evil: Zero”. Os mais vidrados na segunda fórmula já se ligavam nas remasterizações de RE 4, 5 e 6. Claro que existem os adeptos à franquia que se deliciam com ambas as fórmulas, mas esses são mais raros.

É nesse cenário dividido que surge Resident Evil 7, que segunda a imprensa especializada é: “Uma volta as raízes”. De raiz, RE 7 bebe pouco, a Capcom finalmente acertou a mão nas misturas, como vem fazendo desde o início da década, e é isso que dá o tom a esse novo capítulo.

Se olharmos para a história da franquia como um todo, e compararmos com a situação do gênero Survival Horror, podemos fazer um comparativo da qual a franquia vem sempre acompanhando as tendências. P.T. (Silent Hills para os íntimos) já sinalizava o retorno da franquia Silent Hill para a sua forma clássica (mesmo não concretizado), utilizando uma câmera bem produtiva e atual, em primeira pessoa, como a do hit “Outlast”.

Diferente da trama habitual, RE 7 é um drama mais pessoal. O objetivo maior é sobreviver, e não resgatar a filha do presidente ou evitar a propagação de um novo vírus — não só sobreviver, como ir atrás da esposa Mia, desaparecida há três anos.

Sem apelar para sustos fáceis, o game investe mais em atmosfera. Ganha muito com a câmera em primeira pessoa, é dinâmico e lento, com quebra-cabeças mas não exagerados (meio repetitivo às vezes), não te leva pela mão mas não é um poço escuro (existe o letreiro que anuncia o objetivo a ser seguido), é horror mas com pitadas de ação (nas lutas contra chefes). É Survival Horror antigo com cara de moderno.

É um vai e vem sem fim procurando uma forma de abrir uma porta trancada, os itens escassos estão de volta, não atire nos Bakers (família antagonista que parece saída d’O Massacre da Serra Elétrica de 1987), eles não são zumbis que morrem fácil, sequer são zumbis, são praticamente imunes aos danos que Ethan (personagem protagonista) pode causar, e ainda se regeneram.

“Cadê os zumbis?” os mais desavisados podem se perguntar, a resposta é ampla e resumida: “Resident Evil nunca foi sobre zumbis, é sobre vírus e armas biológicas” (daí o nome original Biohazard). RE 7 se despe da ação desenfreada abordada nos títulos lançados nessa década,  reutiliza parte da fórmula antiga com a roupagem mais comercial e moderna atual no gênero. Para uma real volta as raízes, seria necessário uma abordagem muito mais punitiva, mas esse é um risco que a Capcom não está em posição de assumir.

No fim, quando se está com a manete na mão, o passado não importa, o que vale é a experiência atual, e nisso, Resident Evil 7 cumpre muito bem o seu papel.

*Originalmente postado no antigo Oriente Extremo.

Crítica: Theatre of Tragedy – Theatre of Tragedy (1995)

Álbum de estreia merece ser ouvido de joelhos

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★★★★★

Em qualquer meio artístico, acontece de obras-primas ficarem esquecidas pelo grande público, no cinema por exemplo, mestres absolutos como é o caso do japonês Akira Kurosawa, diretor de grandes filmes como: Os Sete Samurais, O Barba Ruiva e Kagemusha. Além disso, ainda existem equívocos por parte dos ‘Cinéfilos formados no Netflix’ de nunca entrarem em contato com nomes como John Ford, F.W. Murnau, diretores mais do que essenciais para qualquer amante da sétima arte.
No metal, esse equívoco e indiferença com os clássicos não poderia ser diferente, e infelizmente, talvez seja onde se faz mais presente. O fato é: Aquilo que não está em evidência não capta a atenção do público recém iniciado; e ainda temos muitos ouvintes enraizados em um único gênero (ou sub-gênero?), que despreza por completo outros selos do metal (muitas vezes sem motivo aparente), isso cria muros e conflitos desnecessários entre os fãs. Não deveria existir barreiras de gêneros em qualquer meio artístico, especialmente na música. Se no metal isso parece irremediável nos tempos atuais, o público no final do século passado parecia mais maleável diante de novidades.

No meio desse vórtice hostil que é o cenário, o Doom Metal (e suas vertentes) encontrou espaço para adicionar o impensável para os fãs puristas do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, de violinos a vocais femininos líricos. Felizmente, bandas como My Dying Bride e Paradise Lost já estavam enraizadas como um dos grandes nomes do gênero Death/Doom, e medalhões como Celtic Frost e Candlemass estavam a todo vapor.

Em 1995 surgiu o Theatre of Tragedy com seu álbum auto-intitulado, misturando poesia, tragédia e fantasia. Cantado em um inglês que emula o período inicial moderno (Early Modern English) — similar aquele que tanto estamos acostumados nas obras de Shakespeare, com a presença de “Tu e Vós” por exemplo. O álbum iniciou o famoso ‘Efeito Bela e a Fera’, que é a divisão da voz soprano feminina, quase angelical, somadas com um gutural masculino, no caso do Theatre of Tragedy eram Liv Kristine e Raymond Rohonyi respectivamente. Esse contraste serviu de base para muitas bandas, das quais podemos incluir o Tristania, The Sins Of Thy Beloved, Draconian, etc.

Compostos por oito atos e um epílogo, com aproximadamente quarenta e cinco minutos ao todo, somos transportados para um mundo de trevas com chamas de amor que queimam constantemente. A morte parece se achegar aos poucos, sorrateiramente. Esse conto narrado em forma de poesia consegue estabelecer um clima que resulta em uma catarse no ouvinte.

Esse poema soturno prevalece sobre o cenário construído pelo instrumental arrastado, destaque para o piano de Lorentz Aspen, que dá um toque maior há atmosfera teatral.

No quinto ato — “…a Distance There Is…” abre espaço para o solo, já estamos exatamente no meio desse furacão negro quando a voz solene de Liv ecoa em meio à chuva e trovões que preenchem a sala com tristeza e uma beleza melancólica.

“Dying – I Only Feel Apathy” nos leva de volta para um grande salão escuro onde a peça é entoada. Nós somos a plateia, os instrumentos são o cenário, e o dueto (Liv e Raymond) os atores no centro, cantando sobre sofrimento e rancor em momentos finais agonizantes (sem abrir mão da beleza e da poesia).

Por fim, um epílogo instrumental: “Monotone”. Saem os atores! A tragédia já se consumou, então nos resta apenas o cenário vazio. Shakespeare ficaria orgulhoso. “Theatre of Tragedy” é para se ouvir de joelhos, seja por sua atmosfera bem construído ou pela sua facilidade em nos levar para outro lugar.

1) A Hamlet For A Slothful Vassal – 4:05
2) Cheerful Dirge – 5:02
3) To These Words I Beheld No Tongue – 5:06
4) Hollow-Hearted – 4:57
5) …A Distance There Is… – 8:51
6) Sweet Art Thou – 4:58
7) Mire – 3:58
8) Dying – I Only Feel Apathy – 4:08
9) Monotone – 3:10

Integrantes:
Raymond István Rohonyi – vocalista
Liv Kristine – vocalista
Eirik Tjelta Saltrø – baixista
Pal Bjastad – guitarrista
Tommy Olsson – guitarrista
Lorentz Aspen – tecladista
Hein Frode Hansen – baterista

*Crítica também publicada (em colaboração) no site Whiplash!

Crítica: A Espada da Maldição (1966) de Masaki Kobayashi

Uma anatomia da Maldade.

Sword-of-Doom

★★★★★

A sinopse: “Japão, 1860. No crepúsculo de uma Era, acompanhamos a jornada sangrenta de um samurai amoral que mata sem compaixão ou escrúpulos, dedicando sua vida ao mal.”

Nas palavras de Morgan Freeman: “É mais divertido interpretar o vilão“, talvez Nakadai já pensasse assim nos longínquos anos 60 quando interpretou Ryunosuke em ‘A Espada da Maldição’, pois tamanha é a sua conexão com o personagem. Toda a maldade do perturbado personagem não precisa mais do que olhares do expressivo ator para demonstrar a quantidade de camadas que a maldade agrega dentro de um ser que dedica sua vida a crueldade. De que outra forma esse personagem criado nas páginas das novelas de Kaizan Nakazato poderia ser transportado para a tela, senão por um grande ator? Com um currículo que já contava com ótimas atuações, como na trilogia Guerra e Humanidade, Harakiri, Kwaidan, Sanjuro  o que mais esse homem pode alcançar como ator depois de todos esses clássicos? A resposta vem nesse trabalho de Kihachi Okamoto.

Lançado em 1966  no mesmo ano foram lançados O Rosto da Maldade e Cash Calls Hell, ambos com Nakadai no papel principal ‘A Espada da Maldição’ foi inicialmente planejado para ser uma trilogia, porém por motivos misteriosos (dinheiro talvez?), a trilogia nunca foi continuada, deixando tudo no vácuo logo após o fim desse que seria o primeiro filme da saga de Ryunosuke. Interessante notar que no início da mesma década, o diretor Kenji Misumi já havia iniciado uma trilogia baseada na mesma obra literária, chamada Satan’s Sword (Espada de Satã em tradução literária), trilogia que foi finaliza um ano depois de sua concepção (1960 – 1961).

Independente de qual tenham sido as motivações para a descontinuação da obra, o fim abrupto que deixa muitas coisas no vácuo acaba funcionando a favor do longa, criando um anticlímax muito bem estruturado com pontas soltas cabíveis na imaginação do espectador.

Hiroshi Murai que trabalhou na fotografia de tantos outros filmes do gênero, como Samurai Assassino (também de Okamoto), realiza um de seus trabalhos mais marcantes em preto e branco. É maravilhoso de se ver a batalha na floresta em torno da névoa, a batalha na neve onde Toshiro Mifune duela contra dezenas de inimigos e a sequência violenta no bordel, sequência essa que contem uma beleza estética de tirar o fôlego.

A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.” [Sigmund Freud – Trecho de entrevista concedida a George Sylvester Viereck em 1926.]

Nos primeiros minutos, a bondade é expressa pelo amor fraterno recíproco. A relação entre avô e sua sobrinha, o carinho, a delicadeza das palavras. O tom que transborda o bem estar sempre foi um fator cultural no Japão feudal, o falar é quase que um canto. Por trás, uma figura sombria se aproxima, eis que somos apresentados a Ryunosuke, que assassina o senhor sem qualquer motivo aparente. Na superfície, pelo menos, não existe um motivo concreto. Sua neta é poupada da presença de Ryunosuke, unicamente por ter se afastado para buscar água minutos antes. Após cometer tal atrocidade, Ryunosuke encontra mais uma vítima em potencial caminhando em sua direção, este se salva por pouco, não por misericórdia, mas sim por descaso. O mal não precisa de motivações aparentes para exercer sua função.

Ryunosuke é um samurai, logo ele deveria servir a esse propósito honrado, ao código, ao Bushido, ser fiel à sua cultura. Como pode um homem desse ciclo ser adepto à misantropia? Essa aversão não é apenas à natureza humana no geral, ela também é cultural. “O homem deve conhecer primeiro a sua alma, para então conhecer sua espada”, essa é a frase dita em determinado momento por Toranosuke Shimada (o sempre grande Toshirô Mifune), tal frase somada pela demonstração de habilidade e confiança contra os companheiros de Ryunosuke faz com que ele crie uma instabilidade. Esta que vem a ser recuperada uma vez que seu próprio ódio é restabelecido. O ódio é sua verdadeira essência, e só nos momentos de ira é que vemos o personagem sair da sua frieza constante.

Todos que rodeiam Ryunosuke são sugados para esse grande vórtice maligno, sua ‘mulher’ é o fruto de um assassinato, seu filho nada mais é do que um estorvo, seus companheiros nada mais são do que meras carnes ao vento (sejam os seus companheiro de clã ou seus comparsas assassinos da qual viria a se juntar no futuro), o irmão de uma de suas vítimas é tomado por um desejo cego de vingança. Todos são tragados para o mal caminho, porém, sempre lhes é dado o poder da decisão final, mesmo assim, o maligno é a escolha optada.

Quando todo o mal que fizera retorna para confronta-lo, seus olhos deixam de ser os únicos indícios de sua humanidade, aí que brilha a genialidade de Nakadai! Um desespero palpável. Sombras de suas vítimas, banhadas pela fúria de um adepto à maldade, vingativo contra o próprio sentido cultural. Em seguida uma violência fortíssima compõem os momentos finais da película, quando finalizado, só nos resta imaginar como teriam sido mais outros dois longas que seguiriam fazendo uma anatomia de toda a maldade que habita o interior daquele que é amaldiçoado pela sua própria natureza.

*Crítica originalmente publicada no antigo blog: Oriente Extremo.